<
>

Iarley revela por que recebeu lendária 10 de Maradona no Boca e lembra pressão: 'Brasileiro, se vira'

play
Iarley conta como virou o camisa 10 do Boca: 'Outros jogadores não iriam suportar a pressão' (1:54)

'O Carlos Bianchi me contratou já conhecendo o meu histórico', lembrou o ex-jogador (1:54)

Nesta quarta-feira, o Boca Juniors recebe o Internacional, em La Bombonera, pelo jogo de volta das oitavas de final da Conmebol Libertadores, às 21h30 (de Brasília).

E duas das camisas mais pesadas do futebol sul-americano possuem um elo fortíssimo: o ex-meia Iarley, que vestiu a 10 das duas equipes e faturou títulos muito importantes pelos gigantes - para se ter ideia de seu "pé quente", ele conseguiu a proeza de ser campeão mundial pelos dois times (2003 pelo argentino, 2006 pelo brasileiro).

Iarley começou a carreira em 1993, no Ferroviário-CE, e, nas andanças da bola, chegou até a defender o Real Madrid e o Real Madrid Castilla, entre 1995 e 1999.

No entanto, ele se destacou de vez no cenário brasileiro em 2003, quando foi o autor do gol da histórica vitória por 1 a 0 do Paysandu sobre o Boca, pelas oitavas da Libertadores, em plena Bombonera.

No duelo de volta, Iarley teria mais uma boa atuação, mas os argentinos acabaram vencendo por 4 a 2 em Belém e eliminaram o "Papão" do torneio continental.

Isso não impediu, porém, que o lendário técnico Carlos Bianchi pedisse à diretoria do Boca que fizesse uma proposta pelo brasileiro.

"Eu tive ótimas atuações contra o Boca pelo Paysandu nas duas partidas da Libertadores. Segurei o time deles, tivemos dois jogadores expulsos e fiz o gol na Bombonera. Depois do jogo de volta, quando perdemos para eles em casa, chegou o convite", lembrou Iarley, em entrevista à ESPN.

"Eu recebi algumas propostas do Brasil e também tinha mercado bom em times menores da Espanha porque tinha jogado no Real Madrid, mas escolhi o Boca. Havia uma cláusula no meu contrato com o Paysandu que, se eu recebesse uma oferta de fora do Brasil, eles tinham que me liberar", acrescentou.

play
0:56

Iarley revela conversa com líderes do Boca antes de clássico contra River: 'Você está com a 10 do Maradona, se vira'

O ex-atacante chamou a atenção do Boca Juniors após a grana campanha do Paysandu na Libertadores

O meia, então, chegou a Buenos Aires para se tornar um dos raros brasileiros que defenderam o uniforme azul e dourado, ao lado de nomes como Domingos da Guia, Gaúcho, Luiz Alberto e Baiano.

17 anos depois de sua passagem pelo Boca, que durou entre julho de 2003 e julho de 2004, Iarley admite que se emociona até hoje ao lembrar os tempos de Bombonera.

"Vestir a camisa do Boca foi algo que me balançou. Entrar na Bombonera lotada e ver a torcida... Isso me balançou! Foi muito sedutor, e aceitei a proposta na hora", rememorou.

A LENDÁRIA CAMISA 10

Ao chegar a Buenos Aires, Iarley foi surpreendido com a notícia de que vestiria a lendária camisa 10 do Boca, que pertenceu a ninguém menos do que Diego Armando Maradona e Juan Román Riquelme, entre tantos outros craques, na história do clube.

Na conversa com a reportagem, o brasileiro revelou que o técnico Carlos Bianchi, famoso "bicho papão" de títulos, era fã de seu futebol e tinha confiança de que ele aguentaria a pressão de vestir o uniforme mais emblemático dos xeneizes.

"Eu era o único brasileiro no Campeonato Argentino! Mas o Bianchi já tinha visto meu histórico, e, além disso, eu já tinha sido treinado pelo Vicente Del Bosque no Real Madrid. Eu tinha um estilo de jogo mais argentino. Gostava do choque, era intenso, corria o tempo todo e sabia prender a bola. Eu ia para cima, era diferente dos brasileiros que ele conhecia. E ele já sabia como eu era", contou.

"Ele me deu a camisa 10 do Maradona porque, nessa época, o (atacante Carlitos) Tevez ainda era muito jovem, o (atacante Guillermo Barros) Schelotto tinha a marca de jogar com a (camisa) 7 e outros jogadores o Bianchi achava que não iam suportar a pressão de vestir a 10", lembrou.

"O Riquelme tinha sido vendido para o Villarreal, e ele me contratou com todo esse pacote. Ele pensou: 'Iarley vai vestir a 10 e não vai tremer'. Na época, eu já tinha jogado no Santiago Bernabéu, Camp Nou, Vicente Calderón... Já estava condicionado para jogar. E a minha partida na Bombonera pelo Paysandu ele tinha visto que eu não sentia pressão", destacou.

'BRASILEIRO, VAI LÁ E DECIDE'

Iarley relata que não teve dificuldades para se entrosar com o plantel do gigante argentino.

"Como eu já falava espanhol pelo tempo que passei na Espanha, fui entrando no clima e tomando chimarrão com os caras para interagir. O Abbondanzieri e o Schiavi gostavam de muito resenha e brincadeira. Eles adoravam esconder as coisas. Se você deixasse chuteira por aí, eles enchiam de papel higiênico, colocava resto de osso e comida na mochila (risos). Eu comecei a fazer isso com eles também, não fiquei puto e já fui brincando com os caras", relatou.

Mas, curiosamente, a maior "pressão" que o meio-campista sofreu no Boca acabou sendo de seus próprios companheiros, que depositaram enormes expectativas em cima de seu futebol.

Afinal, como adversário pelo Paysandu, ele fez verdadeiros estragos na defesa xeneize...

"Na 14ª rodada do Campeoanto Argentino, veio o Superclássico contra o River Plate, em pleno Monumental de Núñez. O Tevez e o Schelotto estavam machucados. Teve uma reunião e o Schiavi, o Cascini, o Cagna e o Abbondanzieri, que eram as lideranças do elenco, me chamaram e disseram: 'Brasileiro, é contigo!'", revelou.

play
0:58

Iarley lembra começo de Tevez no Boca Juniors: 'Era um caminhão desgovernado sem freio'

Em entrevista ao ESPN.com.br, o ex-atacante contou que os narradores até confundiam ele com o craque argentino durante as transmissões dos jogos: 'Dois baixinhos correndo e trombando com os zagueiros'

"Eles me falaram: 'Não queremos nem saber, a responsabilidade está com você e não vai ter ninguém para dividir. Você vai ter que inventar alguma coisa, e a gente não pode perder. Nesse jogo, você precisa mostrar para o que você veio para cá. Está vestindo a 10 do Maradona, agora se vira. Veio aqui com o Paysandu e arrebentou com a gente, agora é a hora de você fazer uma gracinha pra nós'. Eu olhei pra eles e respondi: 'Tá bom, rapaziada, baixem a bola aí, calma...", relembrou.

Naquele dia, Iarley só não fez chover na casa do River...

Com uma atuação magistral, ele comandou a vitória por 2 a 0 do Boca, marcando o 2º gol xeneize na partida e garantindo o triunfo em pleno Monumental.

Depois da partida, o brasileiro que vestia a 10 de Maradona foi comparado pelos torcedores argentinos a... Pelé!

"Foi uma pressão violenta dos caras antes do jogo, mas serviu, porque não tem muita explicação para a minha atuação naquele dia. Foi algo impressionante. Eu estava muito inspirado!", exaltou.

"Quando acabou o jogo, os torcedores gritavam que eu era o irmão do Pelé (risos). Outros falaram que eu encarnei o Maradona", celebrou.

"Esse gol meu contra o River é muito comentado lá até hoje. E esse jogo foi um divisor de águas na minha passagem. Após essa partida, foi como se eu tivesse sido 'batizado'. Não podia mais sair na rua que era cercado pelos torcedores!", contou.

Sobre a torcida do Boca Juniors, aliás, Iarley só tem elogios.

play
1:01

'Tevez, você não tem voz para ser cantor. Vai jogar bola': Iarley revela conselho a ídolo do Boca

'O Tevez era um grande parceiro meu, que sempre me escutou', lembrou o ex-jogador

"Tirando a parte da violência, os torcedores argentinos têm muito o que ensinar para os brasileiros. Eles respeitam muito os jogadores e a camisa do clube. Lá, inclusive, tem um pedido formal dos times para quando fizer um gol não tirar a camisa. Era proibido. Eles não querem, porque o clube está acima de qualquer jogador, e tirar a camisa é um desrespeito ao clube", explicou.

"Além disso, eles não vaiam o jogador em protesto, porque ele está vestindo a camisa do clube. Depois eles vão lá e pressionam os dirigente e tudo mais, mas os jogadores não são vaiados. Era apoio durante os 90 minutos, e essa paixão passa para os jogadores. Foi algo muito marcante para mim", complementou.

TÍTULO MUNDIAL E SAÍDA

A maior conquista de Iarley com a camisa do Boca foi o título do Mundial de Clubes de 2003, em cima do fortíssimo Milan de Carlo Ancelotti.

Na partida, o brasileiro foi titular e jogou os 90 minutos, mais os 30 da prorrogação, atuando como "falso 9", já que Carlitos Tevez vinha de lesão e não estava 100% fisicamente.

Os xeneizes empataram por 1 a 1 com os rossoneri e ficaram com o cobiçada taça ao ganharem por 3 a 1 nas penalidades.

No lance do gol do Boca, aliás, Iarley finaliza para defesa de Dida. No rebote, porém, Donnet completa para o fundo das redes.

"No Mundial, a gente enfrentou o Milan, que era uma seleção internacional. Tinha Dida, Cafu, Kaká, Serginho, Shevchenko, Pirlo, Gattuso, Rui Costa, Maldini, Neta, Inzaghi, Tomasson, Ambrosini... Mas a gente também era um time muito competitivo, e tivemos a felicidade de levar para os pênaltis e vencer", relatou.

"Foi uma partida muito intensa e disputada. O Milan tinha uma qualidade absurda, mas o Bianchi era um treinador excepcional, muito à frente do tempo dele. Era estrategista, e montou um esquema que deu muito certo: como o Tevez não estava 100% e começou no banco, eu, ao invés de jogar de 10, atuei como 9 para justamente confundir a marcação deles, e funcionou muito bem", observou.

Os gloriosos anos do Boca no início da década de 2000, porém, tiveram também um peso para os cofres do clube.

Após a conquista contra o Milan, no Japão, a equipe argentina deu início a uma reformulação no elenco, trocando os "medalhões" por atletas mais jovens. Assim, Iarley acabou saindo.

"Depois do Mundial, o Boca começou um desmanche. Vendeu muitos jogadores para equilibrar as contas e começou a reformular com o pessoal da base. Tanto o clube quando a própria Argentina estavam em dificuldades econômicas muito grandes", rememorou.

play
1:45

Iarley relembra entortada que 'quebrou espinha' de Puyol na final do Mundial contra o Barça: 'Ele foi para dar o tranco'

Em entrevista ao ESPN.com.br, o ex-atacante ainda elogiou Adriano Gabiru, autor do gol do título: 'Muito inteligente'

"Na minha renovação, não teria aumento de salário e eu queria três anos de contrato, mas aí vieram propostas interessantes da França, da Espanha e do México. Decidi não renovar, porque tinha sido campeão argentino e mundial, já estava com uma certa idade. Preferi sair por cima", afirmou.

O meia, então, foi jogar no Dorados de Sinaloa, do México, e seguiu fazendo sucesso em terras estrangeiras.

"O futebol mexicano estava no alto em termos financeiros, e eu tinha muitos amigos lá. Pensei: 'Vou mostrar meu futebol no Dorados e depois ir para os gigantes do país, como o América'. A gente fez uma campanha legal, ficou na 1ª divisão, e eu me destaquei usando a 10, fui muito bem", contou.

"Depois, veio o contato do Internacional, e eu tinha três opções: renovar com o Dorados, ir para outros clubes mexicanos ou voltar ao Brasil. Escolhi a última e fui muito feliz", encerrou.

O resto da história todos já sabem: com a camisa colorada, Iarley foi herói nas conquistas da Libertadores 2006, Mundial de Clubes 2006, Recopa Sul-Americana 2007 e Gauchão 2008.