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Cuiabá x Grêmio: Renato encara legado que melhor parceiro de campo e vida deixou: 'Eles tinham um amor de irmão'

Ao entrar na Arena Pantanal para o primeiro jogo das quartas de final da Copa do Brasil, Renato Gaúcho, técnico do Grêmio, verá o ápice da criação de um dos seus melhores amigos no mundo do futebol. Seu adversário, o Cuiabá, foi fundado pelo ex-centroavante Luís Carlos Tóffoli, o Gaúcho, seu grande parceiro no Flamengo - dentro de campo e nas baladas cariocas - entre o fim dos anos 80 e começo dos 90.

A sintonia entre os atacantes era tão grande que dava trabalho não apenas para as defesas adversárias.

"Quando o Renato vinha de folga, meu Jesus! Eu tinha medo dos dois (risos)", contou a atriz Inês Galvão, viúva de Gaúcho, ao ESPN.com.br.

Os amigos venceram juntos a Copa do Brasil de 1990 pelo time rubro-negro ao derrotarem o Goiás na decisão.

“Eles tinham um entrosamento tão grande que um olhava e já sabia o que o outro queria. E não tinha aquela de ‘eu quero fazer o gol’. Quando um estava em melhor condição, dava a bola para o outro. Eles queriam era festejar”, lembra.

Gaúcho gostava de comemorar pelas ruas do Rio de Janero com um luxuoso e tecnológico Mitsubishi zero quilômetro, batizado como “Mitsugirl”.

Os causos e polêmicas

Depois de não renovar contrato com o Flamengo, Renato foi para o Botafogo e passou pelo Grêmio, antes de voltar a General Severiano.

A equipe alvinegra chegou à final do Brasileiro de 1992 justamente contra o Flamengo. Após a vitória rubro-negra no primeiro jogo por 3 a 0, Gaúcho foi a um churrasco na casa de Renato – com direito a cerveja gelada – e foi servido com carne na boca pelo amigo. O flamenguista ainda tirou um sarro de como sua equipe atropelou o rival.

“Eles apostaram, e o Gaúcho levou um monte de amigos dele de Goiânia para lá”, recordou a atriz.

O encontro, registrado em uma hilária reportagem da TV Globo, causou uma enorme polêmica, que culminou com o afastamento do botafoguense pela diretoria. O Flamengo terminou campeão brasileiro com Gaúcho como um dos principais destaques do time.

Em 1994, Renato e Gaúcho se reencontraram na “Selegalo”, time montado em 1994 pelo Atlético-MG com nomes famosos como Neto, Éder Aleixo, Luiz Carlos Winck e Adílson Batista, mas os resultados dentro de campo foram frustrantes. O time perdeu o Mineiro para o Cruzeiro, campeão invicto, e começou muito mal o Brasileiro. Fora das quatro linhas, os craques aproveitaram bem a noite de Belo Horizonte.

“O apelido deles era 'os cavaleiros do apocalipse'. Eles tocavam o terror. Eu estava grávida e morava no Rio. O que eu recebia de telefonema de mulher dizendo que estava noiva dele, que ia tomar o nenê para morar com ela. Não era fácil. Não tinha como dar certo (risos)”, disse Inês.

Renato ainda atuou no Fluminense, onde virou ídolo depois do gol de barriga na final do Carioca de 95 sobre o Flamengo de Romário, Sávio e Edmundo.

Após jogar o Estadual pela Ponte Preta, Gaúcho chegou ao clube das Laranjeiras e jogou ao lado do amigo pela última vez na semifinal do Brasileiro de 1995, quando o Flu caiu para o Santos de Giovanni na derrota por 5 a 2. O atacante entrou no segundo tempo.

Dono de time

Gaúcho ainda passou pelo Anapolina-GO antes de pendurar as chuteiras, em 1996. Apaixonado por pescaria nos rios de Mato Grosso, ele resolveu abrir uma escolinha de futebol em 2001 e depois montou o Cuiabá Esporte Cube, um clube-empresa. O ex-atacante escolheu o peixe dourado como mascote, que é um símbolo da região do Pantanal, e as cores verde e amarela. Além disso, ele teve participação na composição do hino oficial.

“Ele dizia que gostaria de vir na próxima encarnação como cantor, mas o Gaúcho não cantava bem (risos). Só sabia tocar e cantar ‘Vida Cigana’, do Raça Negra”, contou Inês.

Ele permaneceu no projeto até 2006, quando vendeu para os irmãos Dresch, que cuidam do clube até hoje. Depois, ele foi treinador de Mixto e Luverdense (2011).

Renato trilhou uma carreira de sucesso como treinador em clubes como Vasco, Fluminense e Grêmio.

Os últimos capítulos da amizade

Por volta de 2008, Gaúcho descobriu que tinha um câncer de próstata. Nos primeiros anos, o tratamento deu certo, mas, por causa dos efeitos colaterais (ganho de peso, diabetes, entre outros), o ex-jogador foi buscar curas alternativas em um médico no Paraguai. O tratamento, porém, só fez a situação do ex-jogador piorar, que acabou desenvolvendo uma metástase.

“A amizade deles continuou muito grande e eles conversavam sempre. Nas férias, a gente ia para o Rio e o Gaúcho ficava hospedado na casa do Renato. Eles iam tomar chopp e jogar na praia”, recordou Inês.

Em 2013, Gaúcho mudou-se com a família para Goiânia com o objeivo de cuidar de sua fazenda, mas depois resolveu ir ao Rio de Janeiro, no fim de 2014.

“Ele ficou muito triste e resolvemos voltar porque tínhamos muitos amigos aqui. O Luizão, Djalminha, Paulo Nunes, Uidemar... Foi um ano que ele curtiu muito”.

Passou a conviver novamente com o amigo Renato e a jogar futevôlei regularmente na praia em Ipanema.

“Algumas vezes eles brigavam e ficavam emburradinhos. Era tão engraçado. O Renato colocava a cadeira bem de frente para o Gaúcho e ficava de costas, um dando indireta para o outro. Eu falava: ‘Vocês parecem duas crianças (risos)’”, disse.

Ao saber da situação de Gaúcho, Renato conversou muito com o parceiro e procurou médicos especialistas para tentar ajudá-lo, mas era tarde demais. O câncer tinha se espalhado por outros órgãos.

Ele se sentia o pai

Gaúcho morreu em 2016, sem ver o sucesso do clube que fundou e dirigiu. Com o atraso no inventário, Renato emprestou dinheiro para Inês fazer a peça de teatro “Verborrágica”, em 2018, que marcou a volta da atriz aos palcos.

“Ele ficou arrasado quando o Gaúcho morreu e sempre demonstrou preocupação com as nossas filhas gêmeas menores, que ainda eram crianças. Eles tinham um amor de irmão, era muito bonito”, disse.

“Eu ainda quero pagá-lo assim que sair o dinheiro do inventário, mas ele sempre foge quando vou falar do dinheiro”, contou Inês.

Após a morte de Gaúcho, o Cuiabá conquistou mais taças estaduais, faturou a Copa Verde, subiu da Série D para a Série B do Brasileiro - está na briga pelo acesso para a elite nacional - e se classificou para as quartas de final da Copa do Brasil, contra o Grêmio.

“Ele estaria nas nuvens porque tinha muito orgulho e se sentia o pai do Cuiabá. E eu sou a mãe porque quando o Cuiabá começou eu lavava as roupas dos jogadores em casa e quando faltava alguma cozinheira eu cheguei a ir ao alojamento para fazer comida”, contou Inês.

“Com certeza iria acontecer alguma aposta entre o Gaúcho e o Renato nesse jogo. Tudo eles apostavam, até nas mínimas coisas (risos)”, finalizou a atriz.