O novo formato do Campeonato Paulista, seguindo um pouco os moldes da nova Champions League, coloca em risco a permanência de clubes grandes na primeira divisão. Com o novo calendário da CBF, que enxugou os Estaduais, a competição ficou ainda mais de tiro curto.
Em oito rodadas, não há muita margem para recuperação se o início for ruim. Na Champions, não há rebaixamento, tanto que o lanterninha Ajax (que fase dos meus times preferidos...) não vai ser rebaixado (apenas ficará fora de competições internacionais nesta temporada), mas no Paulista continuam caindo dois clubes. O Santos recentemente flertou, por mais de um ano, com a queda no Estadual, fantasma que já assolou apenas esporadicamente os três grandes da capital.
O Palmeiras temeu cair em 1968, quando um jogo bastante estranho contra um Guarani reserva com atleta irregular salvou o clube alviverde. O São Paulo fez uma famosa campanha sofrível no Paulista de 1990 e terminou em 15º lugar no torneio que tinha 24 times, uma edição tão confusa que gerou interpretação equivocada do regulamento por parte de alguns que chegaram a propagar de forma errada o rebaixamento do Tricolor (não havia descenso).
O Corinthians quase caiu no Paulista de 2004, que já não era o Paulistão inchado do passado, o que comprometeu a campanha alvinegra, salva por dois gols do são-paulino Grafite contra o Juventus.
As complicações para os grandes começam pela própria tabela, mais difícil para eles do que para os clubes pequenos, que tradicionalmente fazem preparação forte para o Estadual e largam em melhores condições físicas, sobretudo. Os clássicos foram todos mantidos e há outros confrontos contra equipes da elite do futebol brasileiro. O agora temível Mirassol virou ameaça maior do que o Bragantino, com toda a sua tradição e apoio forte de uma multinacional.
Apenas seis dos 16 participantes do Paulista de 2026 nunca fizeram uma final do Estadual. Tem camisas de peso, como Botafogo, Guarani, Ponte Preta, Portuguesa e Novorizontino, clubes acostumados a disputar torneios nacionais. E há outros projetos de respeito ou times emergentes, como Capivariano, Primavera, Noroeste (voltou agora à elite, mas é bastante tradicional), São Bernardo e Velo Clube. Mesmo se fosse disputado no formato dos últimos anos, já seria um Paulista exigente pelo nível de muitas equipes.
Mas a mudança de regulamento vem justamente quando o Campeonato Brasileiro vai passar a começar no início do ano.
Isso significa dizer que os grandes paulistas terão que dividir atenção, jogando o Estadual correndo o risco de largar mal na principal competição do país. E apenas o Palmeiras no Estado tem um grande e forte elenco para jogar duas disputas simultâneas sem perder bastante rendimento. Mesmo assim, o Verdão de Abel Ferreira não poderá desprezar o Paulista, pois o preço a ser pago pode ser alto: queda no Estadual afeta as finanças e a questão moral, seria um vexame histórico que os torcedores rivais jamais esqueceriam.
Há ainda outras adversidades no caminho de alguns clubes grandes. Corinthians e São Paulo podem ter que jogar as perigosas fases iniciais da Libertadores, afinal a dupla está ainda na briga por vagas via Campeonato Brasileiro. Podem ter que dividir ainda mais atenção com disputas mais nobres do que o Estadual na hierarquia do futebol e na distribuição de dinheiro.
Se o Tricolor chegar ou não à Libertadores, ainda deverá jogar partidas fora do Morumbis por conta de shows (ao menos desta vez serão espetáculos épicos do lendário AC/DC em fevereiro e março). O Palmeiras também pode eventualmente ter que jogar fora do Allianz Parque por causa da agenda de shows, embora tenha equacionado melhor as partidas de futebol e as apresentações de músicos em sua arena com grama sintética. Em São Paulo, onde os clássicos acontecem com torcida única (o mesmo vale para Guarani x Ponte Preta, que vai acontecer em 2026 no Estadual), o mando de campo tem sido muito importante desde a criação dos novos estádios de Corinthians e Palmeiras. Os quatro grandes são raramente batidos em casa nos clássicos.
A Federação Paulista de Futebol ainda não divulgou a tabela com todos os jogos, mas vai ter time grande fazendo dois clássicos em casa e outro realizando duas dessas partidas como visitante. Imagino que inverterão os mandos com base nos confrontos da fase de grupos do Paulista do ano passado.
Pelo que foi divulgado, a tabela vai ser desenhada de acordo com nível técnico e logística para não sacrificar demais alguma equipe e facilitar um pouco para outra.
De todo jeito, imagino que vai ter reclamação de alguém, ainda mais se clube grande estiver na rabeira.
Marcelo Teixeira, presidente do Santos, clube paulista que corre sério risco de descenso para a Série B do Brasileiro, trouxe de volta à tona o tema do número de rebaixados na elite do país. Dentre as ligas nacionais importantes com 20 equipes, só aqui há quatro times caindo, o que representa 20% das agremiações.
Eu concordo que há um pequeno exagero nesse número de condenados. Não quero virada de mesa nunca, o Santos pode cair de novo este ano porque já foi assinado o regulamento atual, mas esse assunto pode ser retomado para os próximos anos. Talvez deixar em três o número de rebaixados no Brasileirão (seguindo o exemplo da badalada e acirrada Premier League) ou então criar um playoff entre o 17º da Série A contra o 4º da Série B para definir uma última vaga na elite nacional, uma espécie de repescagem que também já está na cultura de alguns países.
No Paulista, que tem 16 clubes, caem “só” dois times (12,5% dos participantes). Matematicamente, o mais forte Estadual do país rebaixa menos do que o Brasileiro, mas, diante de todas as dificuldades que citei aqui neste post, posso afirmar que, em 2026, os clubes paulistas correrão mais risco de cair no curto torneio estadual do que no Brasileiro com suas 38 rodadas e pausas para que as equipes possam eventualmente mudar de rota.
Se a intenção da Federação Paulista de Futebol era criar emoção em praticamente todos os jogos, creio que ela vai conseguir sucesso, só que ela deveria, em tese, ajudar seus filiados nas disputas nacionais e internacionais, aliviando de várias formas o calendário e a logística de seus clubes.
Não é o que vai acontecer.
Talvez, para não cair no Paulista, os grandes do Estado vão ter que tirar o pé em uma ou oura partida de Libertadores e Brasileiro.
O Paulistão, que já tem sido chamado de Paulistinha faz alguns anos, ficou menor ainda. E ficou mais ameaçador. “Pânico em SP” (by Inocentes)!
