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Rodrigo Paiva revela como Ronaldo 'Fenômeno' rompeu com a Inter e foi para o Real Madrid em 2002

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O dia que Ronaldo precisou de apenas 14 segundos para protagonizar um golaço (1:40)

O craque brasileiro abriu o placar da vitória por 2 a 0 sobre o Atlético de Madrid no dia 3 de dezemrbo de 2003, no Bernabéu (1:40)

Nesta terça-feira, o Real Madrid recebe a Inter de Milão, pela 3ª rodada da fase de grupos da Uefa Champions League.

Ao longo da história, merengues e nerazzurri já se enfrentaram em diversas partidas épicas, como a final da Liga dos Campeões 1963/64, na qual a squadra comandada pelo técnico Helenio Herrera bateu o "invencível" Real de Di Stéfano, Puskas e Gento por 3 a 1, em Viena, na Áustria.

No entanto, talvez o momento mais memorável ocorrido entre os clubes aconteceu há 18 anos, quando o atacante Ronaldo "Fenômeno" trocou a Internazionale pelo gigante de Madri, em uma das mais célebres transferências da história do futebol.

A história começa no início de 2002, quando o brasileiro se recuperava de sua 2ª lesão no joelho, considerada gravíssima e que o fez perder toda a temporada 2000/01 e também a maior parte de 2001/02.

Apesar de ainda estar longe da forma que o fez ficar conhecido como "Fenômeno" na Itália, Ronaldo ainda contava com a confiança do técnico Luiz Felipe Scolari, que estava na fase final de escolha dos atletas que representariam o Brasil na Copa do Mundo da Coreia do Sul e Japão.

E foi aí que o processo de saída da Inter de Milão, que ele defendia desde 1997, começou a amadurecer.

Na equipe nerazzurra, R9 não encontrou o apoio emocional que considerava necessário naquele momento, já que tinha péssima relação com o treinador argentino Héctor Cuper.

Quem lembra é Rodrigo Paiva, ex-diretor de comunicação da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e também ex-gestor de imagem de Ronaldo. Em entrevista à ESPN, o jornalista recordou o complicado pré-Copa do "Fenômeno" em meio a tantas incertezas, o que ocasionou seu "rompimento" com a Internazionale.

"No 1º semestre de 2002, essa retomada dele pós-lesão no joelho foi o momento mais complicado, porque o Ronaldo tinha pouco tempo para se recuperar para a Copa-2002. O problema todo começou com o Héctor Cuper. Como a Inter não estava brigando pelo título (italiano), ele poderia fazer algumas concessões para ajudar (o Ronaldo), mas o Cuper não estava muito a fim de ajudar... Isso pesou muito, pois o Ronaldo estava voltando aos gramados cheio de dúvidas, e precisava retomar o futebol de antes para que ele pudesse jogar o Mundial", contou.

"Tinha que ter uma colaboração por parte do Cuper, com o objetivo de recuperar o jogador mais importante do time, mas isso não estava acontecendo. Assim, a situação ficou tão complicada que o Ronaldo voltou ao Brasil na época para fazer esse trabalho com a equipe do (médico ortopedista José Luiz) Runco. Toda hora vinham para cá o médico e o preparador da Inter para acompanhar essa recuperação feita pela seleção. A CBF, o Runco, o (fisioterapeuta Nílton) Filé e o Felipão todos estavam focados só no Ronaldo", recordou.

"O Felipão apostou que poderia ter o Ronaldo na Copa, e foi graças a essa aposta que tudo aconteceu também para ele sair da Inter e ir para o Real Madrid", completou.

Paiva recordou de outro episódio decisivo: o amistoso entre Brasil e Iugoslávia, em Fortaleza, que serviu como preparação para o Mundial de 2002, dois meses antes do torneio na Ásia.

A partida marcou o retorno do "Fenômeno" à seleção após dois anos e meio de ausência pela lesão no joelho. E foi nesse ambiente que ele encontrou o "abraço" que precisava.

"Lembro que, antes do amistoso no Castelão, na preleção do jogo o Felipão falou sobre marcação. Ele olhou para o Ronaldo e disse: 'Você está voltando hoje, mas, se puder voltar de vez em para ajudar a recompor, não precisa marcar'. Aí o Cafu levantou lá de trás e falou: 'Felipão, deixa o Ronaldo lá na frente. Fique tranquilo que cada um aqui vai dar um pouco a mais para compensar a ajuda que ele ainda não pode dar. Lá na frente ele vai compensar fazendo os gols que vão fazer a gente ser campeão do mundo'", relatou.

"Essa atitude dos jogadores mostra que houve uma união de todos em prol de abraçar o Ronaldo e dar essa força que ele estava precisando. Foi isso que ele não encontrou na Inter. Na Itália, com o Héctor Cuper, foi exatamente o oposto. Se ele não tivesse rompido com a Inter de Milão naquele momento e tivesse vindo ao Brasil, ele não teria jogado a Copa", ressaltou.

As sondagens

Com Ronaldo "rompido" com a Inter de Milão, outros gigantes do futebol europeu começaram a se interessar pelo possível reforço, como lembra Rodrigo Paiva.

"Antes da Copa, o Ronaldo começou a receber sondagens de vários clubes, incluindo o Real Madrid. O fato dele ser bem amigo do Roberto Carlos ajudava muito nisso. E o Ronaldo tinha ficado bem magoado com o Héctor Cuper na época, porque não se sentiu apoiado, sentiu que ele travou o retorno dele aos gramados", rememorou.

"A partir daí foi um embate complexo, praticamente um jogo de xadrez entre Ronaldo, Cuper e diretoria da Inter de Milão, que culminou com a vinda dele para se tratar com a CBF. Isso deixou sequelas e piorou ainda mais a atmosfera dele com o Cuper, que permaneceu no clube", seguiu.

Paiva lembra que o "Fenômeno" tinha ótima relação com o então presidente e dono da Inter de Milão, Massimo Moratti. No entanto, mesmo tendo carinho pelo dirigente, R9 entrou em queda de braço pro causa de Héctor Cuper, o que acabou, no final das contas, resultando na saída para o Real Madrid.

"Ficou evidente que era uma coisa muito pessoal do treinador contra o Ronaldo na Inter. O Ronaldo tinha uma relação muito afetuosa com o Moratti, quase de pai para filho. E o Moratti demonstrou muito carinho por ele, principalmente após as lesões, mas, naquele momento complicado, ele ficou ao lado do treinador", salientou.

"As pessoas criaram que o Ronaldo foi ingrato com a Inter, mas eu discordo. Acho que ele não foi ingrato em nenhum momento. Na verdade, ele foi vítima de uma perseguição pessoal por parte do Cuper e tomou uma decisão que, para ele, nem era prioritária naquele momento. Ficou inviável ele permanecer em Milão", argumentou.

"O Moratti não queria liberar o Ronaldo, mas, naquele momento, ele quis liberar o Ronaldo. Porque, se não quisesse, ele não teria liberado, teria aberto mão do treinador. Pense: você está com o maior jogador do planeta, vai optar pelo Héctor Cuper? O resto é uma manipulação que o clube fez para se vitimizar, mas, no fundo, realizaram um desejo deles também", bradou.

"Eles apostaram no conceito do treinador. Era uma época complicada até para mim, porque eu era o gestor da imagem do Ronaldo. Eu lidava com a imprensa e fazia estratégias de comunicação e imagam. O mundo inteiro antes da Copa já estava atrás dele, mas depois da Copa isso aumentou ainda mais. Era mídia do planeta todo! Foi um período de muitas incertezas, porque nós nem tínhamos certeza se ele iria sair da Inter. Aquilo tudo poderia gerar um impasse e o desconforto ficar ainda pior. A situação era: ou ele saía, ou permanecia à força em litígio", contou.

Veio, então, a Copa do Mundo, na qual o "Fenômeno" arrebentou, terminando como artilheiro da competição e fazendo dois gols na vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha na grande decisão.

Paiva garante, porém, que, ao contrário do que se especula, nada foi fechado entre R9 e Real Madrid durante a passagem da seleção pela Coreia do Sul e Japão.

"Eu estive ao lado dele na seleção durante a Copa e ele não falou um dia sequer de sair da Inter para ir para outro clube. A cabeça dele estava totalmente focada na Copa. Os empresários dele à época, o Alexandre Martins e o Reinaldo Pitta, receberam, sim, muita coisa, mas não teve nada de acerto", assegurou.

"O sucesso dele na seleção, ainda mais nos jogos finais, consolidou a retomada do Ronaldo. Ele era o jogagador mais cobiçado do mundo, mas poucos clubes tinham condições de tirar o Ronaldo da Inter, até porque a Inter, na época, era uma das potências financeiras da Europa", revelou.

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A definição

Após o Mundial, chegou, enfim, a hora de Ronaldo acertar com um novo clube, já que ele estava decidido em deixar a Internazionale.

"Depois da Copa, a situação ficou muito mais clara. Antes e depois da competição, houve conversas entre os empresários e clubes, mas o Ronaldo só pensava na Copa. Depois, quando ele saiu da Copa, ele era o jogador mais famoso e badalado do planeta. Estava com todas as cartas na mão", exaltou.

Mas engana-se quem pensa que foi só o Real Madrid que tentou fechar com o "Fenômeno".

"Eu lembro que teve uma situação clara com o Manchester United. Até porque ele tinha a característica que os ingleses sempre gostaram na Premier League. E também temos que lembrar que, depois da Copa, não foi tão rápida e fácil assim a saída da Inter, porque ele jogou no clube por muitos anos e eu vi de perto como ele era amado pelos torcedores. Só que colocaram uma pedra no meio do caminho que inviabilizava a permanência dele. Era quase impossível dele ficar. Então, foi uma situação bastante complexa", recordou.

Foi apenas em setembro de 2002 que o Real Madrid conseguiu equacionar a operação.

Com o presidente Florentino Pérez dando início ao seu projeto de montar um time de "galácticos", ele ofereceu 46 milhões de euros (pode parecer pouco hoje, mas era muito para a época) e fechou a contratação do artilheiro da Copa do Mundo 2002, que chegou ao Santiago Bernabéu para jogar ao lado de várias outras estrelas mundiais.

"O Ronaldo escolheu o Real Madrid porque era um clube de ponta fantástico. Lá, ele teria condição de disputar as competições que, na Inter, naquele momento, não estavam muito no prognóstico dele. Dava a ele a chance de manter a carreira no topo, jogando torneios importantes no time mais vencedor do mundo", observou Rodrigo Paiva.

"Além disso, havia o fato do Roberto Carlos, do Figo e do Zidane já estarem lá. O Zidane era parceiraço dele, assim com o Roberto. Então, era uma situação muito favorável. A Inter, por outro lado, estava com um projeto diferente, focado nos argentinos. Então, foi uma decisão lógica, se você for pensar", afirmou.

Mas, como era de se esperar, a torcida da Inter não aceitou bem a saída de R9, e, à época, rotulou o brasileiro de "traidor" e "mercenário".

"A saída do Ronaldo de Milão e a chegada a Madri ilustram bem o que é o futebol: amor e ódio. A saída dele de Milão foi difícil. As pessoas até foram às ruas para bater nos carros. Foi criada uma atmosfera que ele estava sendo ingrato, quando, na verdade, ele não foi. Ficar com o Héctor Cuper foi uma opção da Inter, e o treinador deu provas públicas de que não queria o Ronaldo. No fim das contas, a saída da Inter foi sofrida, mas uma decisão acertada", apontou Paiva.

Já na Espanha, o "Fenômeno" foi recebido com tapete vermelho.

"Em Madri, foi uma ação de mídia gigantesca, como poucas vezes vi. Ele foi muito bem recebido por todo mundo. O Real era bem diferente da Inter. Em Milão, era uma coisa mais 'família'. Já o Real era uma megaempresa, uma máquina! Tinha um pouco menos de afeto pessoal, mas muita força e pujança", explicou.

Ronaldo foi apresentado à imprensa em 2 de setembro de 2002, ao lado de Florentino Pérez (que ainda é presidente do clube) e de Alfredo Di Stéfano, presidente de honra dos merengues. À época, ele vestiu primeiramente a camisa 11, já que a 9 era "propriedade" do espanhol Fernando Morientes, titular da seleção roja.

A loja do Real Madrid "explodiu", com a camisa 11 estourando nas vendas, ainda mais depois de seu início maravilhoso pelos blancos. Em sua estreia contra o Alavés, ele precisou de apenas 61 segundos em campo para marcar, e deixou o Bernabéu aplaudido de pé. O craque também brilhou nos títulos do Mundial de Clubes de 2002, sobre o Olimpia, do Paraguai, e da Supercopa da Espanha de 2003, sobre o Mallorca. Ele encerrou LaLiga 2002/03 com 23 gols e foi decisivo para o gigante de Madri levantar o troféu.

O "Fenômeno" jogaria cinco temporadas pelo Real, fazendo 104 gols em 177 jogos. Ele ficou na equipe até 2007, quando se transferiu para o Milan.