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Roger relembra glórias em Flamengo, São Paulo e seleção e briga com Carpegiani por ensaio nu

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Reserva de Ceni no São Paulo, ex-goleiro Roger contou em 2011 que 'odiava' treinar falta: 'Fuzilamento' (5:56)

Reportagem de 07/09/11 (5:56)

Nesta quarta-feira, São Paulo e Flamengo se enfrentam pelo jogo de volta das quartas-de-final da Copa do Brasil. E poucos jogadores têm tantas histórias marcantes pelas duas equipes quanto o ex-goleiro Roger José de Noronha Silva, que, nos tempos de jogador, era conhecido apenas como Roger.

Aposentado desde 2008, quando pendurou as luvas no Botafogo, ele hoje trabalha no talk show "Boleiros na Resenha", exibido no YouTube, e mostrou ser um contador de histórias de primeira.

Em uma longa entrevista à ESPN, Roger relembrou suas muitas glórias nos tempos de Gávea e Morumbi (além das seleções brasileiras de base), e também suas rápidas passagens por Santos e Botafogo, já na parte final da carreira.

No Flamengo, o ex-arqueiro foi campeão brasileiro e carioca, viveu loucas aventuras com o "melhor ataque do mundo" formado por Sávio, Romário e Edmundo, levou o famoso "gol de barriga" de Renato Gaúcho e se viu em uma situação complicada com o técnico Júnior.

No São Paulo, que defendeu por quase uma década, formou uma sólida parceria com Rogério Ceni, de quem era reserva direto, e teve vários momentos de brilho, ganhando inclusive dois troféus como goleiro titular, no início dos anos 2000.

Foi no clube tricolor que ele também viveu outro episódio muito curioso: a briga que teve com o técnico Paulo César Carpegiani após posar nu para a revista G Magazine, em 1999.

Confira o depoimento e as grandes histórias que Roger contou à reportagem:

O INÍCIO NO FLAMENGO

Eu comecei aos 13 anos no Flamengo. Cresci no clube e fui para o Mundial sub-20 de 1991, em que fomos vice-campeões contra Portugal, e para o pré-olímpico de 1992, no Paraguai, no qual infelizmente não nos classificamos para os Jogos de Barcelona.

Nessa época eu fiz a transição da base para o profissional. O elenco de 1992 do Flamengo era um timaço. Só que meus pais estavam na época com problemas financeiros e eu tinha uma proposta para ir para o União da Ilha da Madeira, em Portugal. Só tinha um porém: se eu saísse como amador, só ia poder assinar contrato profissional lá depois de dois anos. Enquanto isso, receberia ajuda de custo.

Eu tinha só 19 anos e estava para ir embora, mas o Flamengo vetou e assinou comigo o meu primeiro contrato profissional.

Virei profissional e, logo de cara, fui campeão brasileiro em 1992, na reserva do Gilmar Rinaldi. Foi meu primeiro grande título e lembro de tudo até hoje. Foi muito bacana.

Minha estreia pelo profissional foi em 1992, contra o Corinthians, no Morumbi, depois que o Gilmar foi expulso no 2º tempo. A partida estava 2 a 2, e eu tive que entrar sem aquecer nem nada. O estádio estava lotado, e o Corinthians veio com tudo para cima. Fiz duas defesaças e a gente segurou o empate com um a menos. Foi emocionante demais.

Depois que o Gilmar saiu, o Flamengo foi contratando... Trouxe o Paulo César, da Portuguesa, o Sérgio, do Palmeiras, e outros. Eles gostavam de mim, mas eu sempre ficava na reserva e ouvia que eu ainda era muito novo.

Em 1994, fui emprestado ao Vitória para jogar no lugar do Dida, que tinha ido para o Cruzeiro. Foi mais para pegar experiência, mas fizemos um ano muito bom, pois o Vitória tinha um timaço.

Voltei ao Flamengo em 1995, no time do 'melhor ataque do mundo', com Romário, Sávio e Edmundo. De cara, o Vanderlei Luxemburgo me colocou como titular.

Eu falo que, naquela final contra o Fluminense do Carioca, eu nunca tomei o famoso gol de barriga do Renato Gaúcho, porque na súmula está que o gol foi do Aílton (risos). Toda data redonda do gol de barriga me chamam para fazer gravação e eu falo que não vou, porque não levei o gol de barriga (risos).

Aquele time era uma briga de egos...Ainda bem que tinha o Mancuso, porque o gringo era meio doido e colocava ordem. Depois, ainda chegou o Ronaldão, que era craque e tinha moral pra caramba, porque tinha sido campeão de tudo no São Paulo e na seleção brasileira.

Só que o Flamengo foi contratando totalmente sem critério. Eles pensavam: 'Vamos trazer todo mundo pra chamar torcida'. Por isso o clube fez essa dívida monstruosa que tinha até tempos atrás. Simplesmente não existia composição de elenco, era contratar por contratar.

E nesse processo de contratações uma atrás da outra, o Flamengo não valorizou a turma da base que surgiu comigo: Marcelinho Carioca, Djalminha, Paulo Nunes, Júnior Baiano, Nélio, Marquinhos... Todos fizeram um sucesso enorme fora da Gávea depois. E boa parte deles deixou o clube depois de brigarem com esses 'medalhões' mais velhos que foram contratados.

Em 1996, mudou bastante coisa, e para mim foi muito marcante, porque fui campeão carioca invicto, depois de tudo o que passamos em 1995.

Depois do gol de barriga do Renato Gaúcho, por eu ser o mais novo do time, tudo era o extremo comigo. Eu não tinha maturidade alguma, e, depois da derrota para o Flumiense, fui o último a ir embora do Maracanã, porque achei que minha carreira tinha acabado ali.

Mas aquele jogo me mostrou que, no futebol, é possível você se recuperar muito rápido.

A SAÍDA DO FLAMENGO

Depois que ganhei o Carioca, teve um jogo contra o Guarani, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro, e eu senti o adutor. Fui substituído e entrou o Zé Carlos.

O Dr. Runco falou para me pouparem na Supercopa, de forma que eu pudesse voltar tranquilo para o jogo do final de semana.

Quando voltou da viagem, o Fábio Noronha me falou: 'Roger, você viu a sacanagem que fizeram contigo? O Zé Carlos ganhou a camisa 1, você é o 12 e eu sou o 22'. Eu pensei que não era possível. Aí chegou no coletivo de sexta e o (técnico) Júnior me comunicou: 'O Zé Carlos é um goleiro da minha confiança e ele será o titular. Você é novo e terá muito tempo ainda'.

Eu fiquei doido. Tinha sido campeão e estava bem! Ai disse que não jogaria mais no Flamengo.

Hoje é algo que eu não faria, porque foi meio que uma indisciplina. Mas, na época, foi isso que aconteceu. Falei com o Paulo Angioni, que era supervisor do time, que eu não iria para o jogo ficar no banco. Ele me mandou esfriar a cabeça e seguir.

Quando virou o ano, ficaram sabendo que eu estava insatisfeito e recebi três propostas: uma da Inter de Limeira, uma do Internacional e uma do São Paulo.

O Angioni me disse que eu seria titular na Inter e no Inter, mas seria reserva do Rogério Ceni no São Paulo. Eles queriam me emprestar por seis meses, e eu voltaria depois que o Zé Carlos saísse. Mas eu não queria mais ficar no Flamengo. Aí fui liberado para ir para o São Paulo por empréstimo, com passe fixado.

OS (MUITOS) ANOS DE SÃO PAULO

Fiquei seis meses puto com o Rogério, porque ele não me deixava jogar de jeito nenhum (risos)!

Eu estava doido para mostrar serviço. Até que, um mês antes do meu contrato acabar, fomos para a Copa dos Campeões de 1997, e o Rogério se machucou e não foi.

Fiz minha estreia contra o Santos, que estava com o Luxemburgo de técnico e tinha um timaço. O Bordon foi expulso e eu fiz o melhor jogo da minha vida. Peguei tudo!

Depois da partida, recebi muitos elogios, até dos adversários. Aí, no fim do jogo, o (preparador de goleiros) Roberto Rojas procurou a diretoria e disse para depositarem logo o dinheiro na compra do Flamengo e me comprarem. Era tudo o que eu queria!

Naquele ano, eu joguei a final da Supercopa da Libertadores, contra o River Plate, e peguei um pênalti do Enzo Francescoli!

Infelizmente, a gente foi 'garfado' naquela final, anularam um gol legítimo nosso. Mas fui um dos melhores em campo nesse jogo.

Fiquei quase 10 anos no São Paulo e vivi grandes momentos. Sou o único reserva do Rogério Ceni que disputou três finais e venceu dois títulos (risos)! Ganhei o Rio-São Paulo de 2001, na estreia do Kaká, e o Supercampeonato Paulista de 2002. E só perdi a Supercopa da Libertadores porque fomos roubados.

Sempre tive uma relação muito boa com o Rogério. A gente tinha os mesmos gostos para músicas, revistas, livros...

Eu sou um ano mais velho do que ele. A gente conversava demais, que é uma coisa que ninguém sabe. A confiança e a amizade eram tão grandes entre a gente que, quando ele achava que tinha falhado, ele vinha conversar comigo antes do treinador e antes até de falar com o treinador. Ele sabia que minhas críticas eram construtivas e não tinham 'trairagem'.

Foi por isso que fiquei quase 10 anos no São Paulo. Era uma relação de respeito e amizade muito bacanas.

O POLÊMICO ENSAIO NU

Em 1999, todo mundo sabe que recebi uma proposta para posar nu para a G Magazine e aceitei. Só que a situação critou um puta mal-entendido, e o Paulo César Carpegiani, que era o técnico do São Paulo na época, foi infeliz demais comigo, porque ele se precipitou.

Na época, o Vampeta e o Dinei já tinham posado. Eu fui o 3º jogador de futebol a topar. Todo mundo sabia que eu estava negociando e ficavam brincando muito comigo, mas numa boa.

Aí um dia fui conversar com o Carpegiani e ele me falou: 'Posso te pedir uma coisa? Tenta adiar essa revista de setembro (de 1999) para janeiro (de 2000), porque eu assinei um pré-contrato com o Flamengo e vou pra lá'. Eu falei que já tinha assinado o contrato e feito as fotos, e que precisaria pedir para o diretor da revista.

Estava tudo caminhando para adiar, mas, depois de um jogo, um repórter perguntou sobre a revista na coletiva, e o Carpegiani falou: 'Já conversei com o Roger hoje de manhã. Falei para ele que, se a revista for para a banca, ele não é mais jogador do São Paulo'.

Deu aquela baita repercussão e polêmica, e uns 10 repórteres foram para a porta da minha casa para saber o que ia acontecer. Liguei para o diretor da revista para pedir novamente para adiar, e ele me falou: 'Roger, se a gente pudesse, soltava a revista hoje! O que a gente mais queria era uma polêmica!'

Chamei o Carpegiani e falei que não ia dar pra adiar. Ele me disse, então, que não podia recuar no que ele tinha falado na coletiva...

Conversei com meu advogado, que me explicou que, no meu contrato, nada me impedir da fazer as fotos, e que, se eu fosse mandado embora pelo São Paulo, iria receber R$ 10 milhões. Isso me acalmou.

O São Paulo, sabendo disso, se esquivou. Disse que não tinha nada a ver com a briga do Carpegiani comigo e que eu seguia como jogador do clube, com o treinador tendo a opção de querer ou não contar comigo.

O Carpegiani me chamou e disse: 'Vou te colocar treinando 20 dias em separado e depois te reintegro ao elenco, mas não posso recuar na minha fala'. Mas eu não concordei, porque não tinha cometido nenhum ato de indisciplina. Nada no meu contrato me impedir de fazer aquelas fotos.

Só que toda essa situação começou a trazer um mal-estar para o Carpegiani, para mim e para o grupo. Estava fazendo mal para todo mundo.

O presidente do São Paulo me chamou e disse que ia resolver a situação. Fui emprestado para o Vitória até janeiro de 2000, e depois eu voltaria quando o Carpegiani saísse. Fui para lá mais para evitar a polêmica, mesmo.

Infelizmente, me machuquei na estreia pelo Vitória e fiquei sem jogar por um bom tempo. No segundo semestre, fui jogar o Brasileiro pela Portuguesa, e fiz um campeonato muito bom.

Recebi, então, propostas de vários clubes. Mas eu sabia da minha importância no São Paulo, tanto dentro quanto fora de campo. É só lembrar que eu fui capitão do time na ausência do Rogério. Isso é um privilégio para poucos!

Permaneci no São Paulo por bastante tempo ainda, e vivemos um grande ano em 2005, quando participei das conquistas do Paulista e da Libertadores.

A Libertadores foi mais importante no clube do que o Mundial. A gente tinha perdido em 2004 para o Once Caldas e foi uma frustração enorme, porque a equipe estava arrumadinha e jogando bem. Fomos eliminados por um time sem expressão, e aquilo machucou a gente, mesmo com o Once Caldas tendo sido campeão depois.

Por isso, entramos em 2005 querendo a Libertadores de qualquer jeito. Era uma fissura! Quando ganhamos, foi a sensação do dever cumprido. Pagamos nossa dívida com a torcida e com a gente mesmo.

PASSAGENS POR SANTOS E BOTAFOGO

Minha saída do São Paulo em magooou muito... Não valorizaram a história que eu construí no clube.

Eu recebi uma proposta de três anos do Santos, com luvas e aumento de salário. Eu podia assinar um pré-contrato, mas fui falar com a diretoria do São Paulo antes, porque queria ficar.

Perguntei a eles o que poderia ser feito, e me disseram que só conversariam depois do Mundial de Clubes. Só que o Santos não podia esperar.

Pedi para resolver o quanto antes com o São Paulo. Abri mão de receber luvas e só queria o reajuste e um contrato de três anos. O salário eles toparam, mas ofereceram contrato só de um ano. Tentei pedir ainda pelo menos dois anos, mas eles não quiseram...

Na época, eu fiquei bem magoado, e fiquei em dúvida se deveria ter ficado, porque seria campeão mundial. Mas depois eu vi que estava certo. Na época eu estava com 33 anos, e não poderia trocar a estabilidade de um contrato de três anos por um contrato de um ano. E além de tudo: num clube gigante como o Santos.

Infelizmente, dei muito azar... Cheguei ao Santos e, pouco tempo depois, precisei operar a hérnia de disco. Fiquei um bom tempo me recuperando.

Voltei em 2007 e aí fiz uma série boa, estava bem no Santos, quando o Fábio Costa foi afastado para não fazer o 7º jogo no Brasileiro. Só que o Botafogo estava precisando de goleiro, e eles tinham montado um time muito bom. O Luxemburgo me chamou e disse que, antes de um ano, eu não poderia sair do Santos. Mas o Cuca, que tinha sido meu técnico no São Paulo, me ligou e disse: 'Quero você aqui, e eu, se fosse você, viria, porque aqui você será titular'. E eu fui.

Novamente, dei azar...

Na minha estreia pelo Botafogo, no último lance do jogo, tive um problema grave no ombro e ia ter que operar. Ainda tentei voltar a jogar, mas estava com muita dor e tendo que fazer um sacrifício enorme. Decidi encerrar a carreira. Já tinha passado por isso um ano antes e não queria passar por isso de novo. Estava jogando bem e tinha vindo para o Rio a pedido de um cara que me conhecia, mas vi que não dava mais e optei por encerrar.

Depois disso, eu tinha sonho de ser político, pois meu avô foi vereador e meu tio foi prefeito. Encerrei a carreira e virei verador em Cantagalo-RJ, cidade onde nasci. Fiz carreira política e fui 2º colocado na eleição para prefeito, em 2012.

A política me decepcionou muito, porque eu era da oposição ao prefeito. Achei tudo muito sujo. A grande maioria dos que estão lá não querem nem saber da população, só querem se perpetuar no poder.

Aí, fui trabalhar como comentarista na Rádio 94,3 FM, e hoje trabalho no programa 'Boleiros na Resenha', que é um talk show no YouTube. É bem divertido e a gente conversa muito sobre a vida dos jogadores. Já recebemos Josué, Falcão, Richarlyson, Aloísio Chulapa, Cicinho, Mancuso... É um sucesso!