Se tem alguém que está com tudo neste início de temporada, este é Bruno Eduardo Moraes.
O atacante de 29 anos do Botafogo-SP já marcou cinco gols em seis partidas nesta temporada e é artilheiro do Campeonato Paulista, empatado com o colombiano Miguel Borja, do Palmeiras - a diferença é que o gringo precisou de uma partida a mais para chegar ao 5º tento.
Seus gols ajudaram o "Pantera" a conquistar 10 pontos no Estadual até agora, com a equipe ocupando a 2ª posição do grupo D, apenas um ponto atrás do Santos.
Mas quem vê o camisa 9 "comendo a bola" pela equipe tricolor nem imagina que o matador por pouco não largou o futebol em 2011, três anos depois de se profissionalizar.
No entanto, ele decidiu persistir em seu sonho e hoje faz sucesso com a camisa botafoguense, já despertando interesse de grandes clubes do futebol nacional, desesperados em busca de um bom centroavante.
Em entrevista ao ESPN.com.br, Bruno Moraes contou sua trajetória de vida, explicou por que é conhecido como "General" (e o porquê de comemorar seus gols batendo continência) e contou histórias divertidas de quando jogou na Arábia Saudita, entre 2016/17.
Ele também recordou sua vitoriosa passagem pelo Santa Cruz, clube pelo qual conquistou dois títulos, fazendo gols decisivos.
Conheça sua história:
Quando eu era moleque, comecei a jogar no São Paulo, mas não morava no alojamento do clube. Eu ia lá três vezes por semana. Meu pai estava desempregado, mas por sorte um amigo meu também jogava lá, então meu pai sempre pegava o carro do pai desse meu amigo emprestado, e eles bancavam a gasolina também.
No São Paulo, eu joguei com o Romarinho, aquele que fez sucesso do Corinthians, que era mais novo, mas treinava com a gente. Joguei também com o Denílson, volante que depois foi para o Arsenal.
Acabei não ficando no São Paulo, porque eles ainda não alojavam a molecada da minha idade e eu não tinha condições de ir e voltar toda semana.
Depois disso, meus tios me levaram para fazer uma peneira em Atibaia. O professor me selecionou com outros meninos e fomos para o Ituano fazer uma avaliação. Fui aprovado e comecei a jogar o Paulistão de base e morar no alojamento em Itu.
Depois, fui para o América-SP e aí cheguei ao Santo André. No "Ramalhão" em me destaquei na Copa São Paulo de 2008, com seis gols. Depois disso, me subiram para o time profissional.
No Santo André, eu peguei uma geração de ouro, com Júnior Dutra, Ricardo Goulart, Júnior Urso, Júnior Caiçara, Victor Hugo, Maikon Leite... Todos estão em grandes clubes hoje ou passaram por equipes de ponta nos últimos anos.
Foram momentos de dificuldade, mas esses caras foram os melhores amigos que fiz até hoje. Passamos réveillon debaixo da arquibancada comendo pizza gelada (risos). Treinávamos em um campo de terra e ficávamos sujos até dentro do olho. Morávamos em um alojamento em oito caras por quarto e formamos amizades sinceras.
Subir ao profissional no Santo André foi um sonho realizado. Joguei ao lado de grandes caras, como Marcelinho Carioca, Gustavo Nery, Fernando, entre muitos outros.
Só que depois disso eu vivi um momento muito complicado na minha vida...
Foi quando fui para o Bragantino. Cheguei ao clube numa sexta e na terça rompi o ligamento cruzado do joelho num treino. O clube me afastou e me mandou procurar o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Precisei fazer o tratamento todo em casa.
Tive que bancar todas as despesas do meu bolso. Eu era jovem, por sorte minha família me ajudou. Foram ao todo oito meses em tratamento e mais seis meses desempregado.
Tudo isso foi muito agoniante. Eu treinava sozinho o tempo todo, mas pensava até em desistir. Para que você não desista, você precisa enxergar o sonho no escuro, e isso foi muito difícil, pois eu não enxergava essa luz...
Graças a Deus eu sempre tive o apoio dos meus pais, que sempre acreditaram em mim e no meu sonho. Eles fizeram muitos sacrifícios e seguraram a barra para mim financeiramente.
As coisas foram se complicando, porque uma hora o dinheiro acaba, né? Eu realmente pensei em largar o futebol e ia ganhar uma bolsa de estudos para jogar futsal por uma faculdade. Quando eu estava quase aceitando, surgiu um convite do Taubaté para jogar a Série A3 do Paulista. Eu topei.
Fiz oito jogos e seis gols, me destaquei muito. Pouco tempo depois, fui contratado para jogar a Série A do Brasileiro pela Portuguesa. Na minha estreia, meti um gol no Santos em plena Vila Belmiro. Foi um momento de superação muito grande para mim.
Comecei bem na Lusa, mas infelizmente houve uma troca de treinador e perdi espaço com o novo técnico. Acabei indo para o Red Bull, ajudando o time a conquistar o acesso na Série A2 do Paulistão. Depois, joguei na Ferroviária e fui campeão da Série A2. Aí acertei com o Santa Cruz.
No Santa recebi o maior suporte e carinho da minha vida. Foi lá que ganhei o apelido de "General" e conquistei dois títulos e um acesso para a Série A do Brasileiro.
Esse apelido, aliás, surgiu de forma bem inusitada...
Quando eu era adolescente, meus amigos me chamavam de "Lata", porque uma vez a gente foi dançar em uma festa e eu era super "durão" pra dançar (risos). Aí eles me chamavam de "Robozão" e "Corpo de lata". Acabou pegando entre os amigos e eu tatuei isso na minha mão esquerda.
Aí uma vez combinei com o fotógrafo do Santa Cruz que quando eu fizesse um gol, ia bater continência para mostrar a tatuagem. Fiz o gol, mas na foto não saiu boa a tatuagem, aí combinamos de fazer de novo. Nisso eu fiz um gol em cima do Bahia e ganhamos por 2 a 1 de virada, aí repeti o gesto.
Quando chegamos de volta no aeroporto do Recife, foi uma loucura! A torcida já me recepcionou cantando: "Acabou o caô, o General chegou, o General chegou!" (risos). Depois disso, o apelido nunca mais saiu. Foi tudo por acaso, mas como trouxe tanta sorte, acabei adotando para o resto da carreira (risos).
Nisso uma repórter me desafiou a tatuar "General" na mão se a gente colocasse o Santa Cruz de volta na Série A. Nós subimos e eu cumpri a promessa.
Pelo Santa vivi grandes momentos. Fiz gol em final da Copa do Nordeste e final de Pernambucano. Fiz um gol internacional e eliminamos o Sport, que é nosso maior rival, na Copa Sul-Americana. Fiz o gol do acesso à Série A. Foram tantos momentos marcantes que só de lembrar até arrepia.
Depois disso, acertei com o Dibba Al Fujairah, da Arábia Saudita. Jogar lá foi bem diferente. Era um time pequeno, no qual todos os jogadores tinham o futebol como segunda profissão. Tinha eu de profissional e o resto eram jogadores que também eram bombeiros, policiais, chefes de cartório (risos)...
Era até comum os caras chegaram para treinar e terem que pegar leve com eles, porque eles tinham chegado exaustos do trabalho na polícia, por exemplo. E como a gente só treinava de noite, eles precisavam descansar, porque a rotina era pesada. Além disso, eles ainda faziam a segurança do time B muitas vezes!
Lá eles sempre costumam dar muitos presentes. Uma vez fiz dois gols em um jogo contra um concorrente direto na tabela e um colega de time me deu uma mochila de grife, muito cara. O presidente da equipe também sempre dava uma bonificação quando eu fazia gols e ganhávamos os jogos.
A vida no Oriente Médio é muito diferente. Por causa do calor, a gente só treinava e jogava à noite. Minha esposa quando ia ao mercado não podia ir com o ombro de fora, nem mostrando nada acima do joelho. Nossa cidade era de interior, então a cultura era bem mais fechada. Mas os sauditas são muito acolhedores, carinhosos e do bem.
Um exemplo disso aconteceu quando eu tinha acabado de chegar. Fui pego totalmente de surpresa! Era meu aniversário e, acabando o treino, eles trouxeram um bolo super legal com a minha foto e escrito "feliz aniversário" em português! Achei muito legal, porque eu estava há poucos dias no clube e ninguém me conhecia direito ainda.
Quando saí do Fujairah, voltei ao Brasil e fiquei treinando desde o ano passado com um personal trainer especializado, para entrar de novo no ritmo e na pegada do Brasil, porque o nível lá na Arábia é um pouco inferior. Foi um período bem importante para mim.
Nessa época chegaram as propostas, e o Botafogo de Ribeirão já tinha demonstrando interesse em mim antes mesmo de eu ir para o Oriente Médio. Quando voltei, optei pelo clube como minha primeira escolha, ainda mais para jogar o Paulista, que é um campeonato com visibilidade tremenda.
Foi a escolha perfeita! Meu momento é ótimo, sendo artilheiro do time e do campeonato. Só que precisamos manter o foco e os pés no chão. Queremos a classificação, mas ainda faltam muitos jogos e não tem nada decidido. Preciso sempre estar atento e fazer meus gols para ajudar o Botafogo a voar alto na competição.
Meu sonho é ser campeão paulista com o Bota e terminar como artilheiro do torneio. Aí mais para a frente quero voltar a uma grande equipe do futebol brasileiro.
