Por que Vinicius Jr. não é na seleção o mesmo do Real Madrid e como ausência de Neymar é chance de assumir protagonismo

O trono da seleção brasileira está vago. Sem Neymar, que sofreu a lesão mais grave da carreira justamente na rodada passada das eliminatórias para a Copa do Mundo, a equipe nacional inicia nesta quinta-feira (16), contra a Colômbia, a busca por um novo protagonista que lidere o time em campo pelos próximos meses.

Vinicius Jr. é o candidato natural, mas vai ter que superar seu próprio histórico para mostrar que está apto a assumir a responsabilidade. Titular absoluto e já ídolo do Real Madrid, o atacante ainda não repetiu com a camisa amarela o mesmo rendimento que tem jogo após jogo na Europa.

Parte desse problema é perceptível pela grande qualidade de Vinicius Jr. no Real que raramente aparece na seleção: a capacidade de driblar os adversários. Levantamento do DataESPN aponta diferenças gritantes nos números do atacante sob comando de Carlo Ancelotti no clube e nos dois jogos que realizou com Fernando Diniz pelo Brasil.

No Real Madrid, Vini tem média de 2,9 dribles certos por jogo na atual temporada e 0,8 ação defensiva a cada vez que entra em campo, o que significa dizer que tem mais liberdade para arriscar lances individuais e nem tanta responsabilidade de marcação. Só que, na seleção, os dados se invertem.

Titular contra Equador e Uruguai, Vinicius Jr. saiu com apenas um drible certo por partida (três vezes menos que a média do Real Madrid) e também 2,5 ações defensivas, o triplo do que costuma realizar no clube. Também acabou os dois jogos pela seleção sem finalizar a gol, em mais atuações discretas pela equipe nacional.

O problema, é verdade, não é de agora e aparece desde os tempos de Tite. Com o antigo treinador da seleção, Vinicius Jr. acertava 1,5 drible em média por partida, menos da metade dos 3,1 que ele consegue no Real Madrid desde a chegada de Ancelotti ao Santiago Bernabéu, em julho de 2021.

Esse é apenas um recorte: nas demais estatísticas, o astro sempre tem melhores números no Real do que na seleção. Em seu clube, Vinicius Jr. tem melhor média de gols (0,43 x 0,13), melhor média de assistências (0,32 x 0,13), demora menos minutos para participar de um gol (112,4 x 232,3), possui mais ações na área rival (8,5 x 4), finaliza mais (2,4 x 1) e cria mais chances (1,9 x 1,5). O próprio atacante reconhece que ainda está devendo.

"Acredito que meu ciclo na seleção ainda não foi como eu espero", falou Vini após a derrota por 2 a 0 para o Uruguai, em outubro. "Tenho muito que evoluir pra conseguir jogar na minha melhor versão, como eu faço no Real. Claro que a pressão também é grande, e eu estou sempre preparado", disse o atacante, para depois falar especificamente da atuação no atual ciclo.

"Fui muito mal na partida, fui muito mal na última partida também. Tenho muito que melhorar, a equipe também tem muito que melhorar. Mas é estar com a cabeça tranquila pra poder fazer o melhor pela seleção".

Diferentemente da última Data Fifa, Vinicius Jr. tem agora a oportunidade de ser o real protagonista, pois não terá Neymar a seu lado. O desempenho do atacante do Real Madrid sem o craque do Al Hilal é modesto na seleção: três vitórias, dois empates e duas derrotas em jogos como titular.

Vini espera escrever uma nova história a partir de agora, já que a seleção depende bem mais dele agora do que em outros tempos. Elogiado por Fernando Diniz nos microfones e também nos bastidores, o atacante tem a confiança total do técnico para se movimentar com liberdade e repetir tudo que faz com a camisa merengue, mas sem o peso de ter que ser "o cara" do Brasil na ausência de Neymar.

"Muitos podem assumir esse protagonismo, mas é importante que não se coloque esse peso. Não existe essa necessidade. Os jogadores têm que se sentir leve e cada um fazer seu melhor. Jogadores se destacando no cenário mundial, nos melhores clubes do mundo. Raphinha no Barcelona, Rodrygo e Vini Jr. no Real Madrid, Martinelli e Jesus no Arsenal. De maneira natural eles vão assumir esse protagonismo. Mas ninguém tem que se preocupar em assumir o papel do Neymar. Devem jogar de maneira descontraída e sendo eles mesmos para que o jogo flua e que as coisas aconteçam de maneira natural", falou o treinador.

Comentarista dos Canais Disney, Renato Rodrigues analisou a situação que envolve o astro brasileiro. E explicou como o jeito de jogar do Real Madrid ajuda Vini Jr..

"Concordo com essa visão (de que o Vini Jr rende menos com o Diniz por choque de estilos). Acho que nos primeiros jogos do Diniz ficou um pouco claro que o Vinicius tem um pouco mais de dificuldade nesse jogo mais aproximado, curto e com pouco espaço. Não é a característica dele, é um cara que precisa de metros para correr, para acelerar, ir pro 1 contra 1. O Real Madrid gosta muito de trabalhar a bola de um lado e inverter rápido para pegar ele em velocidade, com campo aberto, com espaço. Não é característica dele. Por outro lado, a gente pode olhar de uma outra maneira. Talvez, jogando assim com o Diniz, ele desenvolva isso, o que deixaria ele mais completo. Mas, hoje, por exemplo, vejo ele com dificuldades. Está bem claro. Hoje, não é dele. Se ele jogar por dentro, isso pode até se agravar", disse Renato.

Vinicius Jr. tem tempo, apoio também. E, claro, capacidade de ser o principal nome da seleção. Falta agora o encaixe final para explodir de vez.

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