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Campeão brasileiro pelo Corinthians conta como montou 'Super-Lyon' que ganhou tudo e revela único craque que não conseguiu levar

Marcelo Djian, multicampeão pelo Corinthians, é ídolo do Lyon e ajudou na contratação de vários nomes famosos


Neste sábado, o Lyon recebe o Monaco, às 16h (de Brasília), em jogaço pela 10ª rodada do Campeonato Francês.

Hoje tentando reassumir o protagonismo na Ligue 1, o Lyon foi a força dominante do futebol local durante os anos 2000, ganhando sete títulos nacionais em sequência e sendo um dos times mais temidos da Europa.

Assista Lyon x Monaco, neste sábado, às 16h (de Brasília), com transmissão AO VIVO pela ESPN no Star+

Muito do sucesso do OL neste período se deve a um brasileiro: o ex-zagueiro Marcelo Djian, multicampeão por Corinthians e Cruzeiro e que teve uma passagem de quatro temporadas pelos Gones entre 1993 e 1997.

Quando deixou o Lyon para retornar ao Brasil e atuar pela Raposa, Djian passou a atuar também como observador do clube na América do Sul, indicando bons atletas para reforçar o clube francês.

Com os nomes recomendados por Marcelo ao longo das temporadas, o OL deixou de ser uma equipe mediana e sem aspirações para se tornar o "bicho-papão" do futebol local, enfileirando taças e batendo de frente com gigantes europeus na Champions League.

"Quando eu fui para lá, o Lyon não era um grande da França, era mediano. Eu fui com a intenção de me dar bem na Europa e com a mentalidade de vencer, mesmo com as dificuldades que a equipe tinha na época", lembrou o ex-defensor, em entrevista ao ESPN.com.br.

"Em 1997, meu contrato terminou e o presidente me chamou para conversar. Ele me disse: 'Gostamos muito da sua maneira e do seu profissionalismo. Temos a ideia de ter um representante na América do Sul, e queríamos saber se você podia assumir'. Eu falei: 'Tudo bem, mas não vou me aposentar do futebol agora (risos)'", recordou.

"Ele garantiu que tudo bem e que eu só precisava enviar relatórios de jogadores a cada três meses. Eu aceitei, mas não achei que as coisas fossem escalar da forma que foi, porque alguns anos depois eles passaram a ter um poder de investimento muito grande", admitiu.

O dinheiro veio quando o magnata Jérôme Seydoux, dono de um império do cinema na França (e pai da atriz Léa Seydoux), passou a injetar dinheiro no Lyon, o que fez a equipe sair atrás dos jogadores indicados por Marcelo Djian.

"Na virada de 1999 para 2000, entrou como sócio no clube o Jérôme Seydoux, que era dono de produtora de filmes e de redes de cinema na França. A primeira contratação que ele fez já foi bombástica: o Sonny Anderson, que já tinha se destacado no Monaco e estava no Barcelona. Na época, foi um negócio gigantesco, cerca de US$ 18 milhões", rememorou.

"E deu certo logo de cara! Já na temporada 1999/00, o Lyon terminou em 3º lugar, classificou para a Champions e o Sonny foi o artilheiro do Campeonato Francês (23 gols)", relatou Djian, com memória afiada.

Com o ataque funcionando, a diretoria do Lyon então decidiu reforçar a defesa. Para isso, contou mais uma vez com a ajuda de Marcelo.

"Nisso, o Bernard (Lacombe, então técnico do clube) pediu nomes de zagueiros para mim. Eu indiquei o Lúcio, que estava no Internacional, o Edmílson, que estava no São Paulo, o Cris, que era meu companheiro no Cruzeiro, e mais um nome. Ele veio ao Brasil assistir aos jogos dele e acabou que contrataram o Edmílson", contou.

"Em seguida, eu indiquei o Cláudio Caçapa, que estava muito bem no Atlético-MG. Ele foi para o Lyon em 2000/01, com opção de compra, e foi comprado na temporada seguinte. Na sequência, indiquei também o Juninho Pernambucano, que virou o maior ídolo da história do clube. Em uma ano, foram três nomes que eu recomendei e que fizeram muito sucesso", exaltou Djian.

"Todos os jogadores que eu indicava o Lacombe olhava vídeos e depois vinha ao Brasil para ver jogos in loco. O único que ele não viu foi o Juninho, porque eu disse: 'Pode contratar de olho fechado, porque ele tem cabeça boa e vai dar certo', e ele me respondeu: 'Esse só pelo vídeo já deu para ver que é bom mesmo'", revelou.

'Cafu foi o único que não consegui'

Com um índice de acerto altíssimo, Marcelo Djian ganhou cada vez mais confiança com a diretoria do Lyon.

Durante toda a década de 2000, ele ainda recomendou vários outros brasileiros para o OL, com a maioria tendo grande sucesso na França.

"Depois que o Edmílson foi negociado com o Barcelona, eu indiquei o Cris para o lugar dele, também deu muito certo. E quando o (atacante) Elber machucou, foi o Nilmar também por indicação minha. Acabou que ele não teve tantas chances lá e, como no ano seguinte teria a Copa do Mundo de 2006, ele voltou emprestado ao Corinthians em 2005, sendo campeão brasileiro naquele time do Tevez", rememorou.

Uma das melhores histórias de transferências com dedo de Djian envolveu o atacante Fred, que havia despontado como grande goleador em América-MG e Cruzeiro.

"Quando eu indiquei o Fred para lá, ele tinha 44 gols em 44 jogos pelo Cruzeiro. O treinador da época era o Gérard Houllier, que me ligou falando que tinha ouvido coisas sobre o Fred e me pediu mais informações. Eu disse que o Fred não era um cara rápido como se joga na França, como era o Sonny Anderson, mas que sabia fazer gols", relatou.

"Ele me disse: 'Marcelo, isso não é problema. Hoje a gente domina todos os times da França. Precisamos só de alguém que empurre a bola para dentro'. Eu ri e respondi: 'Então ele é o cara'. Acabou que o Fred se deu muito bem e foi para a Copa do Mundo em 2006, mas o Nilmar infelizmente não conseguiu", recordou.

A única lamentação que Marcelo Djian tem desse período é não ter conseguido "colocar" o lateral-direito Cafu no Lyon.

À época, o futuro pentacampeão do mundo com a seleção estava destruindo com a camisa do Palmeiras e despertava a atenção de vários clubes do mundo. No fim das contas, ele acabou indo jogar no futebol italiano, que era um dos mais fortes do mundo no final da década de 90.

"O único que tentei levar para o Lyon e não consegui foi o Cafu. A Roma ofereceu praticamente a mesma coisa, mas venceu a disputa", contou.

Após a era de domínio do OL na França, os Gones foram aos poucos perdendo a vontade de ter brasileiros, já que sentiram que os preços ficaram muito altos.

"Os últimos que ajudei a levar para lá foram o zagueiro Anderson, ex-Corinthians, e o Fábio Santos, ex-volante do Cruzeiro. Depois de 2010, porém, o presidente me falou que o mercado estava inflacionado. Nos últimos anos, o Lyon contratou bem menos brasileiros daqui, porque achou que os preços dos atletas que estavam saindo direto daqui muito altos. Continuei dando nomes para eles, mas não teve tantas contratações", observou.

'Drogba quase foi do Lyon'

Além do Brasil, o Lyon adquirou vários bons jogadores garimpando outro mercado: a África.

"O Bernard Lacombe tinha um olho fantástico para jogadores africanos e também para atletas que origem africana que haviam nascido na França, como Essien, Diarra, Malouda, Abidal, Wiltord. Ele levou muitos para as categorias de base do Lyon, que viraram uma potência e passaram a revelar muitos bons jogadores", exaltou Marcelo Djian.

O ex-zagueiro do Corinthians revela, aliás, que, nessa época, o OL quase teve um dos maiores jogadores africanos de todos os tempos: o centroavante Didier Drogba, que ainda não havia ficado famoso.

"O Lyon queria o Drogba, que estava arrebentando no Guingamp junto com o Malouda. Queriam fazer um negócio casado para trazer os dois. Não lembro exatamente o que aconteceu, mas só sei que, por algum motivo, acabaram fechando só com o Malouda. Com isso, o Drogba foi para o Olympique de Marselha", lembrou.

"Ele acabou jogando só uma temporada no Olympique, destruiu em campo e já foi vendido por 39 milhões de euros para o Chelsea. Lá, ele virou uma lenda, um dos maiores atacantes da história. Mas o Bernard Lacombe já estava de olho nele antes da fama, porque ele sempre teve essa boa visão", finalizou.