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'Eles querem um caminhão de dinheiro': agente de Bauermann diz que jogador do Santos é inocente e fala em 'ameaças de violência'

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Zagueiro Eduardo Bauermann, do Santos, recebe broncas e ameaças de apostadores; veja os prints (2:15)

Crédito: Victoria Leite, setorista do Santos pelo GE | Bauermann recebeu ameaças por não cumprir o combinado de levar um cartão amarelo no empate entre Santos e Avaí pelo Brasileirão de 2022 (2:15)

Em entrevista à ESPN, o empresário Luiz Taveira, que agencia o zagueiro Eduardo Bauermann, do Santos, saiu em defesa do jogador e alegou que ele é inocente.

Bauermann está sendo investigado na "Operação Penalidade Máxima 2", do MP-GO (Ministério Público do Estado de Goiás), por manipulação de resultados e envolvimento com uma máfia de apostas.

Nesta terça-feira (9), inclusive, o Santos anunciou o afastamento do atleta.

O clube da Vila Belmiro emitiu um comunicado oficial e afirmou que o defensor está fora dos treinos da equipe profissional de maneira preventiva e ficará realizando atividades físicas no CT Rei Pelé enquanto o Peixe aguarda os desdobramentos da Justiça.

Taveira, porém, disse que Bauermann foi coagido pelos criminosos, que fizeram "ameaças pesadas de violência", inclusive mostrando ter conhecimento sobre a família do zagueiro e sua residência.

Ele ainda negou que seu cliente tenha recebido R$ 50 mil adiantados dos criminosos para se envolver no esquema.

Prints de Whatsapp divulgados na última segunda (veja aqui) e nesta terça (veja aqui) mostram que, de fato, o jogador foi ameaçado de várias formas após não conseguir levar cartões exigidos pelos apostadores em partidas do Brasileirão 2022.

Reproduções de conversas entre Taveira e os apostadores também aparecem na ação do MP-GO. Em uma das trocas de mensagens, por exemplo, o agente concorda com o criminoso e diz que o zagueiro deveria ter sido expulso de propósito em Botafogo x Santos para cumprir o pedido da máfia.

"Tinha que rachar o cara no pau e ser expulso, dane-se", escreveu.

Questionado, Taveira também explicou o conteúdo das mensagens e deu sua versão sobre o caso, salientando que estava tentando "amaciar" os apostadores.

Veja a entrevista com Luiz Taveira:

ESPN: Qual é ó seu envolvimento neste caso?
Luiz Taveira: Tenho 32 anos de profissão e nunca fui envolvido com nada ilegal, deste jeito.

ESPN: O que aconteceu, então?
LT: O menino [Bauermann] foi envolvido por outra pessoas. Um cara ligou para ele oferecendo dinheiro para ele levar cartão amarelo contra o Avaí. O Bauermann disse 'não e não'. Ele me contou e eu falei para ele não fazer nada. E ele não fez. Contra o Avaí, ele não recebeu cartão nenhum. Aí começaram as ameaças e precisei me envolver para ajudar.

ESPN: Que tipo de ameaças?
LT: Pesadas. Ele falam de sua família, sabem onde você mora e são ameaças de violência. Eles fizeram ameaças pra cá, ameaças pra lá. Tourear estes caras é difícil. Nunca tinha visto isso na minha vida.

ESPN: Por que vocês não denunciaram tudo à polícia?
LT: É muito fácil falar: 'Denuncie'. Os caras vêm firme, ameaçadores. O tempo todo. Várias ligações.

ESPN: Como você explica a conversa de WhatsApp em que diz a um dos aliciadores que o Bauermann deveria ter 'quebrado o cara' para levar um cartão vermelho?
LT: Eu estava tentando 'amaciar' os caras, fazer um pouco o jogo deles para tentar uma solução não violenta. Por isso falei que ele poderia 'rachar' um adversário.

ESPN: No jogo contra o Botafogo, o Bauermann recebeu cartão vermelho, certo?
LT: Mas aí não valia mais. Foi depois do jogo. Ele criticou o juiz, disse que ele prejudicava sempre o Santos. Mas foi depois do tempo regulamentar. Eles sabem que não valem. O cartão foi aleatório, mas usamos para tentar amenizar as ameaças. Isso não aconteceu e as ameaças continuam.

ESPN: Elas continuam até agora?
LT: Sim, eles continuam ameaçando. O dinheiro que querem é um caminhão de dinheiro. E o dono nunca usa o celular dele, sempre de outra pessoa.

ESPN: O que farão agora?
LT: Vou constituir advogado porque, depois que revelaram estas conversas, vou ser intimado. Uma coisa eu digo: sobrou para quem não quis fazer este esquema. O Bauermann não tomou o cartão amarelo.

ESPN: O que foi feito com o dinheiro que teria sido depositado na conta dele pelos criminosos como 'sinal'?
LT: Não entrou dinheiro nenhum na conta dele.


Veja abaixo quais são os jogos que estão sob investigação na Série A

Quem são os jogadores suspeitos de manipulação no Brasileirão e Estaduais?

O Ministério Público não divulga nomes, mas Victor Ramos, ex-Vasco e Palmeiras, teve o celular apreendido. O atleta de 33 anos foi encontrado em sua casa nesta manhã, em Chapecó, e conduzido para prestar depoimento. No entanto, ele segue treinando normalmente.

Kevin Joel Lomónaco, zagueiro do Red Bull Bragantino é outro suspeito. Policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar e do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) cumpriram um mandato de busca na casa do atleta. A informação foi publicada pelo jornal "Em Pauta".

De acordo com o "globoesporte.com", o lateral-esquerdo Igor Cariús, do Sport, e o meia Gabriel Tota, ex-Juventude e atualmente no Ypiranga-RS, são alguns dos investigados.

Ainda segundo o MP de Goiás, os suspeitos vêm de diversas regiões do Brasil. Nesta terça, foram buscados:

  • Goiás - 1 atleta investigado

  • Rio Grande do Sul - 3 atletas investigados

  • Santa Catarina - 2 atletas investigados

  • Rio de Janeiro - 1 investigado (não atleta)

  • Pernambuco - 2 atletas investigados

  • São Paulo - 10 mandados de busca e apreensão e 3 prisões

Algum jogador de futebol foi preso?

Nenhum jogador preso, só pessoas envolvidas nos pedidos de manipulação. Foram três mandados de prisão em São Paulo, mas só para não atletas.

Foram apreendidas granadas de efeito moral em um mandado de prisão em São Paulo a armas de fogo em outro endereço, também em terras paulistas. Nesse local, houve também um flagrante de armas de fogo sem o devido registro.

Os atletas ou aliciadores podem ser indiciados via Estatuto do Torcedor e também podem responder por crime por lavagem de dinheiro, se for o caso. Segundo o Estatuto do Torcedor, a pena varia de 2 a 6 anos de prisão.

O que os jogadores faziam para manipular as partidas?

Os atletas e envolvidos suspeitos estão sendo investigados por manipulação da seguinte forma: receber cartões amarelo ou vermelho, cometer um pênalti, garantir uma derrota parcial no 1º tempo, número de escanteios, etc.

O que os clubes dos jogadores envolvidos disseram?

A Chapecoense e o Red Bull divulgaram notas sobre os jogadores investigados.

"O clube tem tolerância zero com qualquer atitude que possa ferir a idoneidade do esporte e vá contra os valores e dignidade de todos que vestem as cores do Red Bull Bragantino. Nos colocamos à disposição das autoridades durante a investigação e trataremos internamente a situação legal envolvendo o atleta", disse o time de Bragança.

"A respeito da “Operação Penalidade Máxima” e do cumprimento do mandado relacionado à ela em Chapecó – envolvendo um jogador do clube – a agremiação alviverde reforça o seu apoio e, principalmente, a confiança na integridade profissional do atleta. Por fim, tendo em vista as investigações, o clube destaca o seu compromisso em colaborar totalmente com as autoridades e oferecer todo o suporte e informações necessárias na apuração e esclarecimento do caso".

Quais são os próximos passos da investigação?

Segundo o MP de Goiás, agora as autoridades irão reunir o material angariado em 6 estados envolvidos, com dezenas de aparelhos eletrônicos apreendidos, analisanto tudo e realizando interrogatórios. Após analisar as provas, aí sim serão avaliados os próximos passos.

O que a Operação "Penalidade Máxima" investiga

A investigação da Operação "Penalidade Máxima" aponta que grupos criminosos convenciam jogadores, com propostas que iam até R$ 100 mil, a cometerem lances específicos em partidas e causassem o lucro de apostadores em sites do ramo.

Um jogador cooptado, por exemplo, teria a "função" de cometer um pênalti, receber um cartão ou até mesmo colaborar para a construção do resultado da partida - normalmente uma derrota de sua equipe.

As primeiras denúncias ouvidas pela operação surgiram no fim de 2022, quando o volante Romário, então jogador do Vila Nova (GO), aceitou R$ 150 mil para cometer um pênalti contra o Sport, em partida válida pela Série B do Brasileiro.

Na ocasião, o atleta embolsou R$ 10 mil imediatamente e só ganharia o restante caso o plano funcionasse. Romário, porém, sequer foi relacionado para a partida, o que estragou a ideia.

A história chegou até Hugo Jorge Bravo, presidente do time goiano e também policial militar, que buscou provas e as entregou ao Ministério Público do estado. A partir daí, criou-se a operação "Penalidade Máxima" para investigar provas e suspeitas sobre o assunto.

Na primeira denúncia, havia a suspeita de manipulação em três jogos da Série B, mas os últimos acontecimentos levaram os investigadores a crer que o problema era de âmbito nacional e havia acontecido em campeonatos estaduais e também na primeira divisão do Brasileiro.

Além de Romário, outros sete jogadores foram denunciados pelo Ministério Público por participarem do esquema de fabricação de resultados: Joseph (Tombense), Mateusinho (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Cuiabá), Gabriel Domingos (Vila Nova), Allan Godói (Sampaio Corrêa), André Queixo (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Ituano), Ygor Catatau (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Sepahan, do Irã) e Paulo Sérgio (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Operário-PR).