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Ex-lateral mais cobiçado do Brasil relembra tempos de Palmeiras: 'Não perdi nenhuma para o Neymar'

Nesta sexta-feira (15), o Palmeiras recebe o Goiás, às 21h30 (de Brasília), no Allianz Parque, pela 22ª rodada do Campeonato Brasileiro.

Nos anos 2000, o clube paulista contratou diversos jogadores que brilharam com a camisa da equipe goiana, como o lateral/meia Paulo Baier e os atacantes Erik e Carlos Eduardo, entre muitos outros.

Uma das negociações mais complicadas dos palestrinos, porém, foi a realizada no início de 2010 para trazer o lateral-direito Vítor, que à época estava arrebentando e era um dos atletas mais cobiçados do cenário nacional.

Treze anos depois de sua passagem pelo Alviverde, Vítor concedeu entrevista à ESPN e relembrou passagens de sua vida e carreira.

Atualmente em início de carreira de treinador, ele também exaltou sua incrível marca de invencibilidade contra um dos maiores jogadores da história do Brasil: o atacante Neymar.

Ele trabalhou na roça e não fez base

Nascido na cidade de Delmiro Gouveia, no interior de Alagoas, Vítor sonhava em ser jogador de futebol desde criança. Antes de conseguir sua primeira chance como atleta profissional, porém, ele ajudou sua família trabalhando na roça.

"Desde criança eu queria ser jogador, mas convivia com uma realidade bem diferente disso, porque nasci e cresci no Sertão de Alagoas. Eu trabalhava na roça, plantando milho com a família, e todos os meus irmãos jogavam bola. Meu irmão mais velho conseguiu virar jogador profissional, e meu sonho aumentou ainda mais depois disso", contou.

"Fiz testes no Sport, no Recife, mas não fui chamado para voltar depois e ficar no alojamento. Acabei voltando para casa e conciliava a escola com o trabalho na roça. Cheguei a vir para São Paulo fazer testes no Paulista de Jundiaí, mas depois apareceu uma chance no Crac, de Goiás, em 2002", relembrou.

"Eu pensei que seria uma avaliação no sub-20, mas o teste foi direto para o profissional. E eu não fiz categoria de base! Só treinava em escolinhas, mas, ainda assim, fui aprovado e virei reforço no sub-20 e no time adulto do Crac, jogava ao mesmo tempo no profissional e nos juniores", recordou.

A estreia de Vitor como jogador profissional, porém, não foi como ele esperava.

"Eu consegui chegar a um time no meu último ano que podia virar profissional. Era minha última chance! Aí chegou o dia da minha estreia... E eu fiz um gol contra (risos)!", gargalhou.

"A gente estava vencendo o jogo, eu fui afastar de cabeça e a bola entrou no nosso gol, em um jogo contra o Santa Helena. Acabou 1 a 1, e a gente acabou rebaixado depois para a 2ª divisão. Eu sonhava tanto em ser jogador, consigo fazer a estreia e passo por isso (risos). A verdade é que minha carreira poderia ter acabado ali", admitiu.

"Mas eu tinha um contrato longo com o Crac. Acabei descendo para jogar no sub-20 e passei a atuar como meia-atacante. Em nove jogos, fiz 10 gols e o pessoal do clube pegou carinho por mim. No ano seguinte, voltei para o profissional. Fomos campeões da 2ª divisão goiana e joguei muito bem", relembrou.

Na sequência, Vítor foi se firmando cada vez mais até virar um dos destaques do futebol goiano.

"O técnico o Crac foi para o Carajás e me chamou para jogar o Paraense. Depois disso, passei pelo Castanhal e fomos campeões da divisão de acesso. Na sequência, retornei ao Crac e fomos campeões do Goiano em 2004. Na semifinal, pegamos o Goiás e ganhamos por 3 a 0 em casa. Depois, perdemos no Serra Dourada, mas passamos nos pênaltis. Na final, perdemos a primeira para o Vila Nova, depois ganhamos a partida de volta e levamos o título nos pênaltis", celebrou.

"E olha que loucura: na sequência, em fui emprestado para jogar a 2ª divisão goiana de 2004 e fui campeão! Ganhei dois Goianos no mesmo ano (risos). Na sequência, voltei a Crac para jogar a Série C e aí minha vida começou a mudar", relatou.

A grande mudança aconteceu em 2005, quando ele despertou a cobiça do Goiás, que estava montando um dos melhores times de sua história.

"No primeiro jogo do Goiano, pegamos o Goiânia na Serrinha e eu me destaquei demais. Foi a partida que mudou a minha vida, porque todo mundo da diretoria do Goiás estava no estádio e viu esse jogo. Depois de umas quatro partidas do Estadual, eles pediram minha contratação. Então, cheguei ao Goiás para a disputar do Brasileirão", rememorou.

Bola de Prata no Cerrado

Vítor chegou ao Goiás e encontrou uma verdadeira "seleção" no Serra Dourada.

"Nosso time era muito bom! Com o Geninho de técnico, fizemos a melhor campanha da história do clube em Brasileiros, terminando em 3º lugar. Eu não joguei tanto, porque o Paulo Baier era o titular absoluto da lateral e foi um dos destaques da Série A, mas eu era o reserva direto. Quando consegui jogar, me destaquei também", ressaltou o ex-atleta, que registrou 13 partidas e 1 gol marcado, contra o Vasco, em São Januário.

"Em 2006, o Paulo Baier foi vendido para o Palmeiras e aí eu me firmei de vez como titular. No primeiro semestre, tive altos e baixos, mas depois melhorei e deslanchei", afirmou o jogador, que teve também a chance de disputar a primeira CONMEBOL Libertadores de sua carreira.

"Pude jogar a Libertadores toda na primeira fase. Nos mata-matas, não joguei a partida de ida contra o Estudiantes e perdemos na Argentina por 2 a 0. Fiquei treinando forte e, no jogo de volta, o Geninho me colocou para a gente pressionar. No 2º tempo, eu fiz um gol, e isso mudou minha trajetória no clube. Ganhamos por 3 a 1 e acabamos eliminados pelo gol fora de casa, mas, depois dessa partida, virei titular absoluto e joguei todas as partidas", disse.

Após se destacar no Brasileirão, Vítor começou a despertar a cobiça dos maiores clubes do país. No entanto, o Goiás tinha um contrato bem amarrado com o lateral e deixava claro que não abriria mão tão fácil de seu destaque.

"Quando acabou o ano, vieram quase todos os times grandes atrás de mim, mas o Goiás não queria me vender, porque as propostas não foram interessantes para o clube em termos financeiros. Para mim, era difícil, e eu sabia que tinha que ter cabeça boa", salientou.

"Era um momento em que eu podia mudar a minha vida, porque já vi muito jogador não ser negociado, depois cair de rendimento no clube atuar e ficar sem nada. Em alguns casos, o time até desiste do cara e ele é mandado embora. Mas eu era tranquilo, sabia que uma hora ia dar tudo certo para mim", observou.

Na temporada seguinte, porém, quase o pesadelo de Vítor se materializou.

"2007 foi um ano muito conturbado... Perdemos o Estadual, caímos na Copa do Brasil e por pouco não fomos rebaixados no Brasileiro. Acabamos nos salvando naquele jogo histórico contra o Inter, que, indiretamente, acabou rebaixando o Corinthians", lembrou.

"Eu sofri o pênalti no final do jogo. O Paulo Baier era o batedor oficial e errou duas vezes, mas o juiz mandou voltar porque o Clêmer estava se adiantando. Aí, o Elson bateu, fez o gol e a gente se salvou", exaltou.

Tudo mudou na virada do ano, quando o lateral explodiu e virou o grande nome do Campeonato Brasileiro.

"2008 foi meu auge. Foi onde tudo se abriu para mim. Eu me destaquei de um jeito que chegavam propostas cada vez melhores, mas o Goiás segurava e não me vendia. Eles renovaram meu contrato, aumentarem meu salário e eu fiquei mais um ano. Quase fui para o Internacional, que foi quem chegou mais perto de me levar. A proposta era uma troca por alguns atletas e mais uma quantia em dinheiro. Os jogadores até vieram, mas o Goiás bateu o pé e não me liberou", revelou.

Na Série A, Vítor foi, de longe, o melhor lateral-direito e ganhou o prestigioso prêmio "Bola de Prata", que à época era dado pela revista Placar e atualmente está sob a batuta da ESPN.

"Eu venci a 'Bola de Prata' e foi algo sensacional. Eu lembro que ia acompanhando as notas a cada rodada e cheguei com uma boa vantagem na última partida. Deu tudo certo e levei o prêmio, que guardo com muito carinho em minha casa", celebrou.

O lateral mais cobiçado do Brasil

Depois do ótimo Brasileirão-2008, foi ficando cada vez mais complicado para o Goiás segurar Vítor no elenco.

"O pessoal do Goiás não queria me vender de jeito nenhum, e eu também gostava muito de Goiânia. Tenho muitos amigos lá, aí resolvi ficar para 2008. Aumentaram minha multa e meu salário. Ganhamos o Goiano em 2009 e ficamos brigando pelas primeiras colocações na Série A", rememorou.

"Nosso time era bem bom. Tinha Iarley, Fernandão, Rafael Tolói, Ernando, Amaral, Júlio César, Douglas... O primeiro turno foi ótimo, mas o segundo, infelizmente, não foi tão bom", relatou.

As propostas chegavam a todo momento, e as partes decidiram que, em 2010, seria o ano de Vítor deixar o Serra Dourada.

Ainda mais depois da "pintura" que ele fez na reta final do Brasileirão-2009...

"Todo final de temporada eu recebia um monte de propostas (risos). Quando chegou 2009, o São Paulo estava brigando pelo título e, na penúltima rodada, eu fiz um dos gols mais bonitos da minha vida, batendo na gaveta do Rogério Ceni. Depois disso, o assédio aumentou ainda mais. Quando virou para 2010, eu recebia, sem exagero, propostas todos os dias de clubes diferentes", contou.

Conforme o tempo foi passando, dois gigantes ficaram no páreo para fechar com o ala: o Palmeiras e o Internacional.

As ofertas, porém, eram bem diferentes para o Goiás, e Vítor acabou elegendo a melhor proposta para o Esmeraldino, até por sua gratidão pela equipe goiana.

"O Inter brigou com o Palmeiras até o final pela minha contratação, mas eles queriam que eu saísse de graça ao final do meu contrato com o Goiás. Fiquei bastante tempo conversando com os dois clubes, e, no final, cheguei à conclusão de que o certo seria sair para o Palmeiras, de forma que o Goiás recebesse um retorno financeiro", argumentou.

"O Palmeiras deu ao Goiás três jogadores, o (atacante) Daniel Lovinho, o (volante) Wendel e o (meia) Deyvid Sacconi na minha troca, mais uma quantia em dinheiro. No caso do Inter, não teria isso. Então, fui para o Palmeiras", revelou.

Em São Paulo, tudo mudaria para o alagoano, em todos os sentidos.

Os tempos de Palmeiras

Chegar ao Palmeiras foi a realização de um sonho para o lateral-direito. No entanto, ele viu que sua vira seria muito diferente a partir dali.

"Quando cheguei a São Paulo, tive muitas dificuldades para me adaptar. Só conhecia o pessoal de ver pela TV (risos). Eu era muito tímido, e isso me atrapalhou demais no dia-a-dia. Eu não conseguia me aproximar dos caras. O (volante) Márcio Araújo foi quem me ajudou demais nessa época, ficamos bem amigos", disse.

"Tudo em São Paulo era muito diferente de Goiânia... Frio, trânsito, aquela loucura! Mesmo assim, foi muito bacana. O Palmeiras era uma potência. A estrutura da Academia de Futebol não era como de hoje, mas já era boa. O clube tinha alguns problemas na época, às vezes atrasava salários. Mas eu não estava nem aí, pois sempre sonhei jogar em time grande", ressaltou.

"Quando eu era menino, fiz jogos amistosos contra o Palmeiras e, quando ia enfrentá-los, ficava pensando: 'Meu Deus, esses caras jogam no Palmeiras!'. Então, chegar lá foi mais um sonho que consegui realizar. Sei que deixei a desejar, pois não tive as mesmas atuações do tempo de Goiás, mas também sei que fiz por merecer a chance de jogar numa equipe como o Palmeiras. Foi um privilégio", emocionou-se.

A contratação de Vítor foi um pedido do técnico Antônio Carlos Zago, que havia assumido o Palmeiras no começo de 2010.

Zago, porém, durou pouco no Palestra Itália, e a troca de treinador acabou minando as chances de Vítor no novo clube.

"A diretoria e o Zago me contrataram. Cheguei em março de 2010 e fique 40 dias treinando antes do Brasileirão, porque eu não podia jogar a Copa do Brasil e nem o Paulistão, pois tinha acabado o prazo de inscrição. O Zago confiava muito em mim, mas ele foi demitido. Eu tinha jogado contra o Vitória e fui bem, depois empatamos com o Vasco e fui bem também. Mas aí chegou o Felipão, que estava fora do Brasil e acho que não me conhecia tão bem", analisou.

"Eu até fiz alguns bons jogos com o Felipão, mas sentia que ele não confiava 100% em mim, como era com o Zago. Quando tive uma sequência com ele, eu machuquei, aí quando voltei o time já estava entrosado com o Márcio jogando de lateral-direito. Aí eu jogava no Brasileiro, que não tinha mais objetivo, e os titulares atuavam na Sul-Americana, em que caímos na semifinal do Goiás. Hoje, analisando tudo, talvez eu não tenha demonstrado o suficiente para o Felipão confiar tanto em mim", analisou.

Dos tempos de Palestra Itália, o ala também guarda com carinho o fato de ter dividido o vestiário com vários atletas renomados.

"Nossa equipe de 2010 era muito forte no papel. Tinha Marcos, Diego Souza, Cleiton Xavier, Pierre, Marcos Assunção, Lincoln, Armero... Era um time bom, mas que não encaixou", salientou.

"Era tanta estrela que eu lembro até hoje de um jogador que foi contratado e, quando chegou no vestiário, foi tocar no braço do Marcão para ver se ele era de verdade (risos). Era muita resenha, uma galera muito gente boa", sorriu.

Marcando Neymar e os causos para os mais novos

Durante sua passagem pelo Palmeiras, apesar dos altos e baixos de todo o elenco, Vítor conseguiu uma importante estatística: não perdeu nenhuma partida para o Santos de Neymar, que era um dos times mais fortes do país naquele período.

O ala, inclusive, se destacou bastante na marcação do craque, algo que ele usa atualmente para conquistar o respeito de seus comandados mais jovens em sua carreira de treinador.

"Era bem difícil marcar o Neymar, porque ele jogava aberto pela esquerda e eu era o responsável por tentar parar. Lembro que, em 2010, pelo Brasileiro, joguei com a coxa lesionada, mas tratei a semana toda porque não queria ficar fora de jeito nenhum. E olha que ainda me 'cornetaram' porque eu fiquei o jogo inteiro perseguindo ele e não consegui atacar. Ainda acertei uma bomba na trave! (risos)", gargalhou.

"Tive vários duelos bons com o Neymar e não perdi nenhuma para ele. Ganhei um jogo por 2 a 1 e empatamos o outro por 1 a 1, na Vila Belmiro. Ele era muito rápido e improvisava demais, era totalmente imprevisível o movimento que ele ia fazer e a decisão que ia tomar", elogiou.

"Eu brinco até hoje com meus alunos falando: 'Vítor não perdia para o Neymar' (risos). Gosto de contar isso pra eles, porque você ganha mais rápido o respeito dos moleques (risos)", divertiu-se.

Vítor deixou o Palmeiras após o Paulista de 2011, indo por empréstimo para o Sport. Nos anos seguintes, foi novamente emprestado ao Cruzeiro e ao Goiás, retornando posteriormente ao Esmeraldino em definitivo.

Na sequência da carreira, jogou mais uma vez no Sport e passou bem pelo Santa Cruz antes de se aposentar, em 2019, pelo Aparecida, de Goiás.

"Parei com 37 anos. Vi que não dava mais para jogar depois que passei pelo meu último clube. Ainda bato minha bolinha em torneio de másters em Goiás. Até me fizeram proposta recentemente para jogar profissional de novo, no Campeonato Goiano, mas não aceitei. Tentaram me convencer, mas não dá mais, não (risos)", brincou.

Agora, o ex-lateral mais cobiçado do Brasil busca trilhar um novo caminho como treinador.

"Logo depois que parei, virei auxiliar do Goiânia, trabalhando com três técnicos do clube. Fui treinador do sub-20 e do profissional na 2ª divisão. Hoje, sou treinador de profissão, e até o meio do ano trabalhei como auxiliar no Bela Vista e como comandante da base. No momento, estou parado e esperando uma oportunidade", contou.

O olho de Vítor para o futebol, aliás, segue apurado, como ele mostrou em sua análise sobre o Palmeiras atual e os laterais-direitos no geral no futebol brasileiro.

"Eu sempre gostei muito do estilo do Cafu. No Palmeiras, acho que os laterais se completam. Tanto é que o Abel coloca o Marcos Rocha e o Mayke para jogarem juntos muitas vezes, porque os caras são muito bons", exaltou.

"No Brasil, tem o Fagner também há muito tempo jogando bem, gosto demais dele Mas vejo que, em times grandes e na posição, ainda é uma posição muito carente", finalizou.

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