Neste domingo (30), às 10h (de Brasília), o Napoli enfrenta a Salernitana, no Estádio Diego Armando Maradona, podendo dar um grande passo para ser campeão do Campeonato Italiano. A partida terá transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.
Para faturar o 3º Scudetto de sua história, o clube do sul da Itália tem que ganhar seu compromisso e torcer para a vice-líder Lazio não vencer a Inter de Milão, em partida que ocorre mesmo dia, domingo (30), às 7h30 (de Brasília), também com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.
A festa da torcida napolitana começou já no último final de semana, depois que o time bateu a Juventus em clássico emocionante, em pleno Allianz Stadium, e foi recebido com um verdadeiro cortejo de campeão por seus fãs em meio à madrugada (veja no vídeo acima).
Tanta alegria tem explicação. Há cerca de 20 anos, os torcedores celestes choraram a maior desgraça da história quase centenária do clube: a falência e a possibilidade de fechar as portas.
Em 2 de agosto de 2004, a equipe não conseguiu a licença para disputar a Serie B italiana, já que tinha dívidas acumuladas de 70 milhões de euros. Com isso, a bancarrota foi declarada de maneira oficial pela Justiça italiana, que permitiu que a equipe continuasse existindo apenas se fosse comprada por alguém que pudesse garantir o pagamento dos débitos e refundasse o clube com outro nome.
Foi aí que surgiu o empresário Aurelio De Laurentiis.
Dono de uma das maiores produtoras de cinema da Europa, ele comprou o time de coração e mudou o nome da agremiação para Napoli Soccer, seguindo a determinação da Justiça. A equipe conseguiu as garantias para retornar ao futebol profissional, mas, como é de praxe na Itália, teve que recomeçar sua história no "fundo do poço": a Serie C1, à época a 3ª divisão nacional.
O "novo Napoli", então, teve que montar um elenco às pressas para jogar a liga, recorrendo a nomes sem tanta fama para tentar ajudar na reconstrução. Uma das apostas foi um atacante brasileiro que vinha fazendo sucesso atuando pelo pequeno Catanzaro, outra equipe do sul do país: Robson Machado Toledo.
Em entrevista à ESPN, Robson, que è época pertencia oficialmente à Udinese, contou como foi parar na 3ª divisão italiana para ajudar os Partenopei a iniciarem a dura escalada de volta à Serie A.
"Tinha um diretor de futebol chamado Pierpaolo Marino, que tinha sido importante na minha contratação para a Udinese. Ele foi para o Napoli, que tinha recém-caído para a 3ª divisão, iniciar o trabalho lá. Ele me ligou, eu abracei o projeto e fui convencido por ele. O Pierpaolo me deu a palavra dele que seria legal, e assim começou minha aventura no Napoli", relatou.
"A gente não tinha nem bola"
Quando chegou ao novo clube, porém, o brasileiro se deparou com um cenário caótico.
"Ficamos três meses fazendo pré-temporada em uma cidade próxima a Nápoles chamada Pesto. Nos primeiros dias, a gente não tinha nada: não tinha nem bola, meião, camisa, calção...", rememorou.
"Os primeiros jogadores começaram a chegar para os treinos e não éramos nem 10, acho que a gente estava no máximo em sete, porque estavam ainda começando as contratações para a Serie C1. Fizemos uma vaquinha junto com o treinador e o preparador físico para comprar bolas e uniformes para treinar. Começamos a organizar tudo e aí que a equipe foi tomando forma", salientou.
As compras, aliás, foram feitas da maneira mais "rústica" possível.
"A gente entrou em uma loja estilo 'tudo por R$ 1', que era de uns chineses. Compramos meião e camisetas normais, nem tinham escudo de clube ou marca. Depois, compramos umas bolas na feira, daquelas com gomos pretos e brancos, sem nada escrito. Era uma situação muito simples, mesmo", contou.
De acordo com Robson, Aurelio De Laurentiis, que comprou o Napoli e salvou o time da falência, também teve que "se virar nos 30" para ajeitar tudo antes do início da temporada.
"O presidente fez o processo de compra do clube, mas ainda não tinha se preparado para as demais coisas, como patrocínios, etc. Na segunda semana de pré-temporada, ele veio nos visitar. Se apresentou, cumprimentou todos os jogadores um por um e falou sobre quais eram as intenções dele", revelou.
"Eu vinha da Serie A italiana para a 3ª divisão. Ficava me perguntando: 'Como vim parar num time sem patrocínio, sem meião, calção, camiseta, bola...?'. Os primeiros sete jogadores aceitaram, mas você chega, se depara com a realidade e pensa: 'Eu errei'. Por isso, foi muito importante ele se pronunciar na frente desses sete jogadores", comentou.
"Imagina se esse grupo chega, vê aquela situação e resolve todo mundo ir embora? Ia ser um escândalo na imprensa e nenhum outro jogador ia aceitar jogar no Napoli. A presença do presidente foi para mostrar que ele ia realmente assumir e ser responsável pessoalmente pelo projeto. Depois disso, a gente deu um suspiro de alívio", exaltou.
"Hoje o Napoli colhe os frutos desse projeto"
A volta do Napoli às glórias foi dura e tortuosa.
Na temporada 2005/06 da Serie C1, o clube foi abraçado por sua torcida, que lotou o estádio em praticamente todas as partidas, e foi campeão do grupo B com 13 pontos de vantagem sobre o Frosinone, conseguindo o acesso para a Segundona.
Já em 2006/07, Aurelio De Laurentiis conseguiu recuperar o nome tradicional da agremiação (Società Sportiva Calcio Napoli) na Justiça e viu os celestes ficarem em 2º lugar na Serie B, atrás apenas da Juventus (que havia sido rebaixada no escândao Calciopoli). Com isso, veio o retorno à elite italiana.
A partir de 2007/08, então, os Partenopei foram aos poucos se fixando novamente na 1ª divisão, subindo degrau a degrau até se firmarem novamente como uma potência nacional. Cada novo sucesso era comemorado: primeiro, a manutenção de divisão; depois, a classificação à Europa League; em seguida, o retorno à Champions League; um 3º lugar; o vice-campeonato... Até chegar a temporada 2022/23.
Com o Napoli praticamente dono do 3º Scudetto, 33 anos depois do time que fez história com Careca e Maradona, Robson Toledo diz que a equipe hoje colhe os frutos plantados lá atrás.
"Depois daquela conversa com o presidente, lá em 2004, a gente viu que tinha feito a escolha certa. Esse projeto iniciado lá atrás hoje a gente vê os frutos sendo colhidos. Tudo começou com um sacrifício enorme de todos lá na 3ª divisão", ressaltou.
"A gente viu que o plano para o Napoli era ambicioso, porque o presidente contratou o Pierpaolo Marino para ser o diretor. Ele sempre esteve em grandes clubes na Itália, e, quando trabalhou em equipes menores, conseguiu levá-las ao topo. O nome dele em si já era algo grande. Tanto é que a maioria dos caras que ele trouxe eram de times grandes: eu vim da Udinese, o (Ignazio) Abate veio do Milan, o Fabio (Gatti) veio do Perugia... Todos estavam acima da 3ª divisão", relatou.
"Mas, para mim, isso não era um 'rebaixamento' na carreira. Era imenso estar num time da história do Napoli. Aquela reconstrução era algo do qual todos queriam fazer parte. O presidente Aurelio é uma pessoa muito ambiciosa e preparada para o mundo do futebol. É só ver os resultados que tem hoje. Ele programa muito bem as coisas e é muito sério. Antes de tomar qualquer decisão ou fazer qualquer contratação, se informa muito. Por isso, o resultado é excelente", argumentou.
"A cidade foi ao delírio"
Robson também jamais conseguiu esquecer o calor dos torcedores napolitanos.
"A torcida do Napoli é aquele jogador a mais em campo. São muito calorosos. Aqui na Itália poucas torcidas são assim, dá para contar nos dedos. A torcida do Napoli é parecida com algumas do Brasil. Na cidade, as pessoas te abraçam e te cumprimentam", lembrou.
"Eu acordava de manhã cedo com a campainha tocando e ir atender a porta. Quando abrir, tinha uma caixa de frutas de presente na minha porta. Esse é o carinho deles, para você ver como eles são. Recebia presentes direto. Andar pela rua era quase impossível, pois o pessoal parava para conversar, perguntavam sobre tudo, pediam autógrafo. Era algo novo para mim. Assustei um pouco no começo, mas depois me acostumei", salientou.
O brasileiro também lembra até hoje a festa feita na estreia na Serie C1, que marcou o início da reconstrução do time.
"Nossa estreia na 3ª divisão foi em casa, contra o Citadella. O estádio, que na época ainda se chamava San Paolo, estava cheio de gente. A festa já começou lá fora, antes do jogo. No trajeto do hotel está o estádio, tinha mais gente na rua do que na arquibancada. A cidade estava em delírio com aquilo tudo, porque fazia pouco tempo da falêcia. Mas, com a chegada do novo presidente, estavam todos felizes. Estava nascendo uma nova era", disse.
"Nessa estreia, tinha quase 52 mil pessoas no San Paolo. Isso de maneira oficial, porque tinha muito mais gente que entrou sem ingresso, pois abriram os portões. Além de tudo, eu fiz um gol. Aí foi uma emoção única, um sonho que virou realidade", festejou.
Robson acabou ficando pouco tempo no Napoli, deixando a equipe e indo para o Ascoli por problemas com o técnico Gian Piero Ventura.
No entanto, o ex-atacante guarda muito amor pelo clube do sul da Itália até hoje.
"Ainda tenho muito contato com a família De Laurentiis. Eles sabem do amor que tenho pelo Napoli. Sou corintiano de coração, mas, aqui na Itália, torço pelo Napoli. Minha filha gosta muito do time também. Quando chegar a hora de fazer a festa, vamos celebrar muito", finalizou.
Onde assistir a Napoli x Salernitana?
Napoli x Salernitana, neste domingo (30), às 10h (de Brasília), pelo Campeonato Italiano, tem transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.
