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Geovanni se arrepende de não ter ouvido conselho de Van Gaal no Barcelona: 'Oportunidade escapou'

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Ex-Barcelona revela arrependimento por não ter escutado Van Gaal: 'Você ficará 10 anos aqui' (2:46)

Geovanni citou Daniel Alves e Belletti como brasileiros que tiveram sucesso depois dele na lateral do clube catalão (2:46)

Nesta terça-feira, o Barcelona enfrentao Dynamo de Kiev, pela Uefa Champions League. Sem Lionel Messi, que será poupado, o time catalão terá como uma de suas apostas o volante brasileiro Mathes Fernandes, ex-Palmeiras, que ganhará sua 1ª chance no clube.

O Barça, aliás, tem longa tradição em contar com atletas brasileiros, com alguns tendo passagens muito marcantes pelo clube, e outros um pouco mais discretos.

Um dos brazucas a defender a equipe blaugrana em sua mais do que centenária história foi o meia Geovanni Deiberson Maurício Gómez, conhecido por sua excelente passagem pelo Cruzeiro, no início dos anos 2000.

No verão europeu de 2001, Geovanni foi comprado pelo Barcelona por US$ 18 milhões, uma fortuna à época, e chegou cercado de expectativa à Catalunha.

O que poucos sabem é que o meia tinha um "namoro" antigo com o Barça, que o observava desde que ele estava na base da Raposa.

"Eu tinha o sonho de um dia poder atuar no Barcelona. Em 1996, quando eu estava na base do Cruzeiro, jogamos um campeonato no Chile contra o Barça e já ali eles manifestaram interesse, mas na época eu não podia, por causa da idade. Daí nasceu a vontade deles em me terem no elenco. Foi só em 2001 que acabou se concretizando o sonho de eu poder jogar em um dos maiores clubes do mundo", contou, à ESPN.

À época, a equipe culé estava sendo comandada por Carles Rexach, grande ídolo barcelonista nos tempos de jogador, e tinha muitos brasileiros no elenco. Geovanni relata que foi muito bem recebido.

"O Carles Rexach era o treinador, um ex-ponta-direita de muito sucesso e que era amado pela torcida. Foi uma pessoa que me ajudou muito desde o início. O Rivaldo também me auxiliou na adaptação, assim como o Fábio Rochemback e o Thiago Motta, que são grandes amigos até hoje. Luis Enrique, Xavi, Saviola, Pepe Reina, Puyol e Victor Valdés também me receberam muito bem", recordou.

"Quando a gente chegava no aeroporto, tínhamos que escapar por dentro, porque sempre havia umas 2 mil pessoas esperando na parte de fora. Era uma loucura. São coisas que a gente lembra e vê a grandeza desse clube que muitos amam. O sonho de todo jovem é jogar no Barcelona", exaltou.

TEMPOS DE TRANSIÇÃO

Geovanni chegou ao Barça em um período difícil. A equipe vinha de uma era dominante nos anos 90, quando teve o Dream Team do técnico Johan Cruyff, mas ainda iniciava a formação do time que voltaria a ser uma potência com a chegada de Ronaldinho Gaúcho e o surgimento de Lionel Messi, na segunda metade dos anos 2000.

Ao mesmo tempo, o Real Madrid iniciava a era da gastança e trazia seus "galácticos", o que aumentou muito a intensidade da rivalidade entre os dois gigantes espanhóis.

"Lembro que o Barcelona tinha vencido a Champions em 1992 e era um dos favoritos em 2001/02, quando eu cheguei. Fomos até a semifinal contra o Real Madrid, mas perdemos em casa e empatamos fora. Se a gente tivesse ganhado aquela Liga dos Campeões, tudo teria sido diferente para aquele plantel. Infelizmente, fomos eliminados. Mas o Barça estava passando por um momento de transição. O Xavi, o Puyol e o Iniesta estavam só começando a despontar da base para o profissional. E eles viriam a ser a fundação para tudo que o Barcelona é hoje", recordou.

"E a rivalidade entre Barcelona e Real aumentou muito enquanto eu estava lá, por causa do episódio do Figo ter ido para Madri. O 1º clássico no Camp Nou depois disso foi muito complicado, pois o Figo era ídolo do Barcelona. A partir daí, a rivalidade aumentou muito, e o clássico virou algo global", apontou.

Geovanni, aliás, não vê Figo como "traidor" e exalta sua "personalidade" por ter aceitado uma transferência tão polêmica, mesmo sabendo que mancharia para sempre sua imagem na Catalunha.

"Ele era um grande craque. Fazer troca direta de rival pra rival é complicado, e por isso eu digo: ele teve muita personalidade de ter feito isso. O Figo teve muito sucesso também no Real Madrid, assim como foi no Barça. O desempenho dele foi incrível. Tive a felicidade de jogar contra ele e reafirmo que foi um grande jogador", elogiou.

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O português, que chegou a atuar contra Geovanni, deixou o Barcelona em 2000 rumo ao Real Madrid

Nos tempos em que atuou pelo Barcelona, aliás, o brasileiro elege os clássicos contra o Real Madrid na semifinal da Champions como os mais marcantes que disputou.

"No 1º jogo, no Camp Nou, estava 1 a 0 para o Real Madrid, com gol do Zidane, e eu entrei no 2º tempo. Eu chutei uma bola de fora da área e ela explodiu no travessão. Se ela tivesse entrado, com certeza o clássico teria sido diferente, e a gente teria uma chance boa de chegar à final. Infelizmente, demos uma bobeada no final e levamos o 2º gol nos acréscimos", relatou.

"Nesse jogo, eu tive como meu marcador o Roberto Carlos, um dos maiores da história do futebol. E eles ainda tinham Raúl, Casillas, Zidane, Figo, etc... O time deles era uma seleção! Minha maior recordação foi esse clássico em que a gente poderia ter feito história", salientou.

Ser marcado por Roberto Carlos, aliás, é algo que "assombra" o mineiro de Acaiaca até hoje.

"Tenho um respeito muito grande por ele. Em toda a minha carreira, foi um dos jogadores mais difíceis de passar. Eu era muito rápido, e uma vez, no Santiago Bernabéu, dei um tapa na frente pensando que ia passar fácil, mas ele deu um carrinho e tirou. Com uma perna ele pegou a bola, e com a outra ele derrubou minhas duas pernas (risos)", brincou.

"Quando eu levantei com dores nas pernas, pensei: 'O que eu posso fazer para passar por esse cara?'. Pelo fundo era complicado, e comecei a fazer jogadas pelo meio, porque ele não poderia me acompanhar. Foi uma estratégia que achei, porque, no um-contra-um, dificilmente iria passar por ele, pela técnica, inteligência e posicionamento que ele tinha", elogiou.

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Geovanni deixou o Cruzeiro em 2002 rumo ao clube catalão, que defendeu por uma temporada

Apesar de sua passagem pelo Camp Nou não ter durado muito (Geovanni sairia em 2003 para atuar no Benfica), o ex-cruzeirense guarda só boas lembranças.

"Aprendi muito no Barcelona, porque o futebol é bem diferente. Aqui, no Brasil, eu jogava como um 2º atacante, e no Barça passei a atuar mais como um extremo. Tive que aprender a cruzar, e recebi muitas lições de grandes craques. Mudei totalmente minha mentalidade", afirmou.

"Caras como Luis Enrique, Sergi, Kluivert, Frank de Boer e tantos outros eram muito experientes e me passaram muitas coisas. Pude usufruir de todo esse aprendizado depois nas outras equipes que passei na carreira. O futebol do Barça era coletivo e muito bonito de se ver", observou.

O CONSELHO DE VAN GAAL

Após a saída de Carles Rexach, em 2002, o holandês Louis van Gaal retornou ao Barcelona e reassumiu a equipe após passagem pela seleção de seu país.

Foi ao lado do genial e polêmico treinador que Geovanni viveu uma de suas histórias mais marcantes no Barça. E o brasileiro diz se arrepender até hoje de não ter ouvido um conselho dado pelo comandante.

"Depois que o Van Gaal assumiu, um dia ele me chamou para conversar: 'Geovanni, preciso que você jogue como ala. Se você jogar como ala, ficará aqui no Barcelona durante 10 anos sendo titular. Na sua posição no ataque, você tem muita gente para disputar, como Saviola, Rivaldo e Kluivert, e vai ficar difícil para você'. Ele ia colocar um sistema de três homens atrás e eu seria o ala", contou o ex-Cruzeiro.

"Na época, infelizmente, eu não tinha esse entendimento. Se o Van Gaal falasse isso comigo hoje, eu diria que aceitaria jogar até no gol, se fosse possível (risos). Mas, na época, eu disse a ele que queria jogar na minha posição. Meu entendimento foi um pouco precipitado naquele momento. Com a experiência que tenho hoje, teria aceitado jogar como ala", admitiu.

"Claro que eu ia ter trabalho no início, mas eu conseguia marcar, era aplicado, poderia aprender muito mais. Eu era veloz, chutava bem, cruzava bem... Era uma posição em que eu poderia ter me destacado muito! Tanto é que, anos depois, chegaram jogadores como Daniel Alves, que foi multicampeão nessa posição, e o Belletti, por exemplo. Eles fizeram muito sucesso", argumentou.

"A leitura do Van Gaal era que eu poderia ser um destaque nessa posição, que era uma carência do clube naquele momento. Eu não entendi, infelizmente... As oportunidades passam. Quando temos uma oportunidade, temos que abraçar", ensinou.

"Só depois da maturidade é que olhamos para trás, e hoje eu me pergunto: por que não aceitei fazer essa função, que nem seria difícil de fazer, pelas minhas características? Mas, como passou, serve de alerta, porque deixei uma oportunidade muito grande escapar pelas minhas mãos", completou.

Apesar de não ter seguido a recomendação de Van Gaal, Geovanni ressalta que sempre teve boa relação com o treinador, que é conhecido por não gostar de atletas brasileiros e por, na mesma época, ter vivido uma verdadeira "guerra" com Rivaldo.

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"Eu sempre tive uma relação normal com o Van Gaal, e ele sempre me respeitou. Achei muito legal da parte dele me falar que eu seria titular do time dele na ala. Eu fui muito franco e disse a ele que preferia ser atacante. Apesar de tudo, nossa relação nunca teve problema algum", pontuou.

"Sei que ele gostaria de ter me dado essa chance, mas a falha foi minha de não ter aceitado. Uma pena que eu não tenha topado nem ao mesmo como experiência atuar nessa posição. Talvez minha história teria sido totalmente diferente ali no clube", apontou.

POR ONDE ANDA GEOVANNI?

Geovanni se aposentou em 2013, após passagem pelo Bragantino, e hoje se divide em várias atividades.

"Trabalho como empresário desde 2014, junto com o Cléber Monteiro e meu sogro, Roberto Assunção, que cuidou da minha carreira. Sou também pastor voluntário em uma igreja batista em Belo Horizonte, e temos feito um trabalho legal com as pessoas e visitas sociais também. Fora isso, cuido da família, estou sempre com os amigos e, antes da pandemia, batia uma bolinha de vez em quando", relatou.

"Mexo com a área de construção civil também. Eu me programei para a aposentadoria do futebol. Sabia que seria difícil, mas, três anos antes de parar, eu já estava pensando no que iria fazer depois. Me aposentei do futebol, mas tenho uma vida inteira pela frente. Tenho só 40 anos!", disse.

"O futebol foi muito importante, e claro que ainda é, mas descobri outras coisas que me fazem feliz. Tenho que agradecer por esse momento da minha vida", finalizou.