Na última quinta-feira, o futebol teve uma triste notícia: o jovem meia Alex Apolinário, do Alverca-POR, faleceu no hospital.
O jogador, de apenas 24 anos, sofreu uma parada cardiorrespiratória no último domingo, durante jogo pela 3ª divisão portuguesa, e foi internado, mas teve morte cerebral constatada.
O falecimento foi muito lamentado por times de todo o país e vários jogadores, como o atacante Rony, do Palmeiras, que foi seu colega de equipe.
Dessa forma, encerra-se de maneira muito precoce a carreira de um atleta muito promissor, que foi descoberto no futebol amador e depois ganhou fama como futuro craque no Botafogo-SP que foi vice-campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior, em 2015.
Nos últimos anos, Alex passou ainda por Cruzeiro e Athletico-PR, ganhando títulos pelos dois clubes, antes de partir para sua aventura no futebol português, em 2018.
Pelo Alverca, o armador somou 44 jogos e 10 gols marcados. Ele terá sua camisa 99 aposentada, e ganhará também um memorial na sede da equipe.
Na última quinta, a ESPN conversou com várias pessoas próximas a Alex, que nasceu na pequena cidade de Luiz Antônio-SP, próxima a Ribeirão Preto-SP, e foi descoberto por um olheiro do Botafogo.
Mesmo em meio ao luto e à tristeza pela perda do amigo, elas lembraram várias passagens marcantes da vida do atleta.
VIDA E CARREIRA
Alex Sandro dos Santos Apolinário nasceu em Luiz Antônio, cidade de apenas 15 mil habitantes, cercada de canaviais, perto de Ribeirão Preto-SP e a 276 km de São Paulo-SP.
De família humilde, destacou-se desde cedo nas "peladas" do município, sendo descoberto por Antônio Salomão, o Macalé, olheiro do Botafogo de Ribeirão Preto quando tinha 16 anos.
"O Alex me chamou a atenção de cara. Acabando o jogo, já levei a documentação para o pai dele assinar! Na segunda-feira, ele já estava na base do Botafogo treinando no sub-17", lembrou Macalé.
Em Ribeirão, ele rapidamente se destacou nas categorias inferiores do Tricolor, impressionando a todos com sua canhota potente e seu estilo clássico.
"Ele era bem acima da média. Um meia-esquerda à moda antiga, clássico, canhoto, com mais de 1,80m. Ótimo nas bolas paradas e com uma técnica refinada e elegante dentro de campo. Era um Ademir da Guia canhoto, desse estilo. Fazia o jogo fluir, com uma visão de jogo extraordinária", exaltou o olheiro.
Ao mesmo tempo, porém, Alex também era conhecido por ser um garoto-problema. Filho de um lar desestruturado, nunca foi bom aluno e gostava de dar "escapadas" para curtir baladas. Frequentemente também abusava do álcool.
"O Alex mesmo admitiu várias vezes que teve problemas de comportamento na base, quando ia para a cidade dele curtir a vida... Tinha problemas com bebida e balada", recordou Juninho Fonseca, ex-zagueiro da seleção brasileira, que foi coordenador da base do Botafogo.
"Essas sumidas que ele dava eram em função disso. Os jogos acabavam cedo e ficávamos na dúvida se ele voltaria ao clube...", completou.
O atacante Wesley Pionteck, ex-companheiro de equipe do meio-campista, confirmou que os estudos nunca foram prioridade do amigo.
"Estudamos juntos em 2014 e 2015. Não gostávamos de ir para escola. A pedagoga, a psicóloga e a assistente social pegavam no nosso pé", contou.
Quem fez Alex estourar de vez em Ribeirão Preto foi o técnico Rodrigo Fonseca, que o chamou para uma conversa particular e colocou os pingos nos is.
"A gente conversou com ele em particular e disse para fazer as coisas que estava pedindo no momento, porque iria recuperar a condição dele. Falei que ele era um craque e pedi para ficar motivado, pois tinha potencial e precisava trabalhar. Ele tinha o sonho de ir para o profissional e ir para um time grande", relatou.
Macalé também teve que entrar em cena para colocar o jogador de volta nos trilhos com uma forte bronca.
"Uma hora eu dei um basta: 'Seu futuro está aqui na sua frente. Depende de você escolher o seu caminho. Você quer cortar cana ou quer ser jogador de futebol?'. Admito que fui até meio grosseiro com ele... Mas funcionou", contou.
Nas mãos de Fonseca, o armador explodiu: destruiu na campanha do título dos Jogos Abertos do Interior de 2014, nos quais o Botafogo representou Ribeirão Preto, e depois foi o grande destaque da campanha do vice na Copinha de 2015.
Naquele torneio, Alex "gastou a bola" e ajudou o Tricolor a eliminar vários gigantes em série: Botafogo, Fluminense, Grêmio e Palmeiras (que tinha inclusive Gabriel Jesus). Na final, foi eleito o melhor em campo, mas não conseguiu evitar a derrota por 1 a 0 para o também forte time do Corinthians.
Depois daquela Copa São Paulo, o atleta foi negociado com o Cruzeiro.
"Ele foi vendido para o Cruzeiro por R$ 1 milhão, com apenas 18 anos!", exclamou Macalé.
Na Toca da Raposa, Alex inicialmente chegou para jogar na base, mas subiu para o profissional depois que o ex-atacante Deivid, à época auxiliar do clube, se impressionou ao vê-lo jogar.
"Um dia me pediram para ver o time sub-20 e observar os zagueiros Fabrício Bruno e Bruno Viana. Mas, nesse jogo, o Alex, que era o camisa 10, arrebentou , foi muito bem mesmo! Assim que assumi o time como treinador do Cruzeiro, eu o promovi aos profissionais e ele começou a se destacar nos treinos e o colocamos para jogar", revelou.
"Era um jogador muito talentoso e falavam muito que lembrava o Alex, o nosso 10, que fez história dentro do clube. Tinham uma esperança de que ele estourasse porque era muito diferenciado", acrescentou.
Deivid salienta que, principalmente devido à sua timidez, Alex nunca se firmou na Toca da Raposa. Ainda assim, fez parte do elenco que foi campeão da Copa do Brasil de 2017, sob o comando do técnico Mano Menezes.
Para que ele tivesse mais rodagem, o Cruzeiro o emprestou ao Athletico-PR. Em 2018, ele foi campeão do Paranaense pelo Furacão, fazendo um gol na campanha do título.
Na sequência, Alex foi levado ao Alverca, da 3ª divisão portuguesa, para dar início a uma passagem pelo futebol europeu.
O meia atuou três temporadas pelo clube, sendo o principal jogador da equipe - não à toa, sua camisa foi até aposentada pelo clube.
No último domingo, porém, ele teve uma parada cardiorrespiratória durante jogo contra o Almeirim, caindo desacordado no gramado aos 27 minutos do 1º tempo.
O jovem de 24 anos foi socorrido e levado ao hospital. No entanto, seu corpo não resistiu, e ele foi à óbito na manhã da última quinta-feira.
Alex deixa esposa, dois filhos e muitas saudades em quem o conheceu.
"É lamentável e muito triste perder um jogador novo, da minha idade. Ele vai deixar saúdes como profissional e amigo. Está descansando com o nosso Pai lá em cima. É muito difícil falar neste momento...", lamentou Wesley.
"Infelizmente, aconteceu essa tragédia... Fico triste, porque ele era jovem, talentoso e o sustento da família. Estou triste e abalado", finalizou Deivid.
CONFIRA OS DEPOIMENTOS SOBRE ALEX
Antônio Salomão, o Macalé
Ex-olheiro e coordenador técnico da base do Botafogo-SP
Eu era scout e coordenador-técnico da base do Botafogo-SP e, por meio do Eugênio, um amigo meu que foi jogador de Palmeiras e Botafogo, fui ver um torneio em Luiz Antônio.
O Alex me chamou a atenção de cara. Acabando o jogo, já levei a documentação para o pai dele assinar! Na segunda-feira, ele já estava na base do Botafogo treinando no sub-17, categoria em que eu fui treinador.
Ele vinha de uma condição familiar um pouco precária, a situação no lar dele não era muito agradável... Por três vezes ele insurgiu, se rebelou e foi embora. Mas eu insisti e fui atrás por meio do meu amigo e o trazia de volta.
Até que uma hora eu dei um basta: 'Seu futuro está aqui na sua frente. Depende de você escolher o seu caminho. Você quer cortar cana ou quer ser jogador de futebol?'. Admito que fui até meio grosseiro com ele... Mas funcionou.
Isso ele estava com 17 anos. Depois teve um problema na escola com a assistente social, porque o Alex não era bom aluno, mas foi fácil resolver. Daí em diante, não teve mais problemas.
Ele era bem introvertido, caladão e ficava na dele. Ele ganhou apelido da molecada de 'Alex Salomão', porque eu sou o Antônio Salomão e via nele um potencial muito grande, apesar da situação fora de campo muito triste e lamentável.
Dentro de campo, ele era bem acima da média. Era um meia-esquerda à moda antiga, clássico, canhoto, com mais de 1,80m. Ótimo nas bolas paradas e com uma técnica refinada e elegante dentro de campo. Era um Ademir da Guia, mas canhoto, era desse estilo. Fazia o jogo fluir, uma visão de jogo extraordinária.
Depois do vice do Botafogo na Copinha, ele foi vendido para o Cruzeiro por R$ 1 milhão, com apenas 18 anos!
Lá em Minas, ele foi campeão da Copa do Brasil com o Mano Menezes, na transição dos 20 para os 21 anos.
No Cruzeiro, esse lance dele ser tímido tenho a impressão que possa ter prejudicado... Aqui no Botafogo, ele ficava bem a vontade e rendia. Faltou alguém para fazer com que se soltasse mais. Esse foi a grande deficiência dele. Acho que pela qualidade ele poderia estar num patamar melhor.
Infelizmente, ninguém esperava por isso que aconteceu...
Juninho Fonseca
Ex-zagueiro da seleção brasileira e ex-coordenador da base do Botafogo-SP
O Alex chegou ao sub-17 em 2013. Logo na primeira partida, ele jogou demais e ganhamos por 5 a 1.
Ele se destacou demais no Paulista sub-17 e fez 15 gols. Perdemos na semifinal do Estadual para o Corinthians, que tinha Maycon e Guilherme Arana.
O Botafogo na minha época tinha uma estrutura de base muito boa. Era clube formador categoria 'A' da Fifa. A gente tinha psicólogas, assistentes sociais e pedagogas.
Eu comandava tudo e tinha como função lidar com a personalidade do cidadão, não do jogador. Cuidar da vida dele fora do campo e de quem estava ao redor.
O Alex mesmo admitiu várias vezes que teve problemas de comportamento na base, quando ia para a cidade dele curtir a vida... Tinha problemas com bebida e balada.
Essas sumidas que ele dava eram em função disso. Os jogos acabavam cedo e ficávamos na dúvida se ele voltaria ao clube...
Tivemos que fazer algumas ações emergenciais com o comportamento dele junto com a família. Fomos cuidar do cidadão, até pelo potencial que vimos nele.
Eu achava que ele poderia estar muito melhor na carreira. Me surpreendeu ele estar na 3ª divisão de Portugal. Não sei o que aconteceu com ele...
Wesley Pionteck
Atacante foi companheiro de Alex no Botafogo-SP e vice-campeão da Copinha-2015
Eu conheci o Alex em 2014. Era um cada humilde e sensacional. Foi um prazer jogar com ele na campanha que colocamos o Botafogo na final da Copa São Paulo de 2015.
Estudamos juntos também em 2014 e 2015. Não gostávamos de ir para escola. A pedagoga, a psicóloga e a assistente social pegavam no nosso pé...
Ele tinha muita qualidade. Sempre liderava pela qualidade e pela humildade que tinha.
É lamentável e muito triste perder um jogador novo, já que tinha a minha idade. Ele vai deixar saúdes como profissional e amigo.
Ela está descansando, está com o nosso Pai lá em cima.
É muito difícil falar neste momento...
Rodrigo Fonseca
Ex-técnico do Botafogo-SP e vice-campeão da Copinha-2015
O Alex estava no profissional do Botafogo-SP e desceu para jogar pelo sub-20. Ele ficou triste, porque não estava tendo oportunidades de jogar. Acho que ele não gostou de voltar para a base na época, porque já treinava no profissional.
Nessa época, eu estava no sub-20 do Bota. A gente conversou com ele em particular e disse para fazer as coisas que estava pedindo no momento, porque iria recuperar a condição dele. Falei que ele era um craque e pedi para ficar motivado, pois tinha potencial e precisava trabalhar. Ele tinha o sonho de ir para o profissional e ir para um time grande.
Ele treinou, buscou e trabalhou muito. Melhorou porque tinha uma personalidade forte. Ele se recuperou.
Em seguida, fomos campeões dos Jogos Abertos do Interior e ele foi um dos destaques do time. Logo depois, fomos vices da Copa São Paulo, com ele sendo o craque da competição. Fez jogos memoráveis e um gol muito importante contra o Fluminense, que tinha o Pedro no ataque.
Naquela Copinha, ele sentiu que estava sendo um jogador especial. Sentiu o momento que poderia recuperar a carreira dele. Isso foi muito bom. Ele até fugiu da característica de ser um meia armador e voltar a ajudar na marcação e a brigar pela bola. Saiu da zona de conforto e isso me marcou. O time precisava dele.
Antes das fases finais, o assédio em cima dele era muito grande. No hotel onde estávamos, muitos empresários vieram falar com ele, mas eu lembro que impedi para deixá-lo focado nos jogos. Ele foi muito assediado.
O Bruno Vicintin foi um dos intermediários que o levou ao Cruzeiro depois da Copa São Paulo e depois para o Alverca, pois a família do Bruno é dona do Alverca.
Era um menino super divertido e todo mundo gostava. Não tenho o que falar mal dele. Era introvertido e na dele, calado, de poucas palavras.
Jogador com perfil raro, porque é um 10 clássico, mas o futebol de hoje em dia quer intensidade, algo que o Alex ainda buscava na carreira...
Deivid
Ex-treinador e auxiliar do Cruzeiro, comandou Alex na Toca da Raposa
Eu cheguei ao Cruzeiro para ser auxiliar do Vanderlei Luxemburgo e depois permaneci como auxiliar-fixo do clube. Ficava responsável por ajudar nessa transição dos juniores para os profissionais.
Um dia me pediram para ver o time sub-20 e observar os zagueiros Fabrício Bruno e Bruno Viana. Mas, nesse jogo, o Alex, que era o camisa 10, arrebentou , foi muito bem mesmo!
Assim que assumi o time como treinador do Cruzeiro, eu o promovi aos profissionais e ele começou a se destacar nos treinos e o colocamos para jogar.
Era um jogador muito talentoso e falavam muito que lembrava o Alex, o nosso 10, que fez história dentro do clube. Tinham uma esperança de que ele estourasse porque era muito diferenciado.
Depois eu saí, teve mudança de treinador e, com a mudança de pensamento e metodologia, ele perdeu espaço.
Ele começou a rodar, foi para o Athletico-PR e para Portugal. Era um menino quieto, acanhado vindo de Ribeirão Preto. Era trabalhador e sossegado.
Infelizmente, aconteceu essa tragédia... Fico triste, porque ele era jovem, talentoso e o sustento da família. Estou triste e abalado.
