O técnico Kleiton Lima pediu demissão do comando do time feminino do Santos nesta segunda-feira (15). O profissional deixa o clube menos de uma semana após ser apresentado. Ele foi acusado de assédio moral e sexual em setembro do ano passado, quando dirigia as Sereias da Vila, e também pediu desligamento à época.
O retorno ao clube, no último dia 9, gerou protestos no futebol feminino. Jogadores de Corinthians, Palmeiras e Avaí taparam as bocas com as mãos durante a execução do hino nacional na quinta rodada do Brasileirão.
Em nota oficial, o Santos disse que o motivo alegado pelo treinador foi "preservar sua família, sua integridade e o próprio Santos Futebol Clube". A equipe aceitou o pedido e disse ter "confiança de que o assunto seja definitivamente encerrado". O time será assumido interinamente por Wesly Otoni.
"Desde a sua contratação, o treinador vem sofrendo críticas e nos últimos dias até ameaças de morte em razão das acusações feitas no ano passado. Mesmo convicto de que não cometeu nenhum dos atos pelos quais é acusado, Kleiton Lima entendeu que seu pedido de afastamento é a melhor opção para preservar todas as partes", escreveu o clube.
Denúncias de assédio moral e sexual
Kleiton Lima foi alvo de denúncias de assédio moral e sexual em setembro do ano passado. À época, o 'ge' teve acesso ao conteúdo de 19 cartas anônimas com acusações. Diante da repercussão, o treinador pediu desligamento.
O assunto voltou à tona com a notícia do retorno do técnico ao Santos. A coordenadora de futebol feminino Thaís Picarte e o coordenador de futebol Alexandre Gallo justificaram a contratação citando uma investigação realizada em parceria com a Polícia Civil. Segundo Gallo, não foram comprovadas as denúncias contra o treinador.
"O compliance do clube é bastante atuante e indeferiu qualquer situação negativa em relação a você (Kleiton Lima). A gente fica bastante tranquilo em relação a isso, sobre seu caráter, conduta e família. O Santos está feliz que você está de volta com a gente", disse o dirigente, no último dia 9.
"Nós temos uma responsabilidade para com o clube, atletas e para o futebol feminino no país. O clube apurou todas as informações, abriu-se um processo administrativo. Eu pessoalmente, como gestora do departamento, e como mulher apurei a fundo. Não só com pessoas que aqui estão, com atletas que saíram e nada se foi provado', afirmou Thaís Picarte.
"Argumentos fracos, frágeis e que trouxeram uma mancha desnecessária para o Santos. Clube vitorioso no futebol feminino. Tivemos não só apuração como pedido de atletas que aqui estão. Reforço de atletas que saíram dessas inverdades e processo de retorno. Da minha parte, o que eu posso esclarecer, é que o clube tem responsabilidade com a verdade e por isso Kleiton está aqui de volta", completou.
Dias depois, a ESPN ouviu relatos de atletas e membros da comissão técnica que estavam no elenco do ano passado e vivenciaram ou assistiram a situações de assédio na presença do técnico das Sereias.
Segundo os depoimentos, Kleiton não só fazia comentários sobre sua vida sexual, como também falava com frequência do corpo das jogadoras.
"Teve uma atleta observada dentro do banheiro. Ele nunca tinha entrado lá, viu que ela estava entrando sozinha, foi atrás, abriu a porta e ficou observando. Ela estava de calcinha e top. Ele não fechou a porta e ficou olhando de cima a baixo. Ele rodeou, viu a bunda dela e falou da bunda dela", relatou uma ex-jogadora. "Eu estava de costas no campo e ele tocou na minha bunda. Ele disse: e essa bunda aí, você não disse que ia emagrecer?".
As atletas afirmam que assim que o assunto começou a circular internamente, todas foram instruídas a não registrar boletim de ocorrência na Polícia e levar as denúncias à ouvidoria do clube.
Thaís Picarte disse que apurou as denúncias com atletas que saíram do Santos e que, mesmo assim, nada teria sido provado. Nas redes sociais, pelo menos nove das 14 atletas que deixaram o clube do ano passado para cá disseram que não foram procuradas pela coordenadora.
