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Cruzeiro: Eduardo Brock saiu do Grêmio com promessa de ir ao Milan, mas quase virou motorista

Neste domingo, o Cruzeiro enfrenta o América-MG, às 16h (de Brasília), na Arena Independência, pela 5ª rodada do Campeonato Mineiro. Para conseguir um bom resultado na casa do rivar e se aproximar dos líderes, a Raposa conta com o zagueiro Eduardo Brock, recém-contratado do Ceará e novo títular e xerife da zaga celeste.

Hoje novamente tendo a chance de mostrar seu futebol em um dos grandes do futebol brasileiro, Brock nasceu em Arroio do Meio-RS e iniciou sua carreira nas categorias de base do Grêmio, no final dos anos 2000.

Em entrevista ao ESPN.com.br, ele relembrou sua passagem pelo Imortal.

"Fui para o Grêmio aos 9 anos de idade. Aos 14, decidi que não ia mais tentar jogar futebol profissional e fui aproveitar a vida. Voltei pra casa, mas aí fui jogar na escolinha do (ex-zagueiro) Mauro Galvão. Disputamos um torneio e caímos para o Grêmio na semifinal, mas atuei muito bem. Voltei ao Grêmio com contrato profissional depois disso", lembrou.

"Joguei na base no mesmo time do Douglas Costa, que resolvia os jogos sozinhos para a gente (risos). Ganhamos a Copa Santiago e chamamos muito a atenção do time profissional", recordou.

Mesmo sem ainda ter sido puxado para o clube adulto, Eduardo Brock começou a impressionar quem o observava. Com isso, a diretoria tricolor se movimentou e procurou o estafe do zagueiro para propor um longo contrato em Porto Alegre.

No entanto, uma possibilidade de atuar no Milan surgiu ao mesmo tempo, deixando Brock sem saber o que fazer.

Por fim, sua decisão acabaria tendo consequências inesperadas em sua vida.

"Em 2011, eu era capitão do time campeão brasileiro sub-20 já tinha feito partidas pela equipe B do Grêmio. Recebi uma oferta de cinco anos de contrato com o Grêmio, mas também havia uma outra situação, de ir para Itália. Um empresário italiano veio conversar com meus pais para eu não renovar contrato e teria um clube já certo na Europa, que seria o Milan", relatou.

"Se eu aceitasse essa proposta, o Milan me emprestaria para outro clube para pegar bagagem antes de retornar. Eles iam providenciar a cidadania italiana e, no dia 7 de janeiro, eu estaria na Europa. Seria a mesma situação do Rodrigo Ely, que fez a mesma trajetória um ano antes de mim. Ele era da cidade vizinha à minha", seguiu.

"O treinador do Grêmio à época, o Cristian de Souza, me aconselhou: 'Brock, não é assim. As coisas de empresário precisa ver bem. Você tem chance de vários anos de contrato com o Grêmio'. Foi uma decisão bem difícil e por três dias chorei sem saber o que fazer. Era uma incógnita completa. O Grêmio me pressionava para renovar e não deixava treinar. Mas optei por não renovar em dezembro", seguiu.

"Só que aí, no dia 7 de janeiro, nada aconteceu. Em fevereiro, me disseram que estava difícil para tirar a cidadania italiana. Em março, o empresário me disse: 'Não saiu a sua cidadania e não estamos conseguindo te empregar dentro do Brasil. Fique à vontade para procurar outro empresário'", rememorou.

QUASE VIROU MOTORISTA

Sem clube após recusar a renovação com o Grêmio e vendo a possível situação com o Milan naufragar, Brock partiu para o all in na tentativa de retomar a carreira.

"Não tinha o que fazer e comecei a conversar com outros agentes. Chegou uma proposta para ganhar 3 mil euros por mês na Romênia e eu fui. Mas, em três meses, recebi 500 euros!", reclamou.

"Fizemos a pré-temporada no Targu Mures e joguei certinho, no mesmo time que o Celsinho, ex-Portuguesa. Mas precisava de uma liberação do Grêmio do valor dos direitos de formação, e o Grêmio não quis abrir mão dos direitos. O clube não pode me regularizar e pagar os US$ 100 mil e pouco. Não pude ficar, passei pelo Dínamo Bucareste e fiz teste. Estava tudo certo e ia fazer exames médicos, mas os empresários disseram que não iriam negociar com os romenos", contou.

"Em seguida, fui para a Bélgica, porque iria ficar num time da 1ª divisão chamado Mons, do amigo do meu empresário. Fiz alguns treinos e fui bem num amistoso contra o Lille. Falaram para levar as minhas coisas para assinar contrato. Fui com o representante para a reunião com o treinador, mas eles queriam que eu rescindisse com o meu empresário para pagar o valor. Eu sou muito honesto e coerente, disse que não faria isso com meu empresário e não assinei contrato. Eles não iam em contratar se não assinasse com um empresário de lá", revelou.

Entre essas idas e vindas, Brock passou praticamente um ano sem conseguir assinar contrato com nenhum clube - ou seja, um ano sem receber salário.

"Fiquei um ano desempregado. Fui do céu ao inferno. Voltei ao Brasil no fim de 2011. Esses meses foram financeiramente horríveis e profissionalmente muito ruins, mas amadureci muito como pessoa. Foi um fator positivo que passei. Voltei para casa depois de um ano todo desempregado", salientou.

Nessa época, o defensor teve que tomar outra decisão importante: seguir carreira como jogador ou tentar a vida com um emprego "comum".

"Voltei ao Brasil e fui para o Canoas, que jogava a 1ª divisão do Gaúcho. Eu ia ganhar uns R$ 2 mil por mês, mas aí recebi uma oferta de emprego como motorista para ganhar uns R$ 5 mil. Pensei em desistir do futebol naquela época, porque eu só teria quatro meses de contrato no Canoas", admitiu

"Mas persisti no futebol e daí para frente as coisas engrenaram. Roí bastante osso, mas as coisas aconteceram depois da melhor forma. Sou muito agradecido por não ter desistido. O futebol é muito da persistência e da resiliência. Muitos jogadores bons ficam pelo meio do caminho", observou.

"Quando você joga na base de um time grande e precisa sair, você encontra a verdadeira realidade no futebol do interior. Você sai da 'bolha' onde tem tudo do bom e do melhor. Aí vem o baque para muitos jogadores. Essa é uma das grandes virtudes da minha carreira: ter persistência e resiliência. Fui coroado. Algumas pessoas acham que é fácil, mas é cada perrengue...", explicou.

A TRAJETÓRIA ATÉ O CRUZEIRO

Após a passagem pelo Canoas, Eduardo Brock engrenou boas passagens por Aymoré e Novo Hamburgo antes de chegar ao Juventude.

Depois da passagem pelo clube de Caxias do Sul, sua carreira no futebol entrou nos trilhos de vez.

"Conheci a realidade dos clubes do interior gaúcho e fui subindo de patamar. No Juventude, fui vice-campeão do Gaúcho. Depois, no Brasil de Pelotas, conseguimos acessos para as Séries C e B. Fiz uma boa Série B em 2016 e aí fui negociado com o Paraná. Daí pra frente, minha carreira deu uma guinada boa", contou.

"No Paraná, conseguimos o acesso para a Série A depois de 10 anos e eu fui em seguida para o Goiás, que queria subir de divisão também. Eles fizeram uma proposta irrecusável. Começamos o ano bem, fomos campeões do Goiano e tivemos uma participação ótima na Copa do Brasil, mas infelizmente não iniciamos bem a Série B e ficou difícil subir", relatou.

A próxima aventura seria no Ceará, onde ele se destacaria e chamaria a atenção do mercado nacional.

"Recebi a oferta para jogar a Série A de 2018 com o Ceará, que era comandado pelo Lisca, e conseguimos escapar do rebaixamento com uma reação espetacular. Foi praticamente um título! No fim do ano, optei por permanecer no Ceará até o começo de 2021", lembrou.

"Nesse período que defendi o Vozão, ganhamos a Copa do Nordeste, permanecemos na Série A e nos classificamos para a Copa Sul-Americana. O Ceará é um grande clube, que está muito bem organizado e é conduzido com profissionalismo. Só tenho elogios a fazer", comentou.

Na virada de 2020 para 2021, porém, Brock perdeu espaço na equipe alvinegra e sentiu que era hora de uma mudança de ares.

A ida para o Cruzeiro foi conduzida por um amigo que fez em Fortaleza...

"Eu não tinha jogando muito no Ceará e não queria ficar acomodado no banco. Então, o Rafael Sóbis, de quem fiquei amigo no Ceará e foi para o Cruzeiro, conversou comigo sobre isso. Ele disse que seria muito bom eu ir para o Cruzeiro. Quando a diretoria mostrou interesse em mim, não pensei duas vezes em aceitar. É um clube gigante, e você vê isso nas condições de trabalho oferecidas e na estrutura", exaltou.

"Jogar pelo Cruzeiro é uma oportunidade gigante pata a minha carreira. O (técnico) Felipe Conceição é muito promissor e inteligente, gosta de posse de bola e de jogar para frente. E eu mesmo acho que é mais fácil jogar com a bola no pé do que de forma reativa", ressaltou.

Titular nas últimas duas partidas da Raposa, Brock aposta na força do elenco para recolocar o clube mineiro na Série A.

"Temos uma mescla de jogadores mais velhos com jovens que desejam evoluir e recolocar o Cruzeiro na elite. A Série B é um campeonato de jogos mais disputados e é muito difícil de jogar, mas temos tudo para fazer um grande ano. Sabemos que existe uma pressão enorme para voltarmos à Série A, mas precisamos ter paciência", pediu.

Sobre o confronto contra o América-MG, neste domingo, Eduardo destacou seu reencontro com o técnico Lisca, que o comandou em vários clubes.

"Eu trabalhei com o Lisca em Novo Hamburgo, Juventude, Paraná e Ceará. Ele é um grande treinador e os trabalhos dele são muito bons. Tivemos muito tempo de convivência e pude aprender muito. Sabemos a dificuldade que vamos enfrentar contra o América, porque ele arma os times de uma forma muito interessante. Vai ser um grande jogo porque são duas equipes fortes. O América vem de um acesso (para a Série A do Brasileiro) e nós estamos nos encaixando", finalizou.