<
>

O brasileiro que foi ídolo cult na Premier League e tem algo a dizer sobre Pochettino: 'Bom técnico; como pessoa, deixou a desejar'

Guly do Prado jogou quatro temporadas pelo Southampton e recebe até hoje mensagens de torcedores


Se hoje os jogadores brasileiros são "figurinhas carimbadas" na Premier League, por muitos anos houve poucos "brazucas" que conseguiram se firmar na liga mais forte do mundo. Um dos que alcançou essa façanha foi Guilherme do Prado Raymundo, mais conhecido como Guly do Prado.

Revelado pela Portuguesa Santista, ele saiu do Brasil muito cedo para jogar na Europa e fez quase toda a sua carreira no "Velho Continente".

Seus melhores anos foram vividos entre 2010 e 2014 com a camisa do Southampton, clube que ajudou a tirar da 3ª divisão inglesa e levar até a Premier League.

"Virei ídolo do time e recebi um carinho como nunca tive na vida. Os torcedores mandavam mensagem pedindo a minha volta até depois que fiquei mais velho", contou Guly, em uma longa entrevista ao ESPN.com.br na qual falou de toda a sua carreira.

Aposentado desde 2019, quando defendeu a camisa da Caldense, o ex-meia-atacante também lembrou seus tempos de trabalho com o técnico Mauricio Pochettino, que também foi diretamente responsável pelos golden years do Southampton.

Ao mesmo tempo em que elogiou os métodos de trabalho do treinador, Guly também desabafou sobre as falhas que o argentino teve com ele em questões pessoais.

"Aprendi muitas coisas com o Pochettino, foi um dos melhores treinadores que tive. Como pessoa, não posso falar muito, porque deixou a desejar em alguns pontos comigo", disparou.

Confira os melhores trechos o entrevistão com Guly do Prado:

O início e a ida para a Itália

Eu sempre joguei futebol desde os seis anos de idade. Comecei na Ponte Preta e joguei muito tempo com meu pai com os veteranos. Fiz teste no Cruzeiro e um monte de times, mas não passava em nenhum. Depois, consegui entrar na Portuguesa Santista e passei no teste. Fizemos um torneio na Itália e gostaram de mim. Depois de um ano, fui para a Itália e fiz a carreira toda na Europa, a partir dos 18 anos.

Joguei no Catania, na Serie B da Itália. O time tinha uma torcida muito calorosa e apaixonada. O começo foi difícil, mas suportei bem.

Na sequência, fui para o Perugia e disputei a Serie A. Fui crescendo muito por trabalhar com os jogadores que treinei. Joguei com o Fabrizio Ravanelli, que me ajudou muito. Tenho muito carinho pelo Eusebio Di Francesco também, éramos companheiros no meio-campo.

Depois, fui para a Fiorentina e conheci vários jogadores top, como Luca Toni, Adrian Mutu e vários outros. Nosso treinador era o Cesare Prandelli, que depois comandou a seleção italiana.

Sofri uma lesão no joelho, operei e não deu muito certo a reabilitação. Mesmo assim, a Fiorentina me contratou em definitivo. Bem quando eu ia estrear, rompi de novo o ligamento. Entrei em depressão, estava gordo e que ia voltar para casa. Mas superei tudo com a minha força de vontade. Fiquei quase dois anos para voltar a jogar bem.

A Fiorentina me ajudou muito nesse período, sou muito grato. Chegamos na Champions League, conheci campeões do mundo e construí uma família na Itália. Tive dois filhos maravilhoso e aprendi a pensar como um italiano. Falo o idioma e conheço os costumes.

Depois, fui emprestado para o Spezia e em seguida fui para o Cesena. Lá, conseguimos acesso para Serie A e foi onde me levantei de vez no futebol. Foi uma passagem muito importante.

Tive propostas da Roma e da Lazio, mas peguei uma pneumonia e acharam que era mentira, que era problema no meu joelho. Isso me magoou muito e quis sair da Itália. Falei para o meu empresário que gostaria de jogar na Inglaterra. E acabou sendo a melhor decisão que tomei.

Os "anos de ouro" no Southampton

Fui para o Southampton para jogar a 3ª divisão inglesa. Meu contrato era só de seis meses. Fiz 14 gols e fui comprado em dezembro. Foi a melhor escolha da minha vida.

Ouvi na Itália que ia ficar escondido, que não seria mais reconhecido e que deveria ter ficado lá. Mas foi tudo maravilhoso na Inglaterra. Eu disse que ia conseguir e mostrar que estavam errados na Itália.

Tivemos acesso nas duas primeira temporadas e depois joguei dois anos de Premier League. Fiquei famoso na Inglaterra, porque na Itália eu não tinha tanto nome.

O Southampton tinha uma estrutura muito boa para uma 3ª divisão. Hoje, é ainda melhor. Nosso time tinha Lallana, Oxlade-Chamberlain, Lambert, Luke Shaw, José Fonte, caras que foram para times grandes depois. Nenhum deles era conhecido ainda, mas a base deles é muito boa, porque revelou Bale e Walcott antes.

O time sempre foi uma academia, famoso por revelar grandes jogadores. Quando querem contratar um cara bom, os grandes clubes da Inglaterra vão direto no Southampton aprender com eles a teoria de trabalho. Eles têm um respeito muito grande à parte física, à alimentação, ao estádio, à grama, à academia. A base lá vem forte, saíram muitos jogadores famosos. E tem surgido muitos novos jogadores, pois o trabalho que é feito lá é diferente.

O que eu vi na equipe eu nunca tinha visto na minha vida. Eram 10 campos para treinador, e hoje está muito acima do que era antes. É um clube de nível como Liverpool e Manchester United, no mesmo parâmetro. Eles tinham um projeto que você segue essa linha e as coisas dão certo. Todo mundo tem seu trablho e as regras. Com a venda de jogadores, o dinheiro aumentou e a estrutura subiu junto. Isso facilitou o trabalho. Você pode morar lá dentro, o CT deles parece uma cidade. Falta muito isso no futebol brasileiro.

Lá, me receberam muito bem e me respeitaram. Eu não conhecia nada da 3ª divisão inglesa. Nem sabia falar inglês, mas treinava muito e queria fazer gols. Nissom fui conquistando os caras.

Na 3ª divisão, nós perdemos nove jogos seguidos e falavam que seria impossível conseguir o acesso para a Championship. Mas conseguimos e todo mundo ficou surpreso na Inglaterra.

O 2º acesso foi uma loucura! O campo estava lotado e todo mundo invadiu depois do jogo, foi uma festa muito linda. Me ligaram até do Brasil! Fazia muito tempo que o time não jogava a Premier League, entãofoi uma festa sensacional. Depois, todo nosso time ganhou uma viagem para Miami!

Virei ídolo no time. O carinho que recebi foi uma coisa que nunca tinha visto na vida. A torcida pedia sempre para que eu voltasse ao Southampton, mesmo quando estava mais velho!

Na 3ª divisão, a gente ia ao shopping e nem éramos reconhecidos. Na Championship, já me reconheciam. Mas quando chegamos na Premier League, eu não podia mais nem sair na rua (risos). Era toda hora parando para tirar foto e dar autógrafo.

Jogar a Premier League foi uma alegria imensa, demorou para cair a ficha. Eu era apenas o 10º brasileiro a jogar a competição! E era o únco que não tinha jogado antes na seleção brasileira!

Meu 1º jogo foi contra o Manchester City e perdemos de virada por 3 a 2. Mas vendemos caro e vimos que tínhamos condição de jogar em alto nível. Nosso 1º ano foi mais complicado, mas no 2º demos mais trabalho e passamos a ser mais respeitados.

Todos os jogos na Premier League são de alto nível, porque tem jogadores absurdos.

Nossos melhores jogos foram o empate em Old Trafford com o Manchester United, no qual o Lovren fez de cabeça quando todos já tinham decretado que iríamos perder. Fomos bem contra o Liverpool, depois Tottenham e Chelsea. Foram momentos inesquecíveis.

Algo a dizer sobre Mauricio Pochettino

Fui treinado pelo Pochettino entre 2013 e 2014 e aprendi muitas coisas com ele. Foi um dos melhores treinadores que já tive. Mas, como pessoa, não posso falar muita coisa boa, porque deixou a desejar comigo em algumas coisas.

Não tenho que falar mal, pois foi um grande treinador. Com ele, nelhorei meu futebol e tudo que aprendi implementei depois. Foi muito importante na minha carreira.

Minha saída do Southampton foi um pouco triste. O Pochettino foi um bom treinador, mas, como pessoa, não foi excelente.

Nunca dei problema para ele, sempre o respeitei. Tive uma conversa com o Pochettino e ele gostou do que eu disse. Mas, na hora que tinha que me ajudar, não me ajudou.

Só faltava um "sim" dele para renovar meu contrato. Ele já sabia que iria embora do Southampton, porque tinha feito um grande campeonato e o Tottenham estava de olho. Então, ele falhou comigo nessa questão. Foi tudo por causa da idade, porque fiquei sabendo depois que ele não gostava de jogadores velhos.

Quando ele chegou no Totenham, inclusive, mandou quase todos os caras mais velhos embora, como o Adebayor e vários grande sjogadores.

Acredito que ele poderia ter sido mais leal comigo.

A reta final de carreira

Quando saí do Southampton, fui jogar no Chicago Fire, dos Estados Unidos. No entanto, não me senti muito bem lá, porque as pessoas não vivem o futebol como eu estava acostumado. Em seguida, voltei para o futebol brasileiro.

Cheguei ao ituano e me tive que fazer testes, porque não me conheciam. Passei e fiquei dois anos jogando como titular em todos jogos bem. Minha intenção era sai para um time de nome no Brasil, porque queria jogar o Brasileirão. Infelizmente, não tive essa oportunidade, porque não me conheciam aqui como na Inglaterra, além da questão da idade. Isso me desanimou e tomei a decisão de parar de jogar.

Tinha vontade de jogar em um Botafogo ou Vasco, porque era sonho de criança. Queria mesmo ter uma oportunidade jogar num Corinthians ou São Paulo, porque tinha certeza que me daria bem. Joguei quatro anos na Inglaterra e seria algo bem natural, mas não tive. Queria ter jogado também na Ponte Preta, que é o time que meu pai torce, mas não me deram chance.

No fim das contas, mantive uma relação muito bonita com a torcida do Southampton até hoje. Eles me mandam mensagem e pedem para voltar. Não tive ainda chance de ir lá por causa da pandemia. Queria entrar no campo para me aplaudirem, seri uma coisa muito bonita e uma forma de eu fechar bem a passagem marcante que tive por lá.