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Da base do River ao gol mais importante da história do modesto Güemes: conheça Francisco de Souza, o brasileiro 'andarilho' que fez história na Argentina

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"Estive em Salta, em Corrientes, em Formosa, em Misiones. Tive o prazer de andar por esse país quase todo". Ao todo, três cidades, uma província, milhares de quilômetros percorridos e um sonho: ser jogador de futebol profissional. Essa jornada de superação foi trilhada pelo brasileiro Francisco de Souza. Há mais de 10 anos, o meia deixou o interior da Paraíba para ir em busca da sua maior ambição. Os frutos foram colhidos ao longo de cada passo na Argentina. Mas, o maior deles foi conquistado recentemente.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o meia-atacante de 29 anos, autor do gol de pênalti que deu o título ao Güemes na Federal A (terceira divisão) e colocou o clube na Primera B Nacional (segunda divisão), contou detalhadamento o caminho que percorreu no futebol, desde o início na base até o recente sucesso no modesto clube de General Güemes, da cidade de Santiago del Estero.

Começo na Paraíba e chegada ao River Plate

Francisco desfrutava de um sonho comum a milhões de brasileiros: ser jogador de futebol. E da mesma dificuldade de boa parte deles: sair de um cenário adverso e conseguir chegar ao objetivo.

Do interior da Paraíba, o meia fez um caminho ainda mais inusitado e que, normalmente, ocorre de forma inversa. Aos 16 anos, deixou a cidade de Diamante e rumou até a Argentina. Por lá, um teste no nada mais, nada menos, poderoso River Plate.

"Comecei minha carreira na Paraíba, em Diamente, em um clube que se chama Cruzeiro. Joguei toda a categoria de base. Joguei um ano no profissional lá, um ano no Campeonato Paraibano. Aí veio a possibilidade de fazer o teste no River Plate nas categorias de base. Passei nos testes, fiz dois treinos. Já no segundo treino eles disseram para eu ficar. Fiquei dois anos nas categorias de base do River".

"No River, tive oportunidade de jogar com jogadores que estão na Europa, como é o caso do Ramiro Funes Mori, zagueiro, que também jogou pela seleção argentina. Também tem o irmão dele, o Rogelio Funes Mori, atacante. Teve o Mauro Díaz, o Tucu Pereyra, que jogou na Juventus. Teve o Germán Pezzella, que hoje está na Fiorentina. Graças a Deus, tive muitos companheiros que até hoje tenho contato", completou.

Sobre os detalhes da 'peneira' em que passou no River, Francisco revelou que há muitas semelhanças com as que ocorrem em terras brasileiras. Muitos jovens semanalmente e poucas vagas. A diferença para ele é a 'raça inexplicável'.

"Não é fácil passar no teste em um time como o River. Vão centenas e centenas de jogadores toda semana. No Brasil, acredito que há mais jogadores de qualidade técnica. No meio, no ataque. Só que eles têm uma raça que é sem explicação. Até os meninos da base, que têm qualidade técnica, porque tem que ter para passar. Agregando à qualidade técnica, eles têm a raça argentina. Mas, a habilidade, o jogo bonito, há mais no Brasil"

Depois dos dois anos em que conviveu com uma grande estrutura e jogadores que hoje estão na Europa, Francisco se lesionou e não voltou da mesma forma. Por isso, passou a ser preterido no Millonario e rumou a outro gigante. De Núñez, foi para Avellaneda e passou um ano no Independiente.

"Depois, tive uma lesão muito dura no joelho, rompi os ligamentos cruzados, seis meses sem jogar. Daí, o treinador não teve consideração. Depois, passei um ano no Independiente. Aqui, você pode jogar nos juniores até os 21 anos. Depois, o clube tem que fazer contrato profissional. No Independiente, não fizeram contrato profissional e eu vim para o Mandiyú, do interior da Argentina"

Sufocos de um andarilho brasileiro no interior da Argentina

Depois de deixar o Independiente por não ter o contrato profissional assinado, Fracisco de Souza rumou ao Mandiyú, clube da província que leva o mesmo nome. Depois, mais seis clubes do interior da Argentina e muitas dificuldades.

"Passei muito sufoco. Fui a um clube, Juventud Antoniana, que é um clube aqui da 3ª divisão. Quando fui para esse clube, passei seis meses sem receber. Tinha acabado de ser pai. Imagina o perrengue? O cara ser pai, minha primeira filha, minha esposa, seis meses sem receber. Foi um momento muito complicado. Mas, com a ajuda de amigos, que foi uma coisa que fiz muito aqui na Argentina, que sempre estão do meu lado, pudemos passar esse momento. Com a pandemia, meu último tinha sido em março de 2020. Fiquei oito meses sem jogar. Foi bastante difícil".

No entanto, mesmo com todas as dificuldades que encontrou, o meia leva consigo o respeito e o carinho que os argentinos o trataram mesmo com toda a rivalidade que há com os brasileiros dentro dos gramados.

"Sufocos eu passei muitos. Até falo com a minha esposa que, quando eu deixar de jogar, todas as coisas que vivi na Argentina dá para escrever um livro. Imagina só um cara que saiu do interior da Paraíba, em uma cidade de seis, sete mil habitantes, chegar em uma cidade como Buenos Aires, em um clube com o River Plate, com 16 anos? Então imagina só. Estar em outro país, ainda mais como a Argentina que tem essa rivalidade do argentino com o brasileiro. Mas, sempre me trataram com muito respeito, acho que tenho isso de volta".

Mandiyú, Sportivo Italiano, Sportivo Patria, Juventud Antoniana, Sportivo Ferroviario, Crucero del Norte e Güemes. Ao todo, sete clubes e, com exceção de um, todos situados em províncias ou cidades do norte da Argentina.

"Sempre joguei em time de não tanta expressão, como é o Güemes. Tive a sorte de passar por vários clubes daqui, mas sempre da terceira divisão, sem tanta aspiração. Graças a Deus, com meus 29 anos, tive muitas oportunidades de passar por clubes aqui do norte da Argentina".

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Herói do título, gol decisivo nas penalidades e nome na história

Para chegar à segunda divisão argentina, o Güemes fez uma campanha irretocável. Ao todo, foram seis vitórias e uma derrota em sete jogos. Na fase de grupos, cinco triunfos e somente um revés. Na final, empate no tempo normal com o Villa Mitre e vitória nos pênaltis. Foi aí que brilhou a estrela do brasileiro.

Francisco de Souza foi o autor da penalidade decisiva que deu a vitória ao 'Gaucho' por 4 a 2 sobre a equipe de Bahía Blanca. Mas, o meia contou que nem era um dos batedores relacionados. Só entrou porque um companheiro 'sentiu a pressão' e não quis cobrar.

"É uma história linda. Quando terminou o jogo, o treinador perguntou quem estava com confiança para bater. Fui o primeiro a levantar a mão. Mas, tanto eu como os companheiros, todos levantaram a mão. Aí foi da decisão do treinador. Fomos para o meio de campo, veio o auxiliar para passar os nomes e meu nome não estava na lista. Só que, na hora H, o companheiro que ia bater o quarto pênalti disse que não estava com tanta confiança. Aí eu falei que ia bater, deixa comigo".

Da marca central até a do pênalti, muitos pensamentos e emoções tocaram Francisco de Souza. O brasileiro disse que pensou na família, em toda a trajetória que construiu na sua carreira e na torcida do Güemes.

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"Essa caminhada até o pênalti foi uma pressão linda. Porque pensei em muitas coisas, na minha família, em tudo que lutei, me esforcei para chegar esse momento. Pensei nos torcedores do Güemes que, fazendo o pênalti, ia dar uma alegria imensa a eles. Graças a Deus, pude bater e foi uma execução quase perfeita", completou.

Sonhos para o futuro e volta ao Brasil

Francisco de Souza colocou o Güemes na segunda divisão mas já pensa na primeira. O jogador deixou claro que planeja fazer uma grande 'segundona' para se destacar e ser observado por algum clube da Liga Profissional.

"Meu primeiro sonho foi jogar em um time profissional, depois sair campeão. Agora, meu propósito é jogar uma primeira divisão. Se tiver a possibilidade de jogar a B Nacional, terei a oportunidade de jogar a primeira. Porque aqui quando um jogador se destaca na segunda divisão, os times da primeira vêm em cima. Se Deus quiser, em 2022 poder jogar em um clube da primeira divisão".

Sobre uma possível volta ao Brasil, o meia deixou claro que sempre quis retornar ao seu país natal e já até teve uma possibilidade no passado. Mas, por questões econômicas, não se concretizou.

"Sempre quis voltar ao Brasil. Em 2015, um clube de São Paulo, o Guarani, me procurou. Tive a possibilidade, mas não deu certo por um tema familiar, econômico também. Tem que ter toda uma negociação. Na época, tinha um ano mais de contrato aqui".