Muito tempo antes da bilionária "era Roman Abramovich", o zagueiro Emerson Thomé foi o primeiro brasileiro na história a vestir a camisa do Chelsea, que enfrentará o Manchester City na final da Champions League, neste sábado.
Pouco conhecido no Brasil, o defensor jogou uma temporada no clube londrino, que tinha diversos jogadores conhecidos, mas ainda lutava para conquistar um título de expressão.
Nascido no Rio Grande do Sul, Emerson começou no futebol no São José-RS antes de chegar aos 12 anos no Internacional, onde ganhou o apelido de "Paredão".
"Um garoto muito rápido foi tentar passar por mim e dei uma trombada. Ele caiu no chão. Aí, a gurizada falava assim: 'Ele parece que bateu numa parede (risos). Daí ficou Parede e depois virou Paredão", disse em 2017, ao ESPN.com.br.
Em 1992, o zagueiro subiu aos profissionais do time colorado, mas após sofrer uma lesão no joelho e ficar quatro meses parado, perdeu espaço e transferiu-se para a Acadêmica de Coimbra, de Portugal.
O brasileiro depois passou por Tirsense, Benfica e Alverca antes de ir ao Sheffield Wednesday-ING. Ao chegar à "Terra da Rainha", ele abandonou a alcunha de Paredão.
“Eu não tinha grande paixão por esse apelido, mas o empresário que me trouxe para Portugal achou que o nome era forte. Na Inglaterra quiseram colocar meu nome na camisa como ‘The Wall’ [A Parede], mas eu não aceitei. Disse que tinham muitas paredes e que acabaria virando motivo de piada. Por isso, virei Emerson Thomé”, recordou.
Amizade com Terry
Após duas boas temporadas no Sheffield, Emerson foi contratado pelo Chelsea, em 1999, no qual permaneceu um ano. Na equipe londrina, fez amizade com o jovem John Terry.
"Quando era menino, o John não sabia fixar as caneleiras com as ataduras. Uma vez eu vi e disse que não estava bem feita. Ele me perguntou: ‘Como eu faço?' Eu mostrei para ele, que ficou muito agradecido", garantiu.
O pequeno gesto de Emerson comoveu o então desconhecido zagueiro.
"Ele disse: 'Você veio falar comigo, sou apenas um garoto que acabou de chegar ao plantel e por muitas vezes passo despercebido. Você teve a preocupação de me falar sobre isso e me ajudar. Nunca mais vou te esquecer'", recordou o zagueiro, que mantém amizade com Terry até hoje.
Parou o Barcelona
Um dos grandes momentos de Emerson foi em uma partida contra o poderoso Barcelona de Rivaldo, Kluivert e Figo nas quartas de final da Champions League 1999/00. Sua atuação no Stamford Brigde encantou o jovem José Mourinho.
Aos 28 anos, o jogador tinha feito 15 jogos com a camisa dos Blues e estava invicto. Com a ausência do titular Frank Leboeuf (campeão da Copa de 98 pela França), o defensor foi escolhido para começar o duelo ao lado de Marcel Desailly e teve atuação destacada na vitória inglesa por 3 a 1.
"Eles tinham uma linha de ataque temerária, de excelência. Foi uma experiência única e um marco da minha carreira. Troquei camisa no fim da partida com o Rivaldo, que tinha sido o melhor jogador do mundo no ano anterior", lembrou.
O norueguês Tore André Flo (duas vezes) e o italiano Gianfranco Zola marcaram para o Chelsea, enquanto Luis Figo descontou para o Barcelona. Após esta partida, o brasileiro conversou rapidamente com José Mourinho, que era auxiliar do treinador holandês Louis van Gaal.
"No jogo de volta, o Mourinho me abordou logo que cheguei ao Camp Nou para saber se eu jogaria ou não. Eu comecei a rir e perguntei: 'Mas qual a diferença se eu jogar ou não?' Ele respondeu: 'Temos dois sistemas: um com você dentro e outro fora'. Achei muito engraçado aquilo", contou.
No jogo de volta da Champions League, Frank Leboeuf retomou o posto de titular de Emerson Thomé.
"O professor escolheu, com todo mérito, a volta dele quer tinha feito toda fase de grupos. Era um companheiro fantástico. Eu falei para ele que como líder tinha que tomar essa decisão e estava muito grato por ter jogado na ida", disse.
Preocupado com Emerson
O Barcelona eliminou o Chelsea após vencer na prorrogação por 5 a 1. Os gols do Barça foram marcados por Rivaldo (duas vezes), Figo e Kluivert. Tore André Flo descontou para os ingleses.
Após o final da partida, o brasileiro reencontrou José Mourinho e foi surpreendido.
"No final da partida eu queria saber a razão dele ter dois sistemas. Ele respondeu: 'Acharíamos muito mais difícil jogar contra um central mais duro e forte na marcação como você do que um zagueiro mais técnico'. Ele acreditou que seria mais difícil quebrar a retaguarda do Chelsea. O Leboeuf era mais técnico e de saída de bola", contou.
"Ele estava preocupado com a parte técnica e tática. Ele ele era o braço direito para o Van Gaal, tanto é que virou o treinador que é hoje. Deve ser um dos treinadores mais esclarecidos que já vi", elogiou.
O Barcelona acabou eliminado depois pelo Valencia nas semifinais da competição, e o Real Madrid sagrou-se o campeão.
Quis levar Gabriel Jesus
Depois de sair do Chelsea, Emerson ainda rodou por times da Inglaterra como Sunderland, Bolton, Wigan e Derby County até encerrar a carreira no Vissel Kobe, do Japão, em 2007.
Após pendurar as chuteiras, o brasileiro foi scout do Everton. Em 6 de abril de 2016, ele observou o jogo do Palmeiras contra o Rosário Central pela Libertadores. Gabriel Jesus, atualmente no Manchester City, arrebentou naquela noite. Balançou as redes duas vezes, acertou a trave e ainda foi expulso no empate em 3 a 3, que não evitou a eliminação na fase de grupos.
"Estive na Argentina naquele jogo entre Rosário e Palmeiras e Gabriel Jesus já dava a impressão de ser um talento nato, me chamou a atenção, tinha todas as qualidades físicas e técnicas para a Premier League, mas era caro demais", contou Thomé, que depois foi trabalhar no West Ham.
Entrevista feita originalmente em maio de 2017
