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Corinthians: Paulo Roberto conta como desabafo de Neto ajudou no Brasileiro-2017: 'Deu o alerta'

Em 29 de outubro de 2017, o Corinthians perdeu por 1 a 0 para a Ponte Preta e começou a ver o rival Palmeiras se aproximar de maneira perigosa na luta pelo título do Campeonato Brasileiro.

No dia seguinte, o Brasil parou na hora do almoço depois que José Ferreira Neto, apresentador da TV Bandeirantes, desabafou de forma cômica no programa "Os donos da bola".

Aos berros, Neto chamou os jogadores de "zé ruelas", "mascarados" e "orelhudos", detonou o técnico Fábio Carille e exigiu reação imediata do time, já que estava sendo motivo de chacota até mesmo do porteiro da Band.

As reclamações do "Craque" viralizaram nas redes sociais e se tornaram pauta de discussão nos principais programas esportivos. Todos queriam saber como os atletas do Timão reagiriam depois de ouvirem a fúria de Neto, ainda mais sabendo que o próximo duelo seria decisivo na briga pela taça: um dérbi contra o Palmeiras, na Neo Química Arena.

Segundo quem fez parte da conquista corintiana, o desabafo foi, sim, decisivo na conquista do título nacional.

É o que conta o ex-volante Paulo Roberto, que fez parte do plantel alvinegro naquele ano e atualmente está disputando o Campeonato Paulista pelo Santo André, aos 34 anos.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o meio-campista revelou como as palavras de Neto afetaram o elenco do Timão e serviram de "alerta".

"O Neto xingou pra caramba naquele dia (risos). Ele é corintiano, e nós escutamos tudo de alguém que torce para a gente e tem voz ativa para o Brasil inteiro, porque é um programa que todo mundo vê. Isso acabou sendo mais um incentivo para a gente", relatou.

"O Carille acabou não usando isso na preleção, mas os jogadores que acompanham os programas esportivos guardaram... A gente conversava muito sobre isso no vestiário, e serviu de incentivo para a gente", relembrou.

Segundo Paulo Roberto, muitos atletas não gostaram do tom forte usado por Neto nas cobranças, mas acabaram entendendo sua insatisfação, já que, àquela altura, o Corinthians vinha de quatro jogos sem vencer (com três derrotas no período) e viu sua enorme vantagem na ponta diminuir com a arrancada do Palmeiras.

"A gente ficou um pouco nervoso com ele na época, sim, porque não tínhamos culpa. O Brasileiro é um campeonato muito longo, é claro que uma hora a gente ia oscilar e ter uma queda. Só que nós sabíamos que o time era muito ciente do que precisava ser feito", exaltou.

"(O desabafo) Não abalou a gente. Sabíamos que a resposta seria dada dentro de campo. Acho que ele não precisava ter falado daquela forma, pegou um pouco pesado... Mas, querendo ou não, a gente ganhou um ânimo com isso. De toda forma, serviu para dar um alerta também", reconheceu.

"Nosso vestiário naquela época não era tanto de brincadeira, era um pouco mais sério. Tanto é que essa história do Neto não virou tanta zoeira depois. Quando a gente ganhou o título, até meio que esquecemos disso", complementou.

Após a bronca de Neto, o Corinthians bateu o Palmeiras por 3 a 2, pela 32ª rodada, e depois emplacou uma boa série de vitórias seguidas, garantindo mais um título do Brasileirão.

'A 4ª FORÇA'

Paulo Roberto também conta que a conquista do Brasileiro começou a ser desenhada ainda durante o Campeonato Paulista de 2017.

Naquele ano, o Timão foi chamado de "4ª força" de São Paulo, já que era apontado como azarão no Estadual.

De acordo com o volante, o técnico Fábio Carille soube usar isso muito bem para montar um time que cumpria rigidamente suas táticas, o que levou a duas conquistas na temporada.

"A gente começou aquele Paulistão sendo chamado de '4ª força', e isso nos incentivou demais. Muitas falavam até que a Ponte Preta era melhor que o Corinthians. Mas já nos primeiros treinos do ano deu para ver que iríamos conseguir coisas grandes", contou.

"Nosso time começou meio devagar no Paulista, mas a gente sabia que era questão de tempo até encaixar. Os treinos do Carille na questão tática e de posicionamento eram perfeitos. Só precisávamos entender tudo e colocar em prática. E foi isso que fizemos", acrescentou.

Na reta final do Estadual, o Corinthians eliminou Botafogo-SP e São Paulo, e ganhou da Ponte Preta com autoridade na grande final.

'SÓ NÃO JOGO DE GOLEIRO'

Paulo Roberto foi contratado pelo Corinthians do Sport inicialmente para ser mais uma opção no meio-campo para Fábio Carille.

No entanto, ele surpreendeu ao ter atuações bastante seguras improvisado como lateral-direito, já que, em várias ocasiões, Fagner, titular da posição, desfalcou o Timão para defender a seleção brasileira.

"Joguei algumas partidas como o lateral, porque o Fagner foi chamado para a seleção e depois teve uma lesão. No começo eu estava com um pé atrás, porque nunca tinha atuado nessa função, mas o Carille pediu... Aí eu respondi que só não jogava de goleiro, né (risos)?", brincou.

Sua partida mais marcante foi na vitória por 1 a 0 sobre o Grêmio, em Porto Alegre, na qual Paulo Roberto "comeu a bola" contra a equipe que naquele mesmo ano seria campeã da Libertadores.

"Todo mundo sempre elogiou meu jogo contra o Grêmio. Acredite se quiser, até hoje eu recebo mensagens falando daquela partida!", contou o meio-campista, que, em seu íntimo, guarda mais carinho por outro duelo.

"Para mim, o momento mais especial foram as finais contra a Ponte no Paulista de 2017. Até ali, eu tinha atuado pouco, mas tive a oportunidade de jogar nas duas partidas finais. Ganhar um título em campo é bem mais especial", ressaltou.

"Eu vinha muito desacreditado por parte da torcida quando cheguei ao Corinthians. Fui criticado antes mesmo de pisar em campo. Mas, no decorrer do campeonato, o pensamento das pessoas foi mudando, e eu cheguei bem tranquilo nas finais. Atuei bem e fomos campeões com sobras", exaltou.

SAÍDA DO CORINTHIANS E SEQUÊNCIA

Após o ano de êxitos em 2017, Paulo Roberto renovou contrato por mais dois anos com o Alvinegro.

No entanto, uma contusão na pré-temporada de 2018 acabou minando suas chances de jogar mais no Parque São Jorge.

"Renovei contrato por duas temporadas e me dediquei muito para começar 2018 bem. Quando a gente estava para viajar para a Florida Cup, sofrei uma lesão na coxa e infelizmente fiquei de fora. Fiquei muito tempo sem jogar e, quando consegui voltar, foi atuando improvisado na lateral, pois o Fagner não estava", relembrou.

"Aí o Carille saiu (para o Al-Wehda, da Arábia Saudita) e entrou o (Osmar) Loss, que me deu chances. Só que aí veio o Jair Ventura e eu voltei para a lateral. Em todas as oportunidades que estive em campo com a camisa do Corinthians, acredito que dei a resposta", opinou.

"Muita gente me pergunta até hoje por que eu não tive tantas chances no Corinthians, mas foram coisas que aconteceram... Eu tive a lesão, e, no meio-campo, o Maycon e o Gabriel estavam muito bem. Não tenho nada para falar ruim do Corinthians, pois só tenho boas recordações de lá e fui campeão", complementou.

Após entrar em campo apenas nove vezes em 2018, Paulo Roberto decidiu respirar novos ares na temporada seguinte.

"Estava de férias e meu empresário me perguntou se eu ia querer ficar no Corinthians, pois estava difícil brigar por vaga. Então, o Rogério Ceni me ligou e perguntou se eu queria ir para o Fortaleza. Eu estava procurando algo fora do Brasil, mas decidi ir para o Fortaleza e foi ótimo. Fomos campeões do Cearense e da Copa do Nordeste. Meu 1º semestre foi ótimo", lembrou.

"Infelizmente, no 2º semestre, eu tive uma fratura no pé e pedi o restante da temporada quase inteiro. Quando acabou o ano, fiquei sem clube", lamentou.

Em 2020, o Mirassol abriu as portas para Paulo Roberto treinar e ele acabou sendo contratado pelo time do interior paulista. No entanto, ainda com dores no pé, pouco conseguiu atuar.

Agora plenamente recuperado, o meio-campista acertou com o Santo André para a disputa do Paulistão e não poderia estar mais feliz.

"Eu conhecia o Santo André de jogar contra. Estava treinando em casa e já estava há sete meses sem jogar. O Ramalhão apareceu e abriu as portas para mim, mesmo sabendo que eu estava parado. Agora, estou correndo atrás de recuperar o tempo perdido", admitiu.

"Começamos fazendo um bom campeonato e sabemos que temos que melhorar. Mas estou muito feliz em sentir novamente o gosto de jogar, o frio na barriga, até das concentrações (risos). Nosso grupo é ótimo, tem vários jogadores de qualidade. Quero sempre estar jogando, mas procuro melhorar todos os dias. Estou fisicamente bem e o professor tem me colocado para atuar. Agora, preciso seguir trabalhando forte para estar sempre em campo", finalizou.