Estádio do Palmeiras foi um divisor de águas tanto em receitas como em títulos para o clube, inspirando até mesmo rivais, como o Atlético-MG, na hora de planejar a nova casa
Entre os 16.120 livros do acervo pessoal cuidadosamente organizados no apartamento onde reside em São Paulo, o professor e economista Luiz Gonzaga Belluzzo, 79, guarda também uma infinidade de objetos relacionados ao Palmeiras, seu grande amor. São fotos, pôsteres, reproduções de jornais, caricaturas etc. Itens que remetem até o período antes de ele ter sido presidente do clube.
O que não está lá, enquadrado e exposto na parede como alguns amigos e conselheiros do Palmeiras fizeram, é a escritura do Allianz Parque. Seria justo que tivesse porque o documento tem a assinatura de Belluzzo, o responsável maior - ainda que ele não assuma isso - pelo estádio.
A origem remete à presidência de Afonso Della Monica, já em 2007, quando Belluzzo foi chamado para ser o comandante da diretoria de planejamento. Foram sete anos, sendo que de 2009 a 2011 ele foi presidente, até o Allianz Parque ser inaugurado em 19 de novembro de 2014.
De lá para cá, o estádio foi um divisor de águas para o Palmeiras. No aspecto esportivo, foram seis títulos (dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil, uma Recopa Sul-Americana e dois Paulistas) em casa e um único vice (para o Corinthians, no Paulista de 2018, numa decisão por pênaltis).
Nesta quarta-feira, o estádio também será trunfo nas quartas de final da Conmebol Libertadores, contra o Atlético-MG, em partida com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+, às 21h30 (horário de Brasília).
No aspecto financeiro, as receitas também são comemoradas. Em 2019, no último ano antes da pandemia do novo coronavírus (que tirou público e eventos do estádio), a arrecadação foi de R$ 161 milhões (R$ 61,7 milhões em jogos, R$ 46 milhões com o Avanti e R$ 54 milhões com eventos).
Neste ano, o Palmeiras já bateu em julho a meta prevista de arrecadação com jogos em casa. Foram R$ 33,7 milhões líquidos, algo deve aumentar com jogos pela Libertadores e Brasileiro.
“Eu sempre brinco que o Palmeiras é um clube conservador e também é o clube mais inovador do Brasil. Como foi com a Parmalat [parceria de cogestão de 1992 até 2000], como é o Allianz Parque agora e como certamente vai ser a transformação do estádio feita pelos novos dirigentes que vão introduzir outras coisas”, disse o ex-presidente do clube à reportagem.
O encontro com ele foi para falar do modelo do Allianz Parque, que serviu como inspiração para a futura Arena MRV, a casa do Atlético-MG, em Belo Horizonte. Mas acabou rendendo um bate papo longo e com revelações, como, por exemplo, o interesse de compradores no estádio alviverde.
“Sou conselheiro/consultor do Banco Fator, e recebi por meio do Banco ou mesmo pessoalmente uma série de propostas de gente querendo comprar o Allianz. Teve até um episódio bizarro de um sujeito que esteve na minha casa falando que queria comprar e deixar o Palmeiras administrar. Algo surreal. Mas é prova que a nossa arena deu ao torcedor palmeirense aquele conforto que ele precisava ter e também orgulho de ver um time forte e vencedor”, disse.
Muitos se referem ao senhor como o pai do Allianz Parque. Por quê?
BELLUZZO: É, as pessoas falam isso. O nosso presidente Afonso Della Monica, que também teve um papel que não é muito reconhecido, me convidou para ser o diretor de planejamento do Palmeiras. Eu reuni uma série de palmeirenses que tinham conhecimento de assuntos, como mercado financeiro, e tinham noção das coisas, tinham a mesma ideia, a mesma aspiração, ou seja, desejavam que o Palmeiras sofresse uma transformação econômica, criando ativos dele mesmo ou valorizando os ativos que já tinha. Aí começou um debate entre nós. Estavam [João Carlos] Mansur, Marcelo Fonseca, o [Marcelo] Solarino, José Cyrillo Jr, [Antônio] Corcione. [O Allianz Parque] Foi um empreendimento coletivo. Nós fazíamos reuniões, discussões. Fomos bater a porta de algumas instituições financeiras e finalmente conseguimos um contato com a WTorre, onde fizemos uma reunião de planejamento. Nessa reunião, [Luís] Davantel, um dos diretores da WTorre, também palmeirense, que acabou fazendo depois a gestão do estádio, demos os primeiros passos. Nesse encontro, Walter Torre nos contou uma história muito interessante sobre a primeira relação que eles tiveram para a construção de um estádio, que foi com o Corinthians, que não sei se devo contar aqui.
Com o Corinthians?
BELLUZZO: Houve uma reunião com o [Alberto] Ddualib, que era presidente do Corinthians, e eles [WTorre] indagaram o Dualib a respeito das condições contratuais. Estava também o irmão do Juárez Soares, o Edgard, e eles estavam conversando sobre as condições contratuais. Alguém levantou uma questão, não sei se foi o Davantel, a respeito do acordo que o Corinthians tinha com a MSI e o Kia Joorabchian, pois havia no contrato, diziam eles, uma cláusula que exigia a autorização do Kia para a realização de qualquer acordo que envolvesse mudanças patrimoniais no Corinthians. E o Dualib inadvertidamente teria dito: ‘Mas nós não ligamos pra contrato’. Não houve acordo.
Diferentemente do que acabou acontecendo entre Palmeiras e WTorre, que, apesar de alguns momentos conturbados, acabou dando muito certo a parceria pelo Allianz Parque...
BELLUZZO: Se alguém pensa, imagina que eu tinha uma visão clara, uma noção clara do sucesso que ia ser, eu não tinha. Eu sabia que era importante, sobretudo porque o Palmeiras dispunha de uma vantagem, uma externalidade como diriam os economistas, que era a localização. A localização do estádio foi importantíssima para o sucesso dele porque ali é uma convergência de várias avenidas, o que facilita muito o acesso. Mas eu não poderia imaginar, nem meus amigos, esses que eu citei, a quem eu devo muito e que foram muito cooperativos, o que se tornaria.
O senhor sempre exalta o contrato com a WTorre. Ainda vê assim?
BELLUZZO: Nós tivemos várias reuniões para confirmar o contrato, fazer a escritura, que fui eu quem assinou. Eu sempre digo isso, sem orgulho, mas afirmando aquilo que é verdade. O contrato foi leonino a favor do Palmeiras. O Palmeiras tem direito a toda a renda do futebol, participação desde o primeiro dia de inauguração em todas as propriedades do estádio, camarote, venda de camarote, shows etc. Hoje em dia já está correndo a 10% [o retorno de receita em eventos da Allianz e áreas exploradas pela WTorre dentro do estádio]. E essa porcentagem vai crescendo. Mas eu tive que enfrentar muita resistência.
Pode dar exemplos do tipo de resistência, até para quem se esqueceu da turbulência política que foi dentro do clube durante o processo de construção do Allianz?
BELLUZZO: Havia gente, quando das reuniões do conselho, que assomava a tribuna para falar que não ia assumir [as possíveis dívidas], que era um projeto horroroso, que o Palmeiras tinha entregue seu patrimônio. O Palmeiras é o proprietário do estádio. O que acontece é que a WTorre tem um contrato de uso da superfície. É um direito do código civil. Nós fizemos várias avaliações. Tive ajuda de muita gente. Muito palmeirense da área jurídica, juízes, inclusive, promotores. Nós contamos muito com o entusiasmo do Walter Torre, que infelizmente morreu. Ele passou por momentos difíceis. Tinha apresentações que a empresa fazia no conselho, e tinha gente que interpelava. Tinha gente que dizia que o projeto era horrível, que não ia dar certo, enfim. Houve até um momento em que um dos opositores, que tinha até sido meu companheiro em uma das chapas, depois do estádio pronto, já funcionando, numa eleição para o conselho… eu estava caminhando em uma das alamedas do lado do estádio e ele veio na minha direção. Eu me aproximei e falei: ‘Tá vendo o estádio pronto, funcionando e proporcionando muita receita financeira para o clube?’. Aí ele me disse o seguinte: ‘É, tá aí, né? Mas tem muitos pontos cegos’. Eu não resisti e respondi: ‘Meu filho, o único cego que tem aqui é você’. Aí ficou todo mundo rindo.
Tem uma história já famosa do conselheiro que tentou impedir as máquinas de trabalharem...
BELLUZZO: Nesse dia eu estava no hospital. Fui fazer minha safena. Entrei no hospital no final de agosto, começo de setembro. Meu amigo Cyrillo que me contou que, quando as máquinas da WTorre iam entrar para começar a demolição do velho Palestra Itália, um conselheiro se jogou na frente das máquinas e não queria deixar o trabalho começar [risos]... Não sei se é possível um negócio desse. Um amigo meu, que é um pouco mais exaltado, falou: ‘Passa por cima’. Outro episódio foi logo depois que eu sai do hospital. Ainda estava com muitos cuidados e entrei numa fila de votação. As pessoas diziam ‘Presidente, o senhor pode ir direto votar’. Eu estava com meus filhos e era para educá-los que estava na fila, como todo mundo estava. Aí veio um senhor, que eu até acho que já morreu, era conselheiro. Ele disse: ‘Veja só o que o senhor fez! Transformou nosso clube em ruínas’. Aí minha mulher, que é uma língua aguda, disse: ‘Meu senhor, o senhor já se olhou no espelho?’. ‘Sim, me olhei’. E ela: ‘O senhor é uma ruína’. É uma situação um pouco chata, mas achei engraçado. Meus filhos morreram de rir. Davam gargalhadas.
Mas o Palmeiras sofreu no período sem estádio. Jogava no Pacaembu, no Canindé, em Barueri e até em Presidente Prudente. Deve ter sido o período de oposição mais efervescente, não?
BELLUZZO: Foi difícil. Tanto que o programa Avanti mingou. Caiu para 12 mil, 10 mil pessoas. Na época, eu tinha voltado para dar aula na Unicamp e recebi um jornalista do Diário Lance! dizendo que o Mustafá [Contursi, ex-presidente do Palmeiras] tinha dito que o Avanti era fracasso e tal. Eu respondi: ‘Agora sem o estádio realmente é...’. Hoje, o Avanti está chegando a números impressionantes. Mas aquele foi um período de sacrifício. Eu fiz uma dívida para pagar as penhoras do clube. Foi uma dívida de R$ 65 milhões com o BMG. Foi um empréstimo para pagar as penhoras e liberar o espaço para a WTorre fazer a obra. Ou seja, eu fiz um investimento como qualquer empresa faz. Para fazer um investimento, primeiro você gasta. Depois você tem o resultado. Sou um admirador de John Maynard Keynes. Na questão do estádio, eu fui keynesiano. E você sabia que fui suspenso um ano do Palmeiras porque diziam que eu quebrei o clube? Quebrei??? Dei um ativo que vale hoje R$ 2 bilhões de reais…
O novo estádio foi um divisor de águas para o bom momento do Palmeiras?
BELLUZZO: Porque não é somente um estádio de futebol. Ali se joga futebol também, mas é uma arena multiuso. Na realidade tem várias propriedades e funções que o estádio antigo não tinha O Palmeiras tinha um prejuízo enorme com a manutenção do antigo Palestra Itália. Era coisa de R$ 10 milhões por ano. Agora só tem receita. Contra o Cerro Porteño [pelas oitavas da Conmebol Libertadores] a renda foi de R$ 3 milhões. São rendas que estão se repetindo. Logo no primeiro ano de funcionamento a receita do futebol foi avassaladora. Agora tem um conflito ali porque o Palmeiras precisa fazer um acerto com a WTorre porque não está pagando a despesa do dia de jogo. Já estão caminhando em uma boa direção para acertar tudo. É vantajoso para os dois lado. O estádio é um ganha-ganha. É um ativo valiosíssimo, que se revelou valiosíssimo para os dois.
Ainda tem muito potencial para ser explorado?
BELLUZZO: A partir do Allianz você pode fazer vários projetos. Ali você tem vários ambientes. Há um projeto de criar o Museu do Palmeiras, como vários clubes na Europa já tem. Agora já temos a sala de troféus lá. Mas, mais do que isso, Acho que posso contar isso. Outro dia recebi a visita do Ugo Giorgetti, um cineasta. Ele disse: ‘Olha, você sabe que estou com uma ideia de criar um Instituto Cultural Palmeiras’. Até pensei, depois que ele me falou, conversei com a diretoria e muitos se animaram. É uma chance de fazer uma valorização e uma recuperação das nossas relações com a Itália e a cultura italiana. Pensei até que o nome poderia ser Instituto Cultural Leonardo da Vinci Palmeiras para recuperar a cultura brasileira, para oferecer cultura aos associados. O Palmeiras precisa valorizar seus associados, seus torcedores. Oferecer cursos. Assim como o José Luiz Portella, outro amigo, que está na prefeitura e está fazendo um trabalho com pessoal mais pobre. Ele me disse que estava querendo reunir alguns moradores sem teto que são palmeirenses, fazer um gesto e convidar alguns para assistir um jogo do Palmeiras no Allianz Parque. Na pandemia o Palmeiras teve uma atitude muito correta com os moradores de rua, oferecendo comida etc. O que quero dizer com tudo isso é que, sim, tem muito potencial o Allianz Parque e acho que um clube de futebol, que tem essa reputação do Palmeiras, tem de usar isso para devolver o afeto dos torcedores, devolver aos menos favorecidos.
É um projeto que de certo modo é invejado e que inspira outros clubes. Por exemplo, o Atlético-MG teve uma consultoria da WTorre para planejar a Arena MRV.
BELLUZZO: Mas eu sempre afirmo que a réplica do Allianz é complicada. O fato de ser em São Paulo, uma cidade que tem um alto nível de renda, de capacidade de pagamento de ingressos etc. O potencial de um estádio em uma cidade como São Paulo é muito grande. Quando fui presidente do Palmeiras, eu tinha ótimas relações com o Andres [Sanchez, ex-presidente do Corinthians], como tinha com o Juvenal Juvêncio [ex-presidente do São Paulo]. Nós queríamos avançar um pouco na relação entre os clubes e criamos o G4. Infelizmente é muito difícil manter os clubes unidos. Em muitos casos eles precisam se juntar para tomar decisões. Mas nessa época recordo que o Juvenal disse pra mim: ‘Você vai me atrapalhar [com o Allianz Parque]. Não vou poder receber mais muitos shows no Morumbi’. Eu respondi: ‘Juvenal eu fiz o que tinha de fazer’. Já o Andres um dia me encontrou no aeroporto uma vez e falou ‘Como você arrumou o naming rights com a Allianz?’. Ele estava preocupado com a busca pelo naming rights na Arena do Corinthians. Aí falei: ‘Isso aí foi um problema tratado pelo Walter Torre, pelo meu pessoal lá de marketing’. Aí ele me apresentou um pouco os problemas que ele teve no contrato, que é diferente do nosso modelo. Eu nem devia dizer isso porque os palmeirenses vão ficar bravos comigo, mas eu tentei argumentar com ele que era preciso pensar um pouco diferente na gestão do estádio. Aí o Luis Paulo Rosenberg disse o seguinte, que é coisa de economista ignorante em direito: ‘Mas o estádio é nosso. O de vocês é da WTorre’. Eu falei ‘Luis Paulo, para com isso. O estádio, a propriedade do estádio, é do Palmeiras. O Palmeiras fez uma cessão de uso para a WTorre’. É como se fosse uma PPP, uma parceria público privada. Mas o mérito não é só meu. É de muita gente.
O Palmeiras está preparado ou pensando quando o contrato com a WTorre chegar ao fim, em 2044, o que deve ser feito para não perder essa galinha dos ovos de ouro?
BELLUZZO: A minha ideia é criar uma empresa de propósito especial para administrar a Arena. O clube de futebol [administrar] é uma coisa muito perigosa. Sempre tem um favorzinho daqui, um sujeito que tira uma lasquinha de lá. É da cultura do nosso futebol. O ideal é criar uma empresa de propósito especial e isso precisa ser começado a discutir desde já para tornar uma coisa mais profissional. Não é que você vai fazer uma coisa puramente mercantil, de usar aquilo. Mas até para preservar os direitos de seus torcedores futuramente e assegurar o sucesso do estádio.
