Um processo recente no Brasil, mas que já está enraizado em países vizinhos.
O Deportivo Maldonado foi o primeiro clube uruguaio a ser uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) em 2009 e abriu caminho para que hoje Plaza Colonia, Rentistas, Montevideo City Torque, Boston River, Atenas, Albion e Rocha sigam o mesmo caminho.
Desde então, o Depor - o primeiro a ser uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) no Uruguai em 2009 - iniciou o processo de investir em princípio na base para depois moldar um elenco competitivo a nível profissional.
Em 2019, o Deportivo Maldonado conseguiu o acesso à primeira divisão do país. Três anos depois, alcançou pela primeira vez a classificação à CONMEBOL Libertadores após terminar o Campeonato Uruguaio com a terceira melhor campanha geral.
O adversário na segunda fase preliminar do torneio continental será o Fortaleza, e o jogo de ida acontece nesta quinta-feira, a partir das 21h, no Estádio Domingo Burgueño Miguel, em Maldonado.
Técnico que conquistou a façanha, Francisco Palladino deixou o Depor rumo ao Santiago Wanderers, do Chile, e Fabián Coito foi contratado para seu lugar. Aos 55 anos, o ex-treinador das seleções de base do Uruguai voltará a reencontrar a Libertadores: atuou como defensor pelo Montevideo Wanderers em três oportunidades na década de 1980.
Em entrevista à ESPN, Fabián Coito fala do crescimento do futebol uruguaio, elogia o trabalho de Juan Pablo Vojvoda à frente do Fortaleza e quais são as principais características que pretende implementar no futebol do Deportivo Maldonado.
O que significa a campanha histórica do Maldonado até a Libertadores para o clube e para você?
Foi um grande ano, uma grande campanha, histórica para o clube. É uma instituição que está crescendo muito, muito equilibrada, muito estável, dando passos curtos, mas seguros. Logicamente foi motivo de euforia, alegria para todo o clube, para toda a cidade. Não apenas foi histórico por ter ficado em terceiro no campeonato, mas também por ganhar o direito de participar da Libertadores pela primeira vez.
Para mim, que cheguei neste ano ao clube, é um lindo desafio tentar manter a nível local o Deportivo nesta posição de lutar por copas internacionais. Na Libertadores será a primeira experiência, não será fácil, sabemos do potencial que tem o Fortaleza, mas estamos nos preparando para tentar fazer dois jogos muito bons e lutar por seguir na Copa.
O nível do futebol uruguaio está melhorando? Antigamente só se falava em Nacional e Peñarol, mas outros clubes estão sendo protagonistas nos últimos anos.
O nível se mantém igual, Peñarol e Nacional estão sempre em posições privilegiadas. As copas se abriram para uma maior quantidade de clubes em busca de que cresçam, são clubes que têm muita dificuldade em competir em torneios internacionais, que exista mais espaço. Me parece que o futebol no geral melhorou.
No Uruguai, os clubes considerados pequenos estão crescendo por vários fatores: veio o formato de SAF (algumas estão muito bem, outras fracassaram), e no caso do Maldonado potencializou o clube; outras equipes se mantêm no formato histórico e trabalham muito bem na base, revelam jogadores, e se nivela o potencial das equipes do futebol uruguaio, que já não fica tão marcado pela hegemonia dos últimos anos de Peñarol e Nacional.
Vocês fizeram somente três jogos oficiais em 2023, como colocar as ideias no elenco em tão pouco tempo?
Fortaleza leva vantagem sobre nós por ter mais jogos oficiais. Nós tivemos três amistosos e temos três jogos oficiais. Nesse sentido, há uma diferença, porque há coisas que só são conseguidas com a competição. Mas não serão determinantes. É algo para levar em conta, mas não uma condição suficiente para acreditar que vá garantir a classificação.
O futebol uruguaio melhorou nisso: antes, as equipes chegavam aos torneios internacionais sem campeonato local, porque começava ainda mais tarde. Melhorou um pouco, ao menos chegaremos com três jogos disputados. Futebol uruguaio se ajustou um pouco ao calendário para que os times chegassem aos torneios internacionais em melhores condições.
Como você vê o trabalho de Vojvoda no Fortaleza e também o de outros técnicos estrangeiros no Brasil?
Enriquece muito o futebol a chegada de técnicos e jogadores estrangeiros. O formato dos clubes em sociedades anônimas abre o leque de possibilidades, muda um pouco. Em alguns casos melhora, em outros casos não, mas está dentro das possibilidades.
É uma comissão técnica muita respeitada, não é nada fácil no Brasil estar o que tempo que Vojvoda está à frente da equipe pela grande rotação de treinadores que há no futebol do país, e também participou da primeira vez que o Fortaleza competiu a nível internacional. É claro que levamos em consideração, o respeitamos muito e sabemos do potencial da equipe e da instituição.
O que esperar do estilo de jogo do Deportivo Maldonado para as eliminatórias da Libertadores?
Dentro da ideia que nós temos, não é apenas esperar e tentar contra-atacar, isso o jogo vai dizer se podemos alcançar, de acordo às decisões tomadas durante a partida, e também ao plano de jogo da equipe rival. Vamos ver quem consegue impor um pouco mais as condições de jogo.
Esta é uma equipe que tinha um estilo muito definido de jogo: um time forte defensivamente, que esperava em bloco médio, bloco baixo, muito efetivo na hora de aproveitar as chances de gol que possuía. Defendia muito bem a vantagem...
Tentamos manter essa característica, porque 90% do plantel continua aqui, e agregar algumas coisas que são particulares de cada treinador. Talvez dentro da nossa ideia está não ficar tão perto do nosso gol defendendo, tentar recuperar a bola um pouco mais longe; não ter como modelo de ataque unicamente o contra-ataque, mas também momentos em que a bola estiver conosco ter um bom recurso e um bom funcionamento para causar danos à equipe rival. Estamos trabalhando isso desde o início do ano. Aos poucos vamos consolidando a ideia.
Qual é o objetivo do Maldonado na Libertadores? A diretoria colocou meta nesta primeira participação?
Creio que há objetivos que vão desde aquilo que já temos garantidos, que é a participação na fase 2, mas também fazer uma boa apresentação, que exista uma boa percepção do que é a instituição, o clube em sua primeira participação; nos preparar para tentar avançar à próxima fase; e depois logicamente como objetivo mais importante, mais alto é competir na fase de grupos de Libertadores, não apenas pelo quesito econômico, mas também pela grande motivação e pela grande vitrine para nossa instituição e nossos jogadores.
Porém não tiramos o foco pensando em fase de grupos, porque antes temos dois rivais. Se conseguirmos o resultado que queremos, teremos ainda outro rival. Não podemos desfocar pensando muito mais além do que já temos garantidos.
Este é o seu maior desafio como treinador?
Sempre o próximo desafio é o mais importante. Trabalhar a nível de seleção nacional é muito grande também, jogar Copa Ouro, eliminatórias... Mas sempre para mim o mais importante é o que há pela frente, e neste caso é o Deportivo Maldonado.
