Se hoje em dia jovens promessas como Endrick e Estêvão chamam atenção por terem sido negociados muito novos e pintam como esperança de futuro do futebol brasileiro, quem carregava esse peso na década passada era Wellington Silva.
Formado nas categorias de base do Fluminense e um dos convidados da semana no Resenha ESPN, que vai ao ar no Disney+ nesta sexta-feira (5), às 22h (de Brasília), o jogador despontava como craque desde muito novo, a ponto de chamar atenção de clubes europeus logo aos 15 anos. Não à toa, foi negociado com o Arsenal antes mesmo de completar 18 anos, quando, a exemplo das duas promessas do Palmeiras, conseguiu se transferir ao Velho Continente.
Porém, os tempos eram outros, e o acesso à Premier League era bem mais complicado para jogadores sem passaporte europeu. E Wellington, assim como outros atletas, foi "vítima" disso. Quando chegou à Inglaterra, não pôde jogar e passou a ser emprestado a times menores da Espanha, como Levante, Alcoyano, Almería, entre outros.
"Não gosto de ficar culpando e voltando no passado. Mas na época não tinha a sabedoria que tenho hoje. Tinha sido campeão da Copa Nike, que é um campeonato nacional em que o campeão joga um campeonato internacional. A gente foi campeão no Brasil e na Inglaterra, dentro do Old Trafford. Eu fui o melhor jogador e artilheiro. Então eu estava em um momento em que todos os clubes da Europa estavam me convidando. Só que o meu empresário na época conhecia o diretor do Arsenal. E eles acabaram fazendo toda a negociação".
"Eu era muito novo, não sabia quase nada. Minha ideia era chegar num clube e permanecer ali, ir crescendo. Quando eu fui, tinha 18 anos, queria chegar no sub-18 ou sub-20 para um dia chegar no profissional. Quando cheguei lá que me falaram que eu teria que ser emprestado durante quatro ou cinco anos para conseguir um documento e poder voltar a jogar na Inglaterra. Para mim foi muito ruim. Falei: 'poxa, estou saindo do Fluminense, que é o clube que eu jogava desde criança, que me deu a oportunidade de mudar minha vida, e fui para lá'", contou, em entrevista ao ESPN.com.br.
O atleta admitiu que se sentiu prejudicado por sequer ter ficado sabendo desse tipo de situação antes de deixar o Brasil.
"Ninguém me contou nada. Com certeza eles sabiam. E faltou conversarem comigo, ser mais claro, sincero, falar que eu ia assinar com o clube, mas que não ia ficar por causa de um documento. Era dizer e, se eu concordasse, eu estaria preparado. Mas foi totalmente ao contrário. Meu empresário na época foi comigo, assinou o contrato e foi embora, me deixou sozinho. Então, para mim, foi um baque muito grande. É um fato que com certeza atrapalhou muito. Eu não soube digerir", desabafou o atacante.
"Na época eu fiquei muito feliz porque é um clube grande na Inglaterra, chance de jogar a Premier League. Mas ninguém contou essa outra parte. Teria que sair três, quatro, cinco anos fora. Então, acho que faltou um pouco de transparência comigo, preparar o meu psicológico para as coisas que estavam por vir", criticou, dizendo em seguida que não guarda mágoas.
"Acabei confiando porque era a pessoa que estava cuidando da minha carreira. Não tinha porque desconfiar, porque nunca tinha acontecido nada antes. Mas aprendi muita coisa. Não culpo ninguém. Também poderia ter dado certo. Poderia ter saído e jogado muito, estourado em outro país, em outro clube. Mas é tudo aprendizado. Estou muito feliz e grato a todas as pessoas que eu conheci e todos os clubes que eu passei. Então vejo desde hoje dessa forma".
Mas toda essa situação, ainda no início da carreira, fez com que Wellington Silva perdesse um pouco o foco, algo que ele admite agora aos 31 anos, já com outra cabeça. "Fui para a Espanha emprestado, um ano em um time, outro ano em outro. O Arsenal pagava todo o meu contrato, pagava a casa, pagava tudo. E eu fiquei naquela 'já que eu tenho que ficar aqui durante quatro ou cinco anos, com eles pagando tudo'... Foi um erro meu, mas eu era uma criança. Eu não tinha sabedoria, nenhuma experiência. Acabei perdendo muitos anos da minha vida, que eu acabei deixando de lado".
Depois de passar por tudo isso, o jogador só foi voltar a ser feliz dentro de campo em 2016, quando voltou a jogar pelo Fluminense, time onde iniciou a carreira. Mas mesmo com bom desempenho, ele não se manteve no time por muito tempo. Em 2018, foi emprestado ao Internacional. Em 2021, esteve no Gamba Osaka do Japão, antes de voltar ao Brasil para defender o Cuiabá, em 2023. Sua última experiência foi no Al-Najma, da Arábia Saudita.
Atacante atuou por alguns meses com a camisa do Alnajmah, time da segunda divisão
Uma escolha um pouco arriscada, mas que se tornou muito comum pelo forte poder aquisitivo dos clubes de lá, que atraíram craques como Cristiano Ronaldo, Neymar, entre outros. Apesar da vontade em explorar esse novo destino, Wellington passou por alguns apuros no Oriente Médio.
"Eu fui porque realmente queria jogar lá. Tive um convite de um clube para poder ajudar nessa segunda etapa da competição. Mas não foi uma experiência muito boa para mim. Não tinha colégio para os meus filhos. Então eles ficaram muitos meses em casa trancados. Mas em campo eu gostei, um campeonato bastante competitivo. É uma liga que está muito forte, cada ano crescendo mais. Agora abriu para dez estrangeiros, então imagina, é uma equipe inteira de gente de outros países. Mas eu fui porque eu queria conhecer e saber pessoalmente. Não sei se foi uma decisão certa de eu ter ido para ficar esses cinco ou seis meses, mas era um desejo que eu tinha no meu coração. Então eu fiz um contrato curto justamente porque eu queria conhecer".
E o jogador, agora sem clube e em busca de uma nova oportunidade, até poderia ter permanecido no Al-Najma, mas decidiu recusar, muito por conta de uma escolha familiar.
"O clube entrou em contato comigo querendo fazer a renovação, mas infelizmente eu não posso tomar a decisão só por mim. No ano passado, como eu queria muito ir, conversei com a minha esposa, ela aceitou, falou 'vamos passar por isso juntos', como a gente sempre tem feito durante esses anos que estamos juntos. Eles queriam renovar, mas eu não poderia aceitar. Não conseguimos escola para meus filhos, eles ficaram muito tempo trancados em casa. Aí perde um pouco da educação, de aprender inglês, de ter contato com outras crianças. Por mais que os adultos aguentem muitas coisas que não são normais para quem está fora do país, como ficar longe de família, amigos. Mas para a criança é bem complicado e eu não quero atrapalhar mais eles. Então eu dei o meu melhor e agora quero viver coisas novas", encerrou.
