Não foi a primeira vez. Nem a segunda. Nem a terceira. E infelizmente já nem causa surpresa.
O episódio mais recente, em Portugal, contra o Benfica, se soma a uma lista que já deveria ter provocado mudanças profundas no futebol europeu. Desde que chegou ao Real Madrid, em 2018, Vinícius Jr. convive com gritos racistas, insultos, cânticos imitando macaco, arquibancadas hostis. O tempo passa e nada muda. Não chegou a hora de dar um basta?
Em 2023, antes de um clássico contra o Atlético de Madrid, um boneco com sua camisa foi pendurado em uma ponte em simulação de enforcamento. Em Valencia, foi repetidas vezes chamado de macaco. O racismo se repetiu em Mallorca, Valladolid, Barcelona, Sevilla, Osasuna, Getafe, Oviedo... Em toda parte.
No Estádio da Luz, foi só mais um caso que escancarou que esse tal de protocolo antirracismo não serve para nada. É ineficiente e inútil. Fica tudo no discurso, no gesto simbólico, enquanto o racismo continua acontecendo. Vini, que comemorou do seu jeito, com alegria, irreverência e dança, independentemente de ter feito isso à frente da torcida e bandeira do Benfica, recebeu cartão amarelo, enquanto o racista não foi punido. Quem pagou foi a vítima, não o criminoso.
O árbitro deveria ter sacado o cartão vermelho na hora. E ainda convocado as autoridades competentes. Não deveria existir o benefício da dúvida em casos de racismo. No campo, é para cartão vermelho. Fora dele, para polícia e cadeia. Ponto final. É como penso.
O Real Madrid, pelo tamanho que tem, poderia ter feito mais. É o maior clube da história e muito maior que a Champions League. Se decide sair de campo, o mundo inteiro pararia. Muitas coisas deveriam ter acontecido ontem. E em vários outros episódios com o Vini Jr. Não aconteceram.
Quando algo se repete tantas vezes, deixa de ser exceção. Passa a ser estrutura. Vinícius virou alvo preferencial. Não é o único jogador negro do Real Madrid: Bellingham, Camavinga, Rodrygo, Mbappé, Tchouaméni, Mendy, Alaba também são. O futebol europeu está repleto de estrelas negras. Mas é Vini quem está constantemente no centro da tempestade.
Por quê?
Porque responde. Dança. Questiona. Confronta. E não suporta em silêncio. Isso incomoda os racistas do mundo inteiro. Ver um preto sul-americano protagonista, que não se cala e confronta estruturas de poder historicamente brancas, é um insulto a quem sempre quis manter as aparências excludentes e o jogo sob controle.
É um problema cultural que leva tempo para ser transformado. Talvez sequer seja resolvido na geração de Vini. Mudanças estruturais profundas não caminham na mesma velocidade das dores que chegam.
Só que Vini já venceu na Europa. Não deve nada a ninguém. Foram duas Champions League, três LALIGA, Copa do Rei, Supercopas, Mundiais de Clubes. Decidiu clássicos. Faturou prêmios. Foi eleito melhor jogador do mundo pela Fifa. E perdeu uma Bola de Ouro em uma enorme injustiça. Não fosse ele quem é, e o que representa, certamente teria levado. Títulos e prêmios consagram. Mas não impedem insultos e nem o crime do racismo. Talvez a pergunta mais importante não seja sobre troféus. É sobre mensagem e acolhimento.
Se Vinicius decidisse voltar ao Brasil agora, no auge, sendo quem é, seria um gesto histórico e simbólico. Vini não é apenas o atacante do Real Madrid. Ele é “O” Vini Jr. O astro da seleção brasileira. Se escolhesse o Brasil, não seria fuga. Seria escolha. Seria decretar o fracasso da sociedade europeia no combate ao racismo e dizer ao mundo que, aqui, estará protegido e acolhido. Porque o Brasil protege os seus. Não estamos livres dos racistas, infelizmente eles são como ratos e existem em toda parte. O próprio Vini sofreu racismo aqui em 2018. Mas o que acontece na Europa com tamanha frequência dificilmente se repetiria aqui. Ou alguém duvida que, se o episódio de ontem tivesse sido no Maracanã, o jogador argentino teria saído algemado?
Claro, talvez nenhum clube brasileiro hoje consiga pagar exatamente o que Vinícius Jr. quer e merece. Mas também não estamos falando de dinheiro. Estamos falando de identidade e pertencimento.
Em cenários hipotéticos, o Flamengo é sua casa natural, onde nasceu para o futebol e é amado. Hoje, é o maior clube do mundo fora da Europa e tem um faturamento poderoso, capaz de desenhar uma oferta financeira competitiva. Não seria simples, mas também não seria impossível. Um Palmeiras, pela estrutura e saúde financeira que construiu nos últimos anos, poderia pensar em algo semelhante. E quem sabe outros grandes clubes, com uma engenharia financeira bem montada, parceiros estratégicos e mobilização de mercado, também encontrassem caminhos para viabilizar uma operação dessa magnitude. O ponto aqui não é defender a volta para um clube específico, e sim para o país.
Vini é o nosso maior craque da atualidade. Todo brasileiro sensato sabe que o hexa da Copa do Mundo passa por ele. Proteger Vini é proteger o próprio sonho do hexa. Qualquer grande clube brasileiro que pudesse o acolheria como ídolo imediato e brigaria por ele com unhas e dentes, ainda mais em ano de Mundial. Porque a discussão aqui não é apenas esportiva ou financeira. É nacional.
O contrato dele com o Real Madrid termina no meio de 2027. Pode renovar. Pode jogar onde quiser no planeta. Poucos têm esse privilégio. Mas talvez esteja na hora de pensar, com carinho e urgência, na possibilidade de voltar imediatamente para casa. Para se sentir pertencente, querido, abraçado e acolhido.
E para mandar uma mensagem clara aos racistas do mundo inteiro: o Brasil defende os seus ídolos. E quem quiser vê-lo brilhar teria que vir até aqui. Talvez não disputasse mais prêmios individuais europeus. Nem ganharia tanto dinheiro assim. Mas precisa? O que pesa mais: uma bola dourada e alguns milhões a mais no banco ou respeito, dignidade e felicidade?
Se o futebol mundial ainda hesita em dar o recado definitivo contra o racismo, talvez seja o Brasil, o país do futebol e lar de Vinicius Jr., que possa ajudá-lo com acolhimento, pertencimento e escolha. Basta querer.
