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Rodrigo Paiva conta como Ronaldo 'Fenômeno' se consolidou como celebridade quando ficou sem jogar

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Injeção nas costas e 'mestre da Jamaica': Ronaldo conta vários métodos que buscou para tratar lesão (2:02)

Ex-atacante foi convidado especial do Resenha (2:02)

Nesta quarta-feira, a Inter de Milão recebe o Real Madrid, às 17h (de Brasília), pela Champions League, precisando desesperadamente vencer para reagir e ainda sonhar com uma classificação para a próxima fase.

Ao falar da equipe nerazzura, é impossível para os brasileiros não pensar no ex-atacante Ronaldo, que defendeu o clube entre 1997 e 2002 e produziu algumas das maiores atuações da história do futebol italiano e europeu - não à toa, ganhou lá o apelido de "Fenômeno" que o acompanha até hoje.

No entanto, apesar de, em teoria, ter jogado por cinco anos na Inter, Ronaldo ficou inativo por um longo período entre 1999 e 2002, perdendo grande parte das temporadas 1999/00 e 2001/02 e a temporada 2000/01 inteira.

Isso ocorreu por causa de suas gravíssimas lesões no joelho. A primeira aconteceu em novembro de 1999, quando ele contundiu o tendão contra o Lecce. Em seguida, em abril de 2000, na final da Copa da Itália, sofreu a ruptura do tendão patelar, que quase forçou sua aposentadoria.

Durante os quase dois anos em que ficou sem jogar, porém, Ronaldo não sumiu da mídia. Muito por causa do trabalho de Rodrigo Paiva, ex-diretor de comunicação da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e também ex-gestor de imagem de R9.

Em entrevista à ESPN, Paiva recordou como atuou nos bastidores em diversos projetos para o atacante, em tempos em que ainda não existiam redes sociais.

"O Ronaldo conseguiu ser o centro das atenções no futebol mundial mesmo sem entrar em campo por dois anos. Existia um carinho e uma boa vontade com ele. A história do Ronaldo se tornou uma história dramática", contou.

"Quando ele sofreu a lesão contra a Lazio, muitos imaginaram que seria o fim da carreira dele. E a contusão aconteceu bem em um dia que era para ser de celebração, porque era a volta do melhor jogador do mundo aos gramados. Ele ficou parado por anos, e havia muitas dúvidas se ele voltaria a jogar em alto nível. Mas foi aí que o mundo o abraçou de vez ", relatou.

Os trabalhos com a imagem de R9 aconteceram em meio às infinitas preparações de fisioterapia que o centroavante realizava com Nílton Petrone, o Filé, seu fisioterapeuta de confiança.

"Ele teve muita força e ajuda das pessoas que estavam diretamente ao lado dele. O Ronaldo ficou um ano e meio lutando para voltar aos campos. Isso fortaleceu ainda mais a imagem dele. E como o Filé tinha que pensar na recuperação, eu tinha que pensar na construção da imagem dele, para que, quando ele retomasse o futebol, estivesse um degrau acima ", salientou Paiva.

"Deixei passar um pouco o trauma dele da lesão e tive uma conversa com ele: 'Agora o jogador não pode atuar. Como vai ser isso? Depois de dois anos, vai ser esquecido? Nada disso! Vamos colocar seu nome para fora'", revelou.

Segundo Rodrigo Paiva, porém, ele não precisou "inventar um personagem" de bom moço para Ronaldo, forçando as pessoas a gostarem do craque de maneira artificial.

"Eu via nele um cara muito do bem e de coração enorme. Nós criamos nos aproximamos da mídia, em uma época na qual não existia rede social. A imagem dele deu um salto. Eu só dei luz à essência dele. Não havia nada de fake naquilo", assegurou.

A 'CRISE DA FERRARI'

Um dos casos mais emblemáticos envolvendo a imagem do "Fenômeno" aconteceu logo depois da Copa do Mundo de 1998, quando Ronaldo foi muito criticado por ter sido filmado pela TV Globo dirigido sua novíssima Ferrari no autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

"Lembro que logo que começamos a trabalhar com ele fomos desfazer essa história da Ferrari. Ele ganhou o dinheiro dele trabalhando e queria realizar o sonho de garoto, como qualquer músico ou ator famoso. Levantei na época que havia 286 Ferraris no Brasil, mas parecia que só tinha uma: a dele. Conhecendo o Brasil como a gente conhece, várias delas poderiam ser de fontes ilícitas", observou Paiva.

O gestor, então, tentou descolar a imagem de "garoto mimado" que poderia ser colocado em Ronaldo por conta do episódio.

Dessa forma, colocou o atacante para dar uma entrevista reveladora à revista Veja, na qual abordou até mesmo uma polêmica compra no Paraguai, feita em 1999.

"A gente deixou claro que não estava ofendendo ninguém. Ele era alguém conectado com a realidade dele e que ajudava aos amigos de infância. Ele vendeu a Ferrari. Ali, foi uma desconstrução, e depois fizemos várias ações que culminaram com o auge, que foi ir ao Kosovo e parar uma guerra", rememorou.

PARANDO A GUERRA NO KOSOVO

O episódio citado por Rodrigo Paiva aconteceu em 1999, durante o apogeu da Guerra do Kosovo, na antiga Iugoslávia.

Na ocasião, Ronaldo visitou a cidade de Pristina, atual capitão kosovar, e causou um inédito "cessar fogo" entre o exército iugoslavo e o Exército da Libertação do Kosovo, que exigia a independência da região.

A negociação para que R9 pudesse viajar a uma zona de guerra, porém, foi bastante complicada.

"Um dia, a ONU veio pedir uma doação ao Zidane e ao Ronaldo, e eu falei com ele que dava pata a gente ir para lá visitar o Kosovo. Ele topou na hora, mas a ONU disse que não tinha a menor condição, porque era um terreno de guerra e de altíssimo risco. Pedi para eles tentarem de tudo, falarem com os oficiais da ONU em Nova York, com o [então secretário-geral] Kofi Annan e me retornarem em até 10 dias. De repente, um dia recebo uma ligação e eles me dizem que conseguiriam levar o Ronaldo até Pristina em segurança", relatou.

Ronaldo, então, desfilou pelas ruas da cidade kosovar em veículo militar, levando ao menos um pouco de alegria às vítimas da guerra.

"O conflito parou naquele dia. Não houve qualquer confronto. Fomos de helicóptero e, quando pousamos em Pristina, havia mais de 3 mil pessoas na rua. Isso que a cidade não tinha nem luz elétrica. Foi algo histórico e muito simbólico", contou.

A visita do "Fenômeno" foi um tremendo sucesso, e, depois disso, ele se tornou embaixador da ONU.

"Quando chegamos em Milão após a ida ao Kosovo, no mesmo dia uma chefe de missão da ONU em Genebra me ligou dizendo que o escritório de Nova York estava enlouquecido, porque foi a maior geração de mídia espontânea da história da ONU!", exclamou.

"A cobertura de tudo aquilo aconteceu sem investimento, de forma natural, porque era um fato interessante por todos os tipos de viés, seja esportivo ou noticiário geral. A partir dali, o Ronaldo virou embaixador da ONU e participou de muitas ações. E nem sempre o lado jogador dele tinha que aparecer, porque ele já havia saído do nicho do esporte e virado um nome forte para todas as áreas", encerrou.