No ano passado, parecia o pior cenário possível: praticamente tudo deu errado para o Tottenham. Lesões em série, azar em jogos equilibrados — marcou 64 gols e sofreu 65 — e, em determinado momento, o clube praticamente deixou o campeonato de lado para concentrar todas as energias na Europa League, que acabou conquistando.
Mesmo assim, o Tottenham — o nono clube mais rico do mundo segundo a Deloitte — terminou a última temporada apenas na 17ª colocação da Premier League. Ainda assim, nunca chegou a correr risco real de rebaixamento: ficou 12 pontos à frente do 18º colocado, o Leicester City, e teve um saldo de gols impressionantes 46 gols melhor que o dos Foxes.

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Tudo parecia reforçar a ideia de que o chamado “Big Six” do futebol inglês é grande demais para fracassar. Afinal, esses clubes valem bilhões de dólares, enquanto muitos dos demais times do campeonato poderiam ser comprados por algumas centenas de milhões.
Só que, aparentemente, as coisas sempre podem piorar.
Com nove rodadas restantes nesta temporada, o Tottenham está apenas um ponto acima da zona de rebaixamento, na 16ª posição. O time ainda terá compromissos difíceis fora de casa contra o Liverpool, em Anfield, e contra o Chelsea, em Stamford Bridge. Além disso, recebe o Nottingham Forest, que está empatado em pontos na luta contra a queda, no fim desse mês.
Modelos estatísticos, casas de apostas e até a sensação geral entre torcedores indicam a mesma coisa: existe uma chance muito real de o Tottenham ser rebaixado e disputar a Championship na próxima temporada.
Se isso acontecer, seria um desastre histórico — algo quase impensável — e possivelmente a pior temporada da era moderna da Premier League. Mas será que seria mesmo a pior? Vamos descobrir.
Como determinar os 'piores' times da Premier League?
Um dos principais problemas ao analisar a Premier League — tanto de forma geral quanto estatisticamente — é que a competição é estruturalmente desigual. Nem todos os clubes têm o mesmo dinheiro para investir, então comparar diretamente os pontos de um time como o Manchester City com os de equipes como o Brentford não é exatamente justo.
Por isso, é necessário considerar o nível de investimento de cada clube e comparar seu desempenho com aquilo que seria esperado com base nesse valor.
Para fazer esse ranking, foi utilizado o valor de mercado estimado de cada elenco da Premier League desde a temporada 2010/11, com dados do Transfermarkt. Esses números costumam ter forte correlação com o quanto cada clube realmente gasta em jogadores.
Depois disso, cada temporada foi analisada individualmente para calcular uma pontuação esperada, baseada na relação entre o valor do elenco e o número de pontos conquistados naquele ano. Assim, o ranking compara os pontos reais de cada equipe com os pontos que seriam esperados de acordo com o valor de seu elenco.
Os times abaixo são os dez que mais ficaram abaixo das expectativas financeiras.
10.
Manchester United (2024/25)
Pontos esperados por jogo: 1,57
Pontos reais por jogo: 1,10
Nos três últimos anos de Alex Ferguson no comando do Manchester United, o clube superou as expectativas em média 0,23 ponto por jogo — cerca de nove pontos extras por temporada.
Desde então, a história mudou: o United passou a ficar 0,09 ponto por jogo abaixo do esperado, aproximadamente 3,5 pontos a menos por temporada.
Esse número pode parecer pequeno, mas basta lembrar de quantas vezes, na última década, surgiram manchetes dizendo que "o Manchester United está de volta".
O futebol é um esporte com muita variância e o clube continua tendo elencos talentosos, o que explica algumas temporadas acima da média no meio de um declínio mais amplo.
A grande pergunta para o futuro é: o clube está realmente construindo um projeto sólido ou apenas vivendo picos ocasionais em meio a uma queda estrutural?
A última temporada foi a pior do United dentro desse recorte de dados. Curiosamente, a atual — até agora — seria a melhor nesse mesmo período.
Em parte isso acontece porque o elenco hoje é estimado como apenas o sexto mais valioso da liga, mas é um roteiro que os torcedores já viram antes.
9.
Southampton (2022/23)
Pontos esperados por jogo: 1,21
Pontos reais por jogo: 0,70
A empresa de análise de dados Stats Perform possui métricas detalhadas de desempenho de goleiros desde a temporada 2018/19. Entre esses dados está o chamado shot-stopping: o sistema analisa onde cada finalização vai no gol, calcula a probabilidade de se transformar em gol e compara esse valor com os gols realmente sofridos pelo goleiro.
Os números costumam variar bastante de uma temporada para outra, mas a campanha de 2022/23 de Gavin Bazunu pelo Southampton foi a pior registrada na base de dados.
Pelas probabilidades das finalizações enfrentadas, o goleiro deveria sofrer cerca de 35,4 gols. Na prática, porém, acabou sofrendo 52 — uma diferença enorme que ajuda a explicar por que aquela temporada terminou de forma tão decepcionante para o clube.
8.
Huddersfield (2018/19)
Pontos esperados por jogo: 0,92
Pontos reais por jogo: 0,40
Na época, a campanha do Huddersfield foi considerada um desastre histórico. O time terminou a temporada com apenas 16 pontos e saldo de gols de -54, ambos os piores números da Premier League desde 2010 naquele momento.
Desde então, esses registros já foram igualados ou até superados por outras equipes em temporadas ruins. Ainda assim, há um dado daquela campanha que parece quase impossível de repetir.
Os principais artilheiros do Huddersfield sem contar gols de pênalti foram Mathias Jorgensen e Karlan Grant, com apenas três gols cada.
Para um time que disputou 38 rodadas, o número ilustra perfeitamente o tamanho da dificuldade ofensiva enfrentada pelo clube naquela temporada.
7.
Chelsea (2015/16)
Pontos esperados por jogo: 1,82
Pontos reais por jogo: 1,30
O Chelsea aparece 16 vezes no banco de dados analisado — e conseguiu superar a pontuação esperada apenas uma vez.
Curiosamente, isso aconteceu justamente na temporada 2014/15, quando o clube conquistou a Premier League com autoridade sob o comando de José Mourinho. O problema é que, no ano seguinte, veio um colapso completo.
Na campanha do título, Eden Hazard foi eleito Jogador do Ano depois de marcar 11 gols, sem contar os pênaltis, e dar nove assistências. Na temporada seguinte, porém, seus números despencaram: apenas quatro gols e três assistências.
A crise foi tão profunda que Mourinho acabou demitido ainda em dezembro, e o Chelsea terminou o campeonato somente na 10ª colocação.
O contraste é curioso. Durante anos, o clube foi controlado pelo bilionário russo Roman Abramovich, que investiu cerca de US$ 2 bilhões do próprio bolso no time. Hoje, a equipe pertence a um consórcio liderado pelo empresário Todd Boehly, que também tenta investir o máximo possível dentro das regras financeiras da liga.
Mesmo com tanto dinheiro envolvido, o Chelsea só brigou de verdade pelo título em duas das últimas 16 temporadas — e, curiosamente, venceu ambas.
6.
Tottenham (2024/25)
Pontos esperados por jogo: 1,52
Pontos reais por jogo: 1,00
Pode não parecer à primeira vista, mas o Tottenham desenvolveu ao longo da última década um padrão relativamente consistente de desempenho.
Se observarmos o diferencial de gols esperados sem pênaltis (xG) desde 2010, o comportamento do time tende a seguir um ciclo curioso: quatro temporadas fortes, seguidas por uma temporada de queda — e então o processo se repete.
Esse padrão faz sentido dentro do modelo de negócios do clube. Historicamente, o Tottenham atuou como um clube vendedor: contrata jovens promissores, desenvolve o elenco por alguns anos — geralmente a duração média do auge de um jogador — e depois vê seus principais atletas saírem para equipes mais ricas ou permanecerem enquanto o rendimento começa a cair.
Depois, o ciclo começa novamente.
O problema é que o último “pico” de desempenho foi relativamente baixo, justamente em um período em que o Tottenham já havia se consolidado como um dos clubes mais ricos do futebol mundial.
E há um detalhe ainda mais preocupante: o gráfico dessa análise nem sequer inclui a temporada atual, que vem sendo ainda mais turbulenta para os Spurs.
5.
Wolverhampton (2025/26)
Pontos esperados por jogo: 1,07
Pontos reais por jogo: 0,50
No futebol, o conceito de “boa fase” costuma ter pouco valor preditivo. Na prática, ele serve mais para explicar o que acabou de acontecer do que para indicar o que virá a seguir.
Ainda assim, há um detalhe curioso na temporada atual do Wolverhampton: 13 dos 16 pontos conquistados no campeonato vieram depois da virada do ano.
À primeira vista, isso poderia indicar uma reação da equipe. O problema é que os números avançados contam outra história.
O diferencial de gols esperados (xG) dos Wolves nesse período é ligeiramente pior do que era antes de 1º de janeiro, sugerindo que a melhora nos resultados não está necessariamente acompanhada de uma evolução real no desempenho dentro de campo.
4.
Tottenham (2025/26)
Pontos esperados por jogo: 1,62
Pontos reais por jogo: 1,00
É difícil acreditar que o Tottenham esteja nessa situação, mas a explicação provavelmente passa por uma combinação de fatores: muitas lesões, uma construção de elenco que aparentemente ignorou a importância de ter jogadores capazes de circular a bola com qualidade, e o aumento geral da competitividade da Premier League.
O ponto mais surpreendente, porém, é que não dá para culpar o azar.
Se alguém dissesse que um clube do chamado Big Six estaria lutando contra o rebaixamento com menos de 10 rodadas restantes, a suposição natural seria de que o time estaria sofrendo com má sorte — fases ruins de finalização ou atuações abaixo do esperado dos goleiros.
Mas esse não é o caso do Tottenham.
Quando analisamos o diferencial de gols esperados sem pênaltis, indicador que mede a qualidade das chances criadas e concedidas, o cenário é ainda mais alarmante.
Com equipes como West Ham e Nottingham Forest aparecendo à frente nesse ranking estatístico, é possível até argumentar que o Tottenham está com sorte de ocupar a 16ª posição na tabela.
3.
Southampton (2024/25)
Pontos esperados por jogo: 1,05
Pontos reais por jogo: 0,30
Para explicar a temporada desastrosa do Southampton, vale recorrer a uma reflexão do economista John Maynard Keynes — originalmente sobre investimentos, mas que também se aplica perfeitamente ao futebol.
Keynes escreveu que, para quem tenta inovar, é comum parecer excêntrico, pouco convencional ou até imprudente aos olhos da maioria. Se a estratégia funciona, ela confirma a reputação de ousadia; se falha — algo bastante provável no curto prazo —, a crítica costuma ser implacável. No fim das contas, a “sabedoria convencional” ensina que é melhor fracassar de forma tradicional do que tentar algo diferente e não dar certo.
No futebol, isso ajuda a explicar por que a maioria dos treinadores acaba adotando estilos muito semelhantes.
Um gráfico que compara pontos conquistados e percentual de passes completados fora do terço ofensivo ajuda a ilustrar bem essa ideia.
Nos extremos da análise aparecem dois casos muito diferentes:
De um lado, o Leicester City campeão da Premier League em 2016, que rejeitou o jogo de posse paciente adotado por muitas equipes e apostou em um estilo mais direto — com enorme sucesso.
Do outro lado está o Southampton, que tentou controlar a posse de bola como o Manchester City, mas acabou transformando essa proposta em uma das piores campanhas da história recente da Premier League.
A tentativa de copiar um modelo sofisticado de jogo, sem ter o mesmo nível de elenco, acabou cobrando um preço alto.
2.
Chelsea (2022/23)
Pontos esperados por jogo: 1,95
Pontos reais por jogo: 1,20
A temporada 2022/23 entrou para a história como uma das mais caóticas do Chelsea. Foi o primeiro ano do clube sob o controle do fundo Clearlake Capital e do empresário Todd Boehly, e o investimento foi imediato — e gigantesco.
Ao longo daquela temporada, os Blues gastaram mais de € 600 milhões em taxas de transferência, montando praticamente um novo elenco. Entre os principais reforços estavam: Enzo Fernández (€ 121 milhões), Wesley Fofana (€ 80,4 milhões), Mykhailo Mudryk (€ 70 milhões), Marc Cucurella (€ 65,3 milhões), Raheem Sterling (€ 56,2 milhões), Kalidou Koulibaly (€ 41,9 milhões), Benoît Badiashile (€ 38 milhões), entre vários outros.
Apesar da avalanche de contratações, o sucesso imediato simplesmente não veio. O Chelsea demitiu dois treinadores ao longo da campanha e terminou o campeonato apenas na 12ª colocação, com 44 pontos.
E o mais curioso é que o investimento também não trouxe grande retorno no longo prazo.
A maioria desses jogadores já não está mais no clube, e apenas Enzo Fernández e Marc Cucurella chegaram a iniciar 20 partidas na temporada atual.
1.
Aston Villa (2015-16)
Pontos esperados por jogo: 1,15
Pontos reais por jogo: 0,40
"Tim Sherwood é melhor quando está pressionado contra a parede." A frase foi dita pelo próprio Tim Sherwood, então técnico do Aston Villa, após uma derrota por 1 a 0 para o West Bromwich.
O problema é que a realidade mostrou o contrário. Com apenas quatro pontos nas seis primeiras partidas, o Villa respondeu à pressão perdendo os cinco jogos seguintes, o que levou à demissão de Sherwood.
A situação não melhorou muito depois disso. O clube venceu apenas dois dos 27 jogos seguintes e acabou rebaixado com uma das piores campanhas da história da Premier League até então — a terceira menor pontuação da liga naquele momento.
O impacto foi ainda maior por causa do histórico do clube. Até aquela temporada, o Aston Villa era um dos sete clubes que nunca haviam sido rebaixados desde a criação da Premier League, em 1992.
Após a queda, o grupo passou a ter seis equipes que mantêm esse recorde: Manchester City, Manchester United, Liverpool, Everton, Arsenal, Chelsea e Tottenham.
