Marcelinho não esconde que na Conmebol Libertadores vai torcer para o Corinthians, embora ele ache que o time precisa jogar pelo empate em casa
Quem viu Marcelinho Carioca sair da base do Flamengo pegando o final da era Zico e sendo campeão brasileiro sob a batuta do mestre Júnior talvez estranhe o fato de ex-jogador de 50 anos declarar amor incondicional ao Corinthians. Algo que só não surpreende quem é de São Paulo.
Marcelinho já está há quase 30 anos na cidade e se adaptou não só ao estilo de vida do paulistano como se entregou ao clube pelo qual disputou mais jogos durante a carreira (433) e que mais marcou gols (206), além de ter levantado dez títulos.
Do Flamengo ele ficou com um sentimento dividido. Tem gratidão porque o clube buscou ele no Madureira e ajudou na formação até o profissional. Ao mesmo tempo, tem mágoa. Não achou justo ser negociado no final de 1993, quando esperava ainda construir uma história na Gávea.
Hoje, formado em jornalismo e trabalhando diariamente como apresentador e comentarista da Top Esportes, na rádio Top FM, de São Paulo, Marcelinho repassou para a ESPN as memórias que guarda dos dois rivais das quartas de final da Conmebol Libertadores.
Para quem vai sua torcida? Isso ele não tem dúvidas...
Veja a entrevista exclusiva com Marcelinho Carioca:
Para quem vai torcer?
MARCELINHO: Lógico. É Coringão, Coringão, sempre. Não fico em cima do muro. Sou grato ao Clube de Regatas Flamengo, que me ascendeu ao futebol brasileiro, mas sou Corinthians minha vida, Corinthians minha história, Corinthians meu amor. Coringão, Coringão.
Que tipo de lembrança você tem de duelos entre Corinthians e Flamengo?
MARCELINHO: O primeiro gol de falta, em 1991, lá em Cuiabá. Você fazer o primeiro gol no profissional contra o Corinthians é um negócio muito forte. No momento eu não tinha noção do que estava acontecendo. Fui ver na semana. Aí eu veio de novo contra o Corinthians, dia 1º de dezembro de 1993, eu estou na concentração e recebo uma ligação 11h15 da manhã, nascimento do meu filho Lucas, o primogênito. Aí falei pro meu irmão mais velho, falei: 'Vou fazer um gol para o meu filho'. Aí no Morumbi eu faço um gol em cima do Ronaldo. Foi 2 a 2 pelo Campeonato Brasileiro. Me vem a mente outro gol importante. Aí contra o Flamengo, no primeiro jogo contra eles, em 1994, pelo Brasileiro, no Pacaembu. Fiquei nervoso, ansioso na concentração. Ganhamos de 1 a 0, gol do Sousa. Eu tive uma participação moderada. Não tive destaque. Lembro que dias antes um dirigente me ligou e pediu para eu puxar o freio de mão, não escangalhar o Flamengo. Aí deu uma confusão danada, um rolo danado, porque acabei falando isso na imprensa. Lembro também de 1996, quando fomos jogar no Maracanã, foi 1 a 1 e eu fiz um gol de pênalti.
Você jogando nos dois, mas começando pelo Flamengo, como foi vestir a camisa e iniciar profissionalmente no futebol pelo clube rubro-negro?
MARCELINHO: Cara, imagina um menino pobre no Rio de Janeiro jogando pelo Madureira durante sete anos e sonhando jogar no Maracanã lotado com a camisa do Flamengo. Eu falava para o meu pai: ‘Eu vou jogar no Maracanã’. Eu era flamenguista desde pequenininho. Daqui a pouco juvenil e direto para o profissional no lugar do Zico, fazendo gol no Maracanã, sendo campeão. Foi uma loucura. Daqui a pouco teu nome no placar, teu nome no jornal, as pessoas começam a saber quem você é e tua cabeça começa a girar de uma forma inexplicável. Um outro mundo começa a acontecer. Eu não era ainda ídolo, mas era uma promessa, um bom jogador, querendo se firmar. Em 1988, a gente estourou e, em 1993, foi nossa ascensão.
A chance de se tornar ídolo do Flamengo foi "atrapalhada" pelo Corinthians, que te contratou em 1994. Foi mais ou menos isso?
MARCELINHO: Quando o Corinthians veio para me levar para São Paulo eu falei: 'Tá louco, não. Vou fazer o que na selva de pedra?'. Mas era o Corinthians. Uma torcida também fanática, louca, igual à do Flamengo. Não queria ir, mas acabei convencido. Me apresentei em 23 de dezembro de 1994, na rua são jorge 777, no Tatuapé. Ali já fiquei assustado porque tocou uma sirene. Eu novinho, com bigode, cabelo blackzinho… Cara, a torcida lotou. Veio Gaviões, Camisa 12. Uns caras doídos, loucos. 'E aí, meu! Vai jogar, meu! Aqui é diferente, meu!'. Era meu pra cá, meu pra lá. Eu com gíria de carioca. Mas falei para o presidente Alberto Dualib: 'Eu vim aqui para fazer história, para ser campeão'. Teve uns sorrisos, umas gargalhadas, de gente falando ‘Esse moleque tá maluco, com 21 anos de idade não sabe a dimensão que é esse clube, tá pirando’. Eu sabia da onde eu tinha saído, onde eu fui criado. Vinha de um clube com outra nação forte. Já tinha passado em um teste. Aqui era o teste final e deu no que deu.
Hoje você é mais identificado com o Corinthians e não muito com o Flamengo?
MARCELINHO: Meu primeiro jogo pelo Corinthians foi em 24 de janeiro de 1994, contra a Portuguesa. Tinha 40 mil pessoas no Pacaembu. Estava 1 a 0 para a Portuguesa, gol do Maurício, aí o Pé de Anjo [apelido que ganhou no Corinthians] empatou. Aí eu vi o Pacaembu inteiro começar a gritar meu nome. A emoção veio forte. Ganhamos de 3 a 1. A cada jogo eu comecei a sentir o dia a dia de São Paulo, do clube, da torcida. A cada ano sendo campeão, cravando meu nome na história. Aí adentrou na veia o sangue preto e branco, não esquecendo do outro lado, a gratidão ao Flamengo. Jamais vou cuspir no prato onde comi. o Flamengo me ascendeu para o futebol brasileiro, ele me deu a parte odontológica, a parte médica, me deu educação, me deu cesta básica. O Flamengo cuidou não do desportista, mas do jovem, do adolescente, do cidadão. Eu vim preparado para enfrentar São Paulo. Aqui foi só colocar em prática tudo que tinha aprendido. Aqui o bagulho é louco, mano. O torcedor é tiro porrada e bomba. Ele vive na emoção. Não vive na razão. Você ganhou, você tá no céu. Perdeu, você tá no inferno. Não tem meio termo.
Quais são as diferenças de jogar no Corinthians e no Flamengo?
MARCELINHO: Jogador diferenciado joga em qualquer lugar, com público, com estádio lotado ou com uma pessoa só. Ele vai fazer por amor e tem a condição para desenvolver. Ele ama aquilo que ele tá fazendo. [Então, não tem diferença nenhuma entre os dois?] A diferença de torcida, de grito, são situações diferentes, virtudes, qualidades, gritos, cada um tem a sua cultura. Não tem como falar esse é melhor do que aquele. São situações diferentes, inusitadas do povo carioca e do povo paulista. São as duas maiores torcidas do Brasil e o amor e o fanatismo transcendem a razão. Às vezes, o cara tá juntando o dinheiro para comprar uma casa, mas tem a viagem da final do Mundial. Ele vai gastar tudo e vai pra o Mundial. Depois ele perdeu aquele lance, mas ele não se arrepende porque ele realizou o sonho dele.
Parecem mais semelhanças do que diferenças. Não tem uma torcida que gosta mais de carrinho, de raça, de brio que a outra, por exemplo?
MARCELINHO: É semelhante. Já dei muito carrinho mentiroso. A bola vai sair e você dá aquele carrinho de migué e a torcida vibra. Os dois clubes têm ideais diferentes, mas a mesma tônica. É raça, disposição, vontade, coração na ponta da chuteira. Às vezes, não precisa ter a técnica refinada, mas tem de ir na porrada, na disposição, na vontade, sabe? De saber que a camisa é a segunda pele. É exatamente isso. Essa é a tônica.
E a história de "segunda pele" no Corinthians? Não tinha isso com a camisa do Flamengo, que a torcida no Rio se refere como "manto"?
MARCELINHO: Eu quem criei isso no Corinthians porque eu sai machucado demais do Flamengo. Eu sai machucado, triste. Não com a torcida, que a torcida não tem culpa, mas com a instituição pela forma como foi. Saiu eu, Djalminha, Júnior Baiano, Marquinhos… Aí eu falei 'Porra, vou dar a prova, vou mostrar do que eu sou capaz'. Aí envergou e o jeito que o paulistano me acolheu… Sabe quando a camisa gruda, colou. Aí eu falei é a segunda pele. Lá era o manto. 'Ah, vai vestir o manto sagrado? Vou vestir o manto'. Aqui é minha segunda pele. É um negócio que colou mesmo. Tanto que eu cravei aqui e não sou hipócrita. Eu resido há 28 ou 29 anos em São Paulo. Sou carioca com orgulho. Sou muito grato ao Madureira, onde iniciei, e ao Flamengo, que me ascendeu ao futebol brasileiro, mas é Corinthians minha vida, Corinthians minha história, Corinthians meu amor. Essa paixão é um negócio inexplicável.
