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'Sorte que o Rony tinha o mesmo celular': como astro do Palmeiras foi 'resgatado' para o futebol quando já tinha virado mototaxista

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De férias, Rony recebe companhia da ESPN Brasil em pescaria no Pará e dá até aula a Mendel Bydlowski (6:52)

Conheça a história da carreira de Rony, que precisou batalhar muito para chegar ao Palmeiras e se tornar bicampeão da Libertadores (6:52)

Rony, hoje camisa 10 do Palmeiras, por pouco não abandonou o futebol após ser dispensado do Remo, do Pará, em 2013


Neste domingo, o Palmeiras recebe o Santos, às 18h30 (de Brasília), no Allianz Parque, pela 11ª rodada do Campeonato Paulista. Após o clássico, o fã de esporte acompanha toda a repercussão no SportsCenter, com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.

Para conquistar mais uma vitória e manter a invencibilidade no Estadual, o Verdão conta com o atacante Rony, autor do gol da vitória por 1 a 0 sobre o São Paulo, na última quinta-feira, no Morumbi.

Desde que foi contratado pelo Alviverde, em 2020, Rony virou homem de confiança do técnico Abel Ferreira e foi decisivo na conquista de vários títulos. Em apenas dois anos no Palestra Itália, o veloz ponta ganhou duas Conmebol Libertadores, uma Copa do Brasil, uma Recopa Sul-Americana e um Paulistão.

Antes de fazer sucesso por Palmeiras e Athletico-PR no cenário nacional, porém, o jogador de 26 anos quase desistiu de ser jogador profissional após ser dispensado do Remo, equipe em que deu seus primeiros chutes na juventude.

Quem conta é o técnico Walter Lima, que "salvou" a carreira de Rony com uma ligação decisiva no celular, quando o atleta já havia largado a bola e estava trabalhando como mototaxista.

Em entrevista ao ESPN.com.br, Lima, que atualmente é gestor do recém-fundado Amazônia FC, lembrou a história inacreditável de como "resgatou" o hoje camisa 10 do Palmeiras.

"Eu voltei ao Remo em 2013 para coordenar as divisões de base do clube, que estavam muito desorganizadas. No meio do ano, o treinador que assumiu o time quis fazer uma reformulação grande e dispensou vários jogadores, incluindo o Rony", recordou Lima, que tem longa história nas equipes do futebol paraense.

"Pouco tempo depois, a Tuna Luso esqueceu de confirmar a participação na Copa São Paulo de Futebol Júnior. Com isso, o Remo pleiteou a vaga e ganhou. Só que o BID [Boletim Informativo Diário de registro de jogadores da CBF] para os atletas ia até setembro, e já havia passado a data limite. Olhamos o BID nacional do Remo e muitos atletas não poderiam participar. Foi então que, em outubro, começamos a fazer um levantamento de quem estaria apto a jogar", rememorou.

Quis o destino que Rony aparecesse na lista...

"Por incrível que pareça, o Rony ainda estava no nosso BID. Peguei a fica dele e liguei para o telefone que estava cadastrado lá. É engraçado lembrar disso, porque muitos jogadores mudam toda hora de número de celular. Para sorte nossa, e do Rony, o número dele continuava o mesmo", contou.

À época, o atacante havia largado o futebol e estava trabalhando como mototaxista. Mas a ligação de Walter Lima mudou tudo.

"Minha conversa com ele foi muito breve. Falei que era o Walter, do Remo, disse que a gente tinha conseguido a vaga para a Copinha de 2014 e que estávamos precisando de jogadores. Falei que ele estava no BID e perguntei se ele gostaria de participar. Ele me perguntou se iria jogar, eu disse que ele iria treinar e a gente ia ver", relatou.

"O Rony chegou a Belém no dia seguinte. Ele já estava trabalhando no interior do Pará como mototaxista e em uma oficina de motos. Ele chegou com uma camisa de manga comprida vermelha de malha, que é a que ele usava no mototáxi", ressaltou.

"É por isso que eu falo: a história desse menino é inacreditável, porque ele já tinha parado de jogar, já tinha falado para os amigos dele que não dava mais, que tinha sofrido muitas decepções. A vida dele era muito sofrida, de muita carência e necessidade. Ele tinha deixado o futebol para trabalhar mesmo, pois precisava se sustentar. Mas o Rony sempre foi um garoto muito alegre, feliz e, principalmente, persistente", exaltou o treinador.

'Cuide desse menino, ele é diferenciado'

Logo que Rony retornou à base do Remo para os treinos, ele causou boa impressão e conseguiu carimbar a passagem para a Copa São Paulo do ano seguinte.

"Meu filho viu o Rony treinando no primeiro dia em Belém e me falou: 'Pai, cuide bem desse menino, porque ele é diferenciado'. Ele tinha uma disposição incrível. Apanhava o jogo inteiro, mas levantava sempre e nunca desistia", observou.

A primeira impressão que o ponta deixou na Copinha também foi das melhores, atuando muito bem em um empate por 1 a 1 contra o poderoso Corinthians.

"Ele treinou pouco depois e já foi para a Copa São Paulo. Viajamos três dias de ônibus para chegar a São Paulo na véspera da estreia e com apenas 16 jogadores, porque não podíamos inscrever ninguém, só quem já estava no BID", lamentou Walter Lima.

"Só que, na estreia contra o Corinthians, o Rony foi muito bem, arrebentou. Nós ficamos no mesmo hotel, fizemos boa amizade. Conseguimos empatar e, depois do jogo, o pessoal do Corinthians disse que ficou impressionado conosco e com o Rony", revelou.

A boa Copinha de Rony também despertou a cobiça de outros olheiros.

"Lembro que chegou uma pessoa dizendo ser representante do Fluminense e me deu um cartão. Ele disse que se interessou muito pelo Rony e acompanhou todas as partidas que ele fez. O Rony não tinha nem contrato profissional com o Remo, falei para ele entrar em contato com a diretoria. Mas, quando falei para ele que o Rony tinha feito 18 anos em janeiro, ele não quis mais continuar a conversa. Olha a visão do cara...", ironizou.

"Eu ainda tenho esse cartão guardado até hoje. Minha vontade era ligar para o cara e falar: 'Sabe o Rony, camisa 10 do Palmeiras, bicampeão da Libertadores? Foi esse jogador que você não quis levar para o Fluminese (risos)", brincou.

Salário de R$ 1,5 mil no início profissional

Após a boa Copa São Paulo, Rony foi promovido ao profissional do Remo, com boas recomendações de Walter Lima.

"Quando voltamos para Belém, o time profissional do Remo estava com muitas dificuldades, pois faltava um jogador como o Rony. A gente insistiu para que ele tivesse chance nos jogos, e aí puxaram para ele atuar por algumas partidas", recordou.

Apesar de ter chegado ao profissional, porém, o atleta seguia ganhando a mesma quantia que um jogador de base.

"Eu tenho até hoje a cópia do primeiro contrato profissional do Rony, ele me trouxe para ver. Fiquei muito chateado, porque ele recebia uma quantia praticamente irrisória, só R$ 1,5 mil de salário. Além disso, a multa dele era de R$ 15 mil, enquanto alguns jogadores recebiam até R$ 50 mil", contou.

Na equipe adulta do Leão, Rony foi bicampeão estadual, sendo decisivo tanto em 2014 quanto em 2015.

Walter Lima se emociona até hoje ao lembrar a atitude do atacante após um dos títulos.

"Normalmente depois de uma conquista, tem um local aqui em Belém chamado Doca, onde os clubes festejam. O Remo todo foi para lá, mas o Rony foi do Mangueirão até a minha casa me entregar a camisa dele. Ele deixou a festa para ir me agradecer", contou.

"A gente até tirou uma foto sentado no chão com a camisa, ele ainda era só um garoto [veja a foto abaixo]. Na hora de ir embora, ele disse que ia pegar um ônibus, mas eu disse que pagaria o táxi para ele. Liguei para o taxista e disse para ele vir buscar o Rony, do Remo, e o cara ficou surpreso. Paguei até mais barato (risos)", divertiu-se.

Na sequência da carreira, Rony foi para o sub-20 do Cruzeiro e depois passou por Náutico e Albirex Niigata, do Japão, antes de chegar ao Athletico-PR, em 2018, explodindo na sequência para o cenário nacional após os títulos da Copa Sul-Americana, em 2018, e da Copa do Brasil e Copa Levain, em 2019.

"Ele tem uma estrela muito grande! Claro que teve um pouco de sorte no início antes de deslanchar, mas tudo que ele conquistou é por esforço e competência dele. Aonde ele vai, é campeão. O Rony é um cara de energia muito boa, contagia a todos", exaltou.

A última vez que Walter encontrou o ex-pupilo foi recentemente, após a temporada 2021 do Palmeiras.

"Depois que ele saiu do Remo, perdi um pouco de contato com ele, mas recentemente nos reencontramos, passamos a tarde juntos em Belém. Foi muito bacana, porque conversamos um monte. Ele me deu a camisa do Palmeiras e eu dei a ele uma camisa do Amazônia FC, que é o clube que eu administro", relatou, feliz da vida.

"Eu nunca quis os louros do Rony, nunca nem falei disso. O destino só me colocou para ser um vetor para o sucesso dele", finalizou.