OPINIÃO: A camisa 10 do Santos, a Série B e o sentimentalismo tolo

Pelé com a camisa 10 do Santos Getty Images

O Santos não só foi rebaixado como teve a indelicadeza de cair no ano em que o futebol brasileiro se despediu de seu inventor. A ironia do descenso inédito justamente no campeonato que foi apelidado de Brasileirão Rei, em homenagem a Pelé, joga sal sobre a ferida no coração do torcedor, e, como é frequente em momentos de consternação, faz um convite a demagogias como a ideia de dar à camisa 10 do clube um período sabático em 2024, para não ofendê-la com uma visita à segunda divisão.

O problema dos tributos após a morte é não saber se o objetivo foi atingido, sejam quais forem as intenções. Jamais se saberá o que Pelé pensa sobre as férias forçadas para a camisa que ele imortalizou como ícone de excelência, mas, dada a generosidade incondicional com a qual o Rei sempre tratou o clube de sua vida, é perfeitamente razoável imaginar que ele receberia o gesto com sensações conflitantes. Se fosse vivo e apto, Pelé se ofereceria para jogar pelo Santos em 2024. Em todas as partidas da Série B, que é quando o clube mais precisaria dele. E com a 10, obviamente.

De modo que não interessa em que ambiente a sagrada 10 do Santos está. O que importa é quem a veste, como, e por quê. Impedir que a peça seja usada na Série B como forma de protegê-la de uma humilhação não apaga o verdadeiro constrangimento a ela imposto: uma campanha de 38% de aproveitamento no Campeonato Brasileiro. E aqui não se faz um indiciamento a Soteldo, o jogador que carregou o número de Pelé durante a temporada. Sem ele, a trajetória do Santos neste ano triste seria ainda mais sofrida.

A proposta do presidente recém-eleito Marcelo Teixeira, tratada aqui e ali como uma “sacada de marketing”- como se o Santos, na situação em que está, precisasse desse tipo de coisa - digna das mentes mais sagazes, ainda produz uma contradição que não pode passar despercebida: o Santos pretende jogar o campeonato estadual, cujo valor esportivo se deprecia a cada ano, com a camisa 10, mas o número simbólico estará dispensado da campanha na Série B, indiscutivelmente a prioridade de sua temporada. Até mesmo o sentimentalismo tolo precisa de limites.

O expediente de aposentar números é uma tradição nos Estados Unidos como forma de marcar eras e personalizar glórias, algo que faz muito mais sentido em contextos nos quais jogadores e equipes convivem por períodos longos, uma raridade no futebol. De todo modo, o Santos jamais seria criticado se tivesse decidido aposentar a 10 quando Pelé deixou o futebol. Ou mesmo após sua morte, numa homenagem póstuma absolutamente apropriada. Mas não, a grande sacada é dar a esta pérola do futebol mundial um descanso forçado, como se o próprio clube, por meio de seguidas administrações destrambelhadas que conduziram a um território inevitável, já não a desrespeitasse suficientemente.

É uma pena que Pelé não possa rir de tudo isso, mesmo porque há - e haverá, não duvide - mais: fala-se também em colocar a camisa 11 para dormir enquanto Neymar não volta. Pepe, que jogou com a 11 nos anos dourados, talvez tenha algo a dizer.