Você não acha que foi uma casualidade o primeiro gol do Fluminense ter sido fruto de uma jogada em que os dois atacantes de lado, Keno e Arias, estavam, juntos, na mesma faixa direita do ataque. Não, você não acha. Você não pode achar, porque, neste caso, tudo o que você leu ou ouviu sobre os times dirigidos por Fernando Diniz foi ignorado imediatamente ou rejeitado por alguma teimosia prepotente que, agora, você pretende esquecer. Você também não acha que, se prestar atenção no que acontecia um pouco mais longe da bola, será uma surpresa notar Marcelo, o lateral-esquerdo, correndo na base da jogada e se apresentando na área. Porque, se você acha, a conclusão de que toda aquela “conversa de táticos” sobre a reunião de jogadores no setor da bola realmente é verdade pode ser um pensamento insuportável. Cuidado.
A esta altura, o fato de o segundo gol ter resultado de uma triangulação pelo meio, em que o jogador que recebe a assistência de cabeça de Keno é uma pessoa acolhida pelo vestiário do Fluminense por causa de sua importância como ser humano, obviamente também não te surpreende. Do contrário, você revelaria sua desconfiança de que, quando Diniz diz que a filosofia de futebol dele está baseada na solidariedade, o que ele quer mesmo é se apresentar como uma fonte de virtudes para transmitir a falsa imagem de bom moço num ambiente infestado de cafajestes. Não, não... você não está surpreso(a) com nada do que se viu no Maracanã, porque isso levaria a uma reflexão obrigatória sobre a sua opinião a respeito do técnico “sem currículo” que chegou à seleção brasileira. E essas reflexões, em tempos em que é preciso estar certo sobre tudo, são terrivelmente cansativas.
Está claro, portanto, que a realização de que as ideias de Diniz entregaram uma Copa Libertadores inédita ao Fluminense não é algo que te incomoda. Porque só quem perdeu a capacidade de admirar conquistas merecidas pode se sentir desse jeito tão mesquinho, e você não é assim. Lógico que não é. Você se lembra perfeitamente de que o gol da virada contra o Internacional, no Beira-Rio, começou com um passe de Fábio, de dentro da área, não lembra? Sim, claro! Você até comentou com amigos que vivem criticando “a saidinha” e dizendo que o problema do Diniz é proibir o chutão. Talvez agora eles entendam por que você sempre argumentou que sair jogando dessa forma faz parte de um modelo que tem prós e contras, como qualquer outro. Um dia eles te darão razão.
Um dia, também, é possível que eles sejam capazes de perceber a beleza que emana de uma vitória de convicções, de compromissos, de promessas. E que é essa beleza a origem de tanta gente chorando, até mesmo dentro do campo, quando tudo acabou e a primeira Libertadores do Fluminense estava, enfim, nas mãos de um treinador que “acha que ganhar não é a prioridade”, “que dirige equipes que não se defendem”, “que jamais daria certo num time grande”, blá, blá, blá. Não, você nunca nem pensou em absurdos dessa natureza, de modo que nada nessa linha algum dia saiu da sua boca. Porque você sempre acreditou que profissionais obcecados e autores de trabalhos com conteúdo, cedo ou tarde, encontram o sucesso. Não fosse assim, estes seriam dias difíceis, entregues ao silêncio constrangido dos que pensam que sabem tudo de futebol, mas, claro, nem de futebol sabem.
