Mesmo quem desvaloriza ao extremo os Estaduais no Brasil hoje em dia reconhece a força e a capacidade que esses torneios regionais têm para demitir treinadores e para levar felicidade a várias torcidas, inclusive as dos clubes mais poderosos que focam mais nos campeonatos mais importantes.
Em um resumo breve dos resultados nos principais Estados do país, vemos a confirmação do que eu já apontei há alguns meses: os treinadores portugueses têm muito mais sucesso do que os nossos “hermanos” no futebol brasileiro.
Abel Ferreira tornou-se o técnico mais vitorioso da história do Palmeiras de forma isolada ao conquistar seu quarto Paulista (é o torneio que mais venceu à frente do alviverde), com 11 troféus, sendo que foi à final estadual nas seis temporadas em que dirigiu o time.
No Rio de Janeiro, o técnico brasileiro mais europeu e promissor, Filipe Luís, perdeu o emprego e viu o luso Leonardo Jardim, que fez belo trabalho no Cruzeiro, sair campeão na final contra o Fluminense do argentino Luis Zubeldía, ainda sem taças no Brasil. No Gauchão, Luís Castro (o português que comandou o melhor primeiro turno já visto no país à frente do Botafogo) engoliu na decisão o uruguaio Paulo Pezzolano, deixando o Inter ainda mais em crise e revigorou o Grêmio.
Em Minas Gerais, Tite conseguiu se reabilitar e foi campeão com o Cruzeiro em cima do Galo, que hoje é do argentino Eduardo Domínguez e que era do conterrâneo dele Jorge Sampaoli (o ex-técnico da seleção brasileira igualou um feito de Telê Santana ao vencer os quatro principais Estaduais do país).
Para fechar com gosto a série de insucessos dos técnicos argentinos no Brasil, o São Paulo tomou a decisão polêmica de mandar embora Hernán Crespo, que vinha melhorando o time neste ano.
Eu não sou desses que tratam os Estaduais como se fossem nada atualmente, tenho profundo respeito pela história desses torneios (agora ainda mais enxutos) e vejo com bastante interesse os clássicos e os duelos regionais decisivos como os do último final de semana. Embora critiquem nosso calendário e outras peculiaridades do nosso futebol (cada vez mais sintético), os treinadores estrangeiros acabam entendendo nossa cultura e se esforçam para ganhar também os Estaduais.
Abel Ferreira, tão competitivo, é a maior prova disso. Ele valoriza o Campeonato Paulista, sobretudo os clássicos e a reta final (luta sempre para fazer a melhor campanha e ter a vantagem de decidir em casa), assim como Guardiola não abre mão da Copa da Liga da Inglaterra, o torneio menos importante que o bilionário Manchester City disputa regularmente.
Ganhar é sempre bom, seja qual for a competição. Isso dá ao clube, ao técnico, aos jogadores e à torcida a tranquilidade da qual Leila Pereira tanto se orgulha. O Flamengo, que é muito mais sanguíneo e visceral do que o Palmeiras, já trocou nove vezes de treinador na era Abel, mas nem por isso deixa de ser multicampeão.
Muito voraz no mercado, tem buscado sobretudo técnicos portugueses depois do impacto gigantesco que Jorge Jesus deixou no clube e no futebol brasileiro. Leonardo Jardim chegou em meio a uma grande turbulência e lucrou com a puxada do tapete de Filipe Luís na calada da noite.
Críticas compreensíveis foram feitas à direção rubro-negra pela forma como um ídolo foi sacado do comando da equipe, mas a opção por mais um renomado treinador luso já se mostrou acertada. O Flamengo tende a ser mais forte ainda nesta temporada.
Em quatro rodadas do Brasileiro, já foram demitidos cinco treinadores que começaram o campeonato: dois argentinos, dois brasileiros e um colombiano (o professor Juan Carlos Osorio, que foi dispensado pelo Remo).
Tudo indica que a briga pelo título mais uma vez ficará entre Flamengo e Palmeiras, o que daria mais um título brasileiro para um técnico português. Tite, que na maior parte de sua carreira no Brasil não tinha tanta concorrência internacional, surge como a principal bandeira dos treinadores brasileiros nesta temporada, pois o Cruzeiro também fez forte investimento e vem de uma temporada passada animadora, posando de terceira força nacional neste momento.
A perspectiva para os treinadores argentinos não é nada animadora. Crespo já rodou, assim como Sampaoli, que talvez nem tenha mais mercado no país agora após tanto desgaste. Martín Anselmi tem a missão dura de tentar repetir no Botafogo o sucesso que teve o português Artur Jorge, campeão da Libertadores e do Brasileiro em 2024. Juan Pablo Vojvoda está fazendo um trabalho ruim até aqui no Santos e vive sempre na expectativa de que Neymar possa desencantar e salvar seu trabalho.
Eduardo Domínguez acaba de assumir um Galo que perdeu de forma doída a final mineira para o Cruzeiro (melhor de Minas agora), e hoje ele não conta com a melhor fase de alguns dos principais atletas do clube, notadamente Hulk. Já para o uruguaio Pezzolano a luta é tirar o Inter da luta contra o descenso, e não há nenhuma segurança de que ele continuará por muito tempo.
Um admirável colega meu ponderou que os técnicos portugueses têm conquistado os principais títulos do futebol brasileiro porque simplesmente eles estão dirigindo os clubes mais ricos e poderosos, notadamente Flamengo e Palmeiras, os times dominantes que só estão abrindo vantagem econômica em relação aos adversários locais. Claro que isso pesa bastante. Mas o mesmo raciocínio vale para o “Complexo de Guardiola”.
Será que o espetacular treinador espanhol teria o mesmo sucesso se treinasse o Girona, o 1860 Munique e o Bolton Wanderers? Esse mesmo brilhante colega não concordou muito com a comparação. Renato Gaúcho (que reapareceu no Vasco) e Muricy Ramalho (que saiu de vez do São Paulo sem deixar saudade como diretor) já levantaram essa dúvida sobre como Guardiola teria sucesso e vida longa no Brasil em um clube de menor investimento em nosso calendário puxado e com muitos gramados problemáticos. Eu estou certo de que ele é genial, o melhor Cruyffista da história, e Guardiola renderia bem e melhoraria qualquer time. Só está em clubes grandes e com muito poder de investimento porque que ele é muito acima da média mesmo.
Pois bem, os técnicos portugueses, na média, estão mesmo à frente dos treinadores brasileiros e “hermanos” que vemos no nosso país. Por isso os clubes com mais dinheiro compreensivelmente vão buscar os lusitanos e por isso o futebol brasileiro está sendo colonizado pelos portugueses, até porque a sólida formação deles e a facilidade do idioma lhes dão vantagem.
Quem sabe, com o dinheiro e a globalização aumentando cada vez mais no nosso futebol, não tenhamos em breve grandes técnicos alemães, espanhóis, italianos e holandeses para acabar com o império de Portugal.
