Ganhar três títulos consecutivos da Premier League – ou cinco em seis disputas – parece algo inatingível. Pode até ser para muitos, mas não para o Manchester City, que acaba de concretizar essa maluquice que é dominar o melhor campeonato do mundo como se não houvesse nenhum time no páreo.
Se as disputas anteriores foram com o vizinho Manchester United e sobretudo o Liverpool de Jürgen Klopp, o rival da temporada 2022/23 foi o Arsenal. O clube de Londres passou a maior parte da campanha na liderança, sem dar chance ao estrelado e favorito City, mas sucumbiu na reta final. Tropeços inesperados contra Southampton, West Ham e Nottingham Forest facilitaram a missão do rival.
Enquanto a jovem equipe de Mikel Arteta sentia a (natural) pressão de "fechar" o campeonato, o City cresceu no momento certo. Deixou no passado o futebol oscilante, sem confiança, e assumiu o modo rolo-compressor que o faz ser temido desde que Pep Guardiola, em 2017, ganhou carta verde para reconstruir o elenco.
Ganhar tanto assim não é mérito de uma pessoa ou de um motivo, ainda mais em uma campanha como esta. Para erguer de novo o troféu da Premier League, o City precisou passar por muita coisa: adaptações táticas, controle de vaidades e cobranças públicas do exigente Guardiola. Sem contar ele, claro: Erling Haaland, a máquina de fazer gols.
Mas o que transformou aquele City cambaleante de janeiro em uma máquina na hora de definir o campeonato? A ESPN separou abaixo cinco pontos fundamentais de mais uma campanha vencedora do time de Manchester. Ao que tudo indica, apenas mais uma entre muitas que já aconteceram e outras que provavelmente virão no futuro.
O artilheiro inevitável
Contratado por 60 milhões de euros, sem contar os valores combinados em contrato para ele, o pai e sua empresária, Haaland chegou com uma imensa pressão nos ombros, que só aumentou quando, em sua estreia oficial, o City perdeu o título da Supercopa da Inglaterra para o Liverpool. Pior: com um gol inacreditavelmente perdido pelo camisa 9.
As críticas subiram de tom. Alguns, corajosos, bradaram que Haaland não faria sucesso na Premier League. Outros se arriscaram a dizer que o atacante havia escolhido o clube errado, justamente pelo sucesso do City jogando sem um centroavante fixo desde a saída de Sergio Agüero. Os dois grupos pagaram a língua.
Haaland não só deu a volta por cima, como nem precisou completar a temporada para esmagar o recorde histórico de gols da liga. O gigante norueguês balançou as redes 36 vezes em 33 jogos até agora, algo que ninguém conseguiu na era moderna do futebol inglês. Sem seus gols, o City seria campeão? Impossível cravar. Mas é garantido dizer: Haaland escolheu o clube certo.
Bronca pública de Guardiola
"Não reconheço meu time. Meus times sempre tiveram paixão e vontade de correr. Estamos longe da equipe que fomos nas temporadas passadas". Palavras de um impaciente Pep Guardiola em 20 de janeiro, minutos após o seu Manchester City virar um 0 a 2 para 4 a 2 sobre o Tottenham, no Etihad Stadium.
O técnico até minimizou essa declaração meses depois, quando a fase positiva já imperava em Manchester, mas é lógico que uma cobrança assim, pública e nos microfones para quem quisesse (ou não) ouvir, mexeu absurdamente com o vestiário e obrigou o time a dar uma resposta. E ela veio em grande estilo.
De uma equipe que tropeçou seis vezes em 19 jogos até o desabafo de Guardiola (três derrotas e três empates), o City transformou-se naquilo que costumava ser nas outras campanhas: imparável. Somou 43 dos 48 pontos e emendou nada menos do que 11 vitórias consecutivas, que o fizeram secar a vantagem de oito pontos que o Arsenal tinha.
Adeus do 'garoto problema'
Dez dias depois da "paulada" de Guardiola no elenco, o City tomou uma decisão drástica: emprestar João Cancelo para o Bayern de Munique, sem receber nenhum dinheiro ou jogador em troca. Quase ninguém entendeu a negociação, por se tratar da saída de um jogador importante em anos anteriores, que poderia enfraquecer o elenco atual e, pior, reforçar um potencial rival na disputa da Champions League.
Nos bastidores, porém, a saída teve explicação. Após perder a posição de titular absoluto, Cancelo passou a ser uma influência negativa no vestiário, queixando-se das decisões da comissão técnica e por vezes batendo de frente com Guardiola. O relacionamento já desgastado apenas facilitou a decisão da diretoria, que preferiu perder o talentoso português em prol de melhorar o ambiente no elenco.
A escolha se mostrou das mais acertadas – para o City. Enquanto Cancelo amargou banco no Bayern, Guardiola deu confiança a Nathan Aké e o transformou no novo dono da lateral esquerda, em uma reinvenção tática que mudou os rumos do time de Manchester. E ainda com um bônus, já que, nas quartas de final da Champions, os ingleses despacharam os alemães no confronto direto.
Revolução tática
Quem observa mais atentamente os trabalhos de Guardiola ano a ano, sabe que o técnico sempre busca algo diferente em cada temporada, desde os tempos do Barcelona. As ideias costumam dar certo e oferecer uma nova abordagem às equipes, exatamente o que aconteceu no meio da fase inconstante do Manchester City.
Com João Cancelo emprestado ao Bayern e Kyle Walker longe da boa fase de outros tempos, Pep decidiu revolucionar o sistema tático, ao adotar o 3-2-4-1 com a bola variando para o 4-4-2 na fase defensiva. Nessa formação, assim que o City tinha a bola, um dos defensores dava um passo à frente e transformava-se em meio-campista, o que aumentava o controle do setor e dava uma variação de jogo à equipe.
Quem mais executou a função foi John Stones. O zagueiro acostumou-se a jogar como um volante, lado a lado com Rodri, enquanto Rúben Dias, Manuel Akanji e Nathan Aké formavam a trinca defensiva. Nessa ideia, o City tinha superioridade numérica no meio-campo, dava liberdade a Ilkay Gundogan e Kevin de Bruyne no ataque e transformava os pontas (Riyad Mahrez ou Bernardo Silva pela direita e Jack Grealish na esquerda) em alas superabertos. Quem enfrentou sabe: foi difícil parar essa equipe.
Os brilhantes coadjuvantes
Sim, Haaland foi o artilheiro recordista. Sim, De Bruyne continuou o maestro capaz de achar passes impossíveis. Mas a temporada do Manchester City não seria esse sucesso se não fosse o desempenho dos coadjuvantes, que muitas vezes assumiram até a missão de salvar o time de grandes enrascadas.
Rodri, o sucessor de Fernandinho como volante, viveu o auge da carreira. Marcou gols decisivos, como aquele contra o Bayern na Champions, ganhou duelos e ditou o ritmo do meio-campo. Stones, como já falado por aqui, fez papel de zagueiro e volante construtor, ajudando a dar solidez defensiva e qualidade também no ataque (dois gols e duas assistências). A seu lado, Aké se transformou no lateral que o City precisava há anos para dar segurança à defesa e liberdade aos homens de ataque.
Teve mais. Gundogan, herói do título da temporada anterior, seguiu em fase incrível jogando com mais liberdade e foi o grande parceiro de Kevin de Bruyne na armação das jogadas. Bernardo Silva também brilhou, com a tradicional característica de atuar (bem) em quase todos os setores do campo. Nessa campanha, o português jogou até de lateral-esquerdo.
E, claro, impossível não citar Jack Grealish. De criticado na primeira temporada apagada a dono absoluto da ponta esquerda, o camisa 10 conquistou Guardiola e a torcida no pós-Copa do Mundo pela capacidade de decidir no ataque e a dedicação digna de operário para ajudar na defesa.
