<
>

O homem que virou uma lenda ao jogar 22 minutos na Premier League e hoje tem 'vida dupla' como goleiro e vendedor em transporte de cargas

Gunnar Nielsen, ex-goleiro do Manchester City, joga pelas Ilhas Faroe neste sábado (4), contra a Turquia, pela Nations League, com transmissão pela ESPN no Star+


Neste sábado (7), as Ilhas Faroe visitam a Turquia, em Istambul, às 15h45 (de Brasília), pela 1ª rodada do grupo 1 da Uefa Nations League C. A partida terá transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.

Para conquistar uma improvável vitória em território turco, a minúscula nação de apenas 54 mil habitantes conta com mais uma atuação de seu goleiro, o veterano Gunnar Nielsen, que defende a seleção desde 2009 e soma mais de 60 jogos pelo país.

Aos 35 anos, Nielsen é uma verdadeira lenda no futebol faroês. Afinal, ele é o 1º (e até hoje único) atleta do pequeno arquipélago a ter jogado na famosa Premier League inglesa.

Após deixar a família aos 15 anos para iniciar a carreira no pequeno Frem, da Dinamarca, o arqueiro despertou a atenção de olheiros, foi aprovado em testes e assinou com o tradicional Blackburn Rovers, da Inglaterra, em 2007/08.

No time inglês, ele foi comandado pelo famoso técnico Mark Hughes, que gostou de seu trabalho.

A prova do apreço foi vista em 2009/10, quando Hughes, então no comando do Manchester City, clube que havia sido comprado pelos bilionários sheiks de Abu Dhabi, pediu a contratação de Gunnar Nielsen.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o goleiro titular das Ilhas Faroe lembrou como foi sua transferências para os Citizens.

"O Mark Hughes tinha toda uma equipe de auxiliares, inclusive com treinador de goleiros. Eles saíram do Blackburn para ir para o City, mas seguimos em contato. Afinal, foram eles que me levaram para a Inglaterra anos antes. Eu estava no Blackburn e sabia que meu contrato não seria renovado, então estava procurando opções para o futuro", lembrou o atleta.

"Eles queriam muito que eu fosse para o City, porque sabiam que eu ainda tinha muito a evoluir. Eu era uma espécie de projeto em que eles podiam trabalhar. Mantivemos contato e, no início de 2009, as conversas ficaram sérias. Começamos a falar e, no início do ano, deu tudo certo. Assinei com o City por dois anos e meio", relatou.

"O City podia comprar qualquer um... E foi atrás de mim!"

Quando Nielsen acertou com o City, ele confessa que sabia que teria pouquíssimas chances de entrar em campo. Afinal, a equipe possuía uma verdadeira "seleção" de goleiros disputando vaga.

"Quando assinei, eu sabia que seria difícil jogar, pois eles tinham grandes goleiros: Shay Given, uma lenda da Premier League, Joe Hart e até o Kasper Schmeichel estava lá ainda. Mas era uma oportunidade única! Quantas vezes o Manchester City vai te ligar na vida? Eu não podia deixar passar", salientou.

De acordo com Gunnar, as Ilhas Faroe simplesmente enlouqueceram quando saiu a notícia de que ele jogaria nos Citizens, que estavam "carregados" do dinheiro dos Emirados Árabes e contratando diversos reforços de peso.

"Foi algo muito grande. Nas Ilhas Faroe, a Premier League é a grande atração e todo mundo torce para algum time. Quando eu fui para o Blackburn, já foi algo grande lá, mas, quando fui para o City, foi ainda maior", rememorou.

"Os novos donos haviam acabado de chegar ao City, e eles podiam contratar quem quisessem, qualquer astro... E foram atrás de mim! Então, isso foi algo enorme para o país. As pessoas ficaram muito felizes de ter um faroês no City, mesmo sabendo que seria difícil eu jogar. Mas o importante era ter um atleta aprendendo com os melhores na Inglaterra", apontou.

Uma situação curiosa de seu acerto com o City, aliás, é que Nielssen foi jogar na equipe "rival" da sua infância...

"Eu era muito fã do (goleiro dinamarquês) Peter Schmeichel, que jogou por muitos anos no Manchester United. Mesmo eu tendo acertado com o City, eu torcia como o United quando criança. Obviamente, não falei mais disso depois (risos). Mas as Ilhas Faroe são muito próximas da Dinamarca, temos uma grande conexão, então eu me inspirava muito no Peter Schmeichel", contou.

O dia em que Gunnar Nielsen jogou na Premier League

Apesar de achar que jamais jogaria na Premier League, Gunnar Nielsen errou a previsão que fez para si mesmo.

Em abril de 2010, o Manchester City viveu uma "crise de goleiros", com lesões em série dos atletas da posição, o que fez o faroês ser preparado para entrar em campo a qualquer momento.

"Naquele momento, éramos três goleiros: Shay Given, Stuart Taylor e eu. No entanto, o Taylor estava machucado, então eu era o 2º goleiro no momento. Tínhamos um jogo contra o Arsenal, no Emirates. Uma semana antes, jogamos City x United, no Etihad. No último minuto, eles ganharam com um gol de cabeça do Paul Scholes. O Given pulou para tentar defender e machucou o ombro. Ele até terminou a partida, mas ficou a semana inteira sem treinar antes do jogo contra o Arsenal", recordou.

A partida contra os Gunners, marcada para 24 de abril de 2010, era a grande chance.

"Eu comecei a me preparar mentalmente, pois pediram que eu ficasse pronto para entrar. O Given acabou se recuperando e conseguiu começar o jogo contra o Arsenal, mas tudo podia acontecer naquele dia", afirmou.

Foi então que o momento aconteceu: aos 31 minutos do 2º tempo, Shay Given sentiu dores fortíssimas no ombro novamente. Os médicos tentaram, mas veio a notícia: o irlandês não iria mais conseguir jogar. No banco de reservas, um alvoroço se formou: era hora de Gunnar Nielsen entrar em campo. Nas arquibancadas, cerca de 60 mil pessoas acompanhavam a partida no Emirates Stadium.

"Quando o Given caiu no chão durante o jogo, eu pensei: 'Ele vai levantar e continuar, falta pouco para o jogo acabar'. De repente, começaram a gritar comigo: 'Corra, vá aquecer!'. Tudo aconteceu muito rápido! Se eu tivesse pensando muito nisso, talvez ficasse mais nervoso, mas foi tudo tão rápido que nem deu tempo de nada (risos)!", divertiu-se.

Ao todo, Nielsen jogou por 22 minutos naquele dia: 14 até o fim do tempo regulamentar, mais 8 de acréscimo. Mas, neste curto período, ele teve que trabalhar bastante.

"Houve muitos cruzamentos que precisei sair para cortar. Depois, o (atacante) Bendtner chutou uma bola forte e eu defendi. No final, o Van Persie teve uma boa chance em cobrança de falta de fora da área, que passou por cima do gol", recordou.

"Lembro muito do (volante) Nigel de Jong berrar para mim: 'O Van Persie vai chutar do seu lado! Não saia adiantado! Não saia adiantado!'. Foi meio desesperador (risos). Depois que acabou o jogo, finalmente consegui relaxar de novo. Não fiz nenhuma defesa espetacular, foram mais chutes normais, mas consegui manter o 0 a 0 até o final, o que para mim foi muito bom", celebrou.

"Meu telefone simplesmente congelou"

Gunnar lembra como se fosse hoje da reação dos colegas no vestiário após aquele 0 a 0.

"Nós tínhamos todos uma ótima relação, e eles ficaram muito felizes por mim, pois sabiam como eu trabalhava duro nos treinos. Nunca esperei que isso acontecesse, mas, quando finalmente joguei, todos ficaram muito felizes por mim", festejou.

O goleiro também recebeu uma saraivada de mensagens em seu telefone celular, com seu aparelho ficando praticamente "congelado" de tanta atividade.

"Nas Ilhas Faroe, foi uma loucura! Eu lembro do meu celular, ele simplesmente congelou! Só conseguia ver escrito: 'Mensagem chegando' (risos). Foi uma loucura!", exclamou.

"O jogo foi num sábado à tarde, então muitas pessoas mandaram fotos e vídeos assistindo ao jogo. Todo mundo se reuniu nas Ilhas Faroe e na Dinamarca para ver. Muita gente me ligou, pois virou o assunto da noite lá. Afinal, era o primeiro jogador das Ilhas Faroe a jogar na Premier League!" ressaltou.

"Foi um grande momento para mim. Claro que eu queria ter jogado mais vezes, mas posso para sempre dizer que fui o primeiro faroês a jogar na Inglaterra, e até hoje o único. Espero que venham mais no futuro", desejou.

A imprensa de seu país também enlouqueceu com o feito histórico.

"Durante o jogo, os jornalistas já começaram a ligar para a minha casa. Meu irmão atendeu, mas ele ficou tão nervoso que não conseguiu falar nada (risos). Ele jogou o telefone para a minha irmã, e ela que conversou com a mídia", sorriu.

"Ainda jogamos quatro partidas da Premier League depois disso, e só aí retornei às Ilhas Faroe para férias. Lá no país, somos muito tranquilos com isso, então não se tratam as celebridades de maneira maluca. Ninguém sai gritando atrás de você ou te persegue. Mas claro que todos sabiam quem eu era, pediam fotos, esse tipo de coisa. Foi um período muito especial", relatou.

Uma vitória lendária e a despedida de solteiro

Jogando com as Ilhas Faroe, Gunnar Nielsen guarda grandes memórias. As melhores são de dois jogos contra a Grécia, válidos pelas eliminatórias da Eurocopa-2016.

"Quando penso no meus anos com a seleção, o que vem de cara à minha memória são as duas vitórias contra a Grécia. Saímos no mesmo grupo e, quando viajamos para enfrentá-los, estavamos em fase muito irregular, os resultados recentes não eram bons. Mas ganhamos por 1 a 0, na casa deles! Foi algo tão grande que o técnico Claudio Ranieri foi demitido pela Federação logo depois", rememorou.

"Para aquela geração de jogadores, foi um dos maiores momentos e uma memória importantíssima para todos nós. Foi incrível como melhoramos depois disso", ressaltou.

"Meses depois, recebemos a Grécia numa tarde de sábado, e eles vieram com o pensamento que jamais perderiam dois jogos seguidos para as Ilhas Faroe. Era um dia lindo de sol, o estádio estava lotado: 5 mil pessoas! Imagine só, isso é 10% da população do nosso país! E ganhamos novamente, desta vez por 2 a 1. Foi simplesmente insano! A Grécia era a grande favorita do nosso grupo, havia sido campeã da Eurocopa 10 anos antes, mas fizemos história naqueles jogos", celebrou.

E a festa do goleiro não foi só em campo...

"Uma história engraçada desse 2º jogo é que eu me casaria uma semana depois. Então, meus amigos organizaram uma despedida de solteiro surpresa para mim logo depois do jogo. A gente estava desfilando pela cidade e saudando os torcedores, quando de repente encontrei todos os meus amigos vestindo camisas de goleiro. Foi só aí que percebi (risos)!", gargalhou.

"A noite foi sensacional! Ganhamos da Grécia, eu curti com meus amigos e me casei uma semana depois. Não dá para ser melhor que isso!", suspirou.

Mas a melhor atuação de Nielsen pelas Ilhas Faroe curiosamente foi em uma derrota.

Em setembro de 2012, em duelo válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo 2014, o pequeno país viajou para visitar a poderosa Alemanha. Os germânicos dominaram os 90 minutos e poderiam ter feito uma goleada histórica, mas Gunnar foi o melhor em campo e deixou o placar só em 3 a 0 para a equipe da casa - algo que ele considera quase como uma vitória.

"Eu lembro muito bem desse jogo. Foi um drama pessoal para mim, porque eu ainda jogava no Manchester City na época e havia operado meu joelho. Fiquei 18 meses sem jogar. Antes da partida contra a Alemanha, eu fiquei em tratamento até perto do jogo. Por 18 meses, eu não tinha jogado quase nada até enfrentar a Alemanha, só 45 minutos em um amistoso", recordou.

"Basicamente, eu saí do treino com a seleção e fui paro campo enfrentar um dos melhores times do mundo, depois de ficar 18 meses sem jogar! Ficamos muito preocupados em levar uma goleada, porque íamos enfrentar a Alemanha, um dos melhores times do mundo, fora de casa", admitiu.

"Nos primeiros 30 minutos, eles poderiam ter aberto uns 6 a 0, mas eu estava num daqueles dias que tudo dava certo. Pessoalmente, foi uma das melhores partidas que fiz na minha vida. Tenho memórias espetaculares daquele dia, apesar da gente ter perdido", comentou.

Os 5 melhores que enfrentou na carreira

Em suas aventuras com a seleção de Ilhas Faroe, o arqueiro enfrentou grandes adversários. A pedido do ESPN.com.br, ele elaborou seu ranking pessoal dos mais complicados atacantes que teve que barrar.

"Obviamente, tenho que começar mencionando o Cristiano Ronaldo. Joguei duas vezes contra ele e o cara é uma máquina. Certamente fica no topo da lista!", disparou.

"Depois, acho que vem o Miroslav Klose. Era um goleador implacável, e suas finalizações eram incríveis. Também era muito bom no jogo aéreo. Depois, também tive o privilégio de enfrentar o Thomas Müller, outro alemão muito bom", seguiu.

"Joguei contra o Antonio Cassano, da Itália. Apesar de ser meio maluco, era um talento incrível. E, para fechar a lista, deixe pensar... Vou citar o Nicklas Bendtner, porque eu defendi o chute dele naquele Arsenal x Manchester City (risos)", brincou.

Nos treinos dos Citizens, Gunnar também sofreu nos treinamentos de finalização contra vários craques.

"Havia tantos caras bons me 'fuzilando' nos treinos... Carlos Tevez, Agüero, Balotelli, Adebayor, Roque Santa Cruz. Era basicamente uma seleção de estrelas mundiais!", ressaltou.

"Se for falar o cara que chutava mais forte, era o Balotelli. Ele pegava firme na bola e disparava só mísseis, eram muito fortes. Mas o Agüero era inacreditável, uma qualidade de finalização que nunca mais vi. Pensando em meio-campistas, o David Silva também era um mágico nos treinos, pura inteligência e calma", elogiou.

Goleiro e vendedor ao mesmo tempo

Após deixar o Manchester City, Gunnar Nielsen jogou pelo Silkeborg, da Dinamarca, e Motherwell, da Escócia, antes de chegar ao seu time atual: o FH Hafnarfjordur, da Islândia.

Como muitos atletas no futebol islandês, ele "dobra" sua vida no futebol com um emprego "comum". No caso do goleiro da seleção das Ilhas Faroe, ele também atua como vendedor da Smyril Line, empresa de transporte de cargas via barcos que atua em países como Dinamarca, Ilhas Faroe, Holanda e Dinamarca.

"Eu sou vendedor de uma companhai de cargas. Transportamos itens principalmente para a Islândia. Estou fazendo isso para que de repente possa seguir com esse trabalho quando eu parar com o futebol", contou.

"É difícil dizer se continuarei no futebol depois qeu aposentar. Estou com 35 agora, e às vezes penso em me afastar, porque estou nisso há 20 anos. Mas tem horas que penso em ficar. No momento, mantenho minhas opções abertas. Vai ser difícil largar totalmente o futebol, porque faço isso há tantos anos... Talvez eu atue em outro cargo depois que parar, mas, no momento, foco só em jogar bem até o final da minha carreira", argumentou.

Se dividir entre duas atividades profissionais tão distintas, porém, não é um desafio dos mais complicados.

"Num dia normal, eu vou para o trabalho na Smyril Line umas 8h30. Depois, treinamos por volta das 12h. Eu posso sair do escritório para ir ao treino e retorno em seguida. Aí fico no trabalho até umas 16h30, 17h. Isso é minha rotina normal", relatou.

"Mas, hoje em dia, dá para fazer tudo por computador e celular. Sou vendedor, mas posso estar em qualquer lugar do mundo e ainda assim fazer as vendas. Eu fico bastante no escritório lá na Islândia, mas posso trabalhar de qualquer lugar. Mesmo quando viajo com a seleção, às vezes eu trabalho para passar o tempo, porque ficamos muitas horas na concentração. Faço isso principalmente no hotel", revelou.

Perguntado se é melhor goleiro ou vendedor, Gunnar Nielsen morre de rir.

"Essa é uma boa pergunta (risos)! Talvez eu fosse melhor goleiro no passado, mas agora talvez eu seja melhor vendedor que goleiro..."