O Flamengo já foi o clube do improviso, das crises infinitas e de grandes times e vitórias, mas também de vexames históricos. Um gigante que, em algum momento, sempre tropeçava na própria bagunça. Essa fase deveria ter ficado para trás, porque, nos últimos anos, o Rubro-Negro se reestruturou, dominou, venceu e passou a mirar alto. Tão alto que se imaginou como uma espécie de "Bayern brasileiro", ou, como disse o presidente Bap, o "Real Madrid das Américas".
Só que 2026 tratou de trazer o clube de volta à realidade: é impossível ganhar tudo.
O Flamengo começou o ano jogando seu pior futebol em muito tempo: caiu para um Corinthians inteiro com virose, perdeu pro pior São Paulo dos últimos tempos e ainda conseguiu ser derrotado, duas vezes, pelo Lanús, um "time de bairro" da Argentina. Jogou fora dois troféus nos quais era "favoritaço". Acontece, faz parte. Futebol é assim. Mas, no Flamengo, tudo vira combustível para o caos.
E aí vem o absurdo maior: como se demite um técnico depois de ganhar uma semifinal por 8 a 0? Que acabou de conquistar cinco troféus em um ano e meio como treinador?
O futebol não é videogame. Não é uma ciência exata. É um esporte onde o melhor nem sempre vence. E justamente por isso é mágico. Se o favorito ganhasse todas, seria um grande tédio.
Ainda mais no Brasil, onde existem 12 clubes grandes, todos com capacidade de se reinventar, de ir ao fundo do poço e voltar com tudo pra ganhar jogos, clássicos e títulos. Ainda temos ótimos times médios, e um monte equipes pequenas que incomodam, que se renovam todos os anos.
E sempre um desses 12 grandes clubes vai ganhar. Ou, de vez em quando, um médio leva alguma coisa. E até um pequeno "chato".
Todo mundo vai ganhar, inclusive o Flamengo. E, sendo honesto, provavelmente, na maioria das vezes, será o Mengão, porque hoje é quem tem mais dinheiro, uma torcida enorme, e, de longe, o melhor elenco. Só o Palmeiras bate de frente, mas ainda assim abaixo.
Só que isso não significa ganhar tudo. Significa ganhar muito. E saber perder às vezes.
O delírio é achar que perder não faz parte. A soberba é achar que qualquer tropeço é tragédia. E é dessa soberba que nascem as vergonhas que o Flamengo coleciona. Ou alguém já esqueceu do América do México, do Santo André e tantos outros fracassos rubro-negros?
Só quem esquece é a torcida do Flamengo, que chamou de "sem vergonha" um time que venceu tudo. Que só não foi campeão do mundo contra o PSG porque parou em um goleiro iluminado que pegou todos os pênaltis. E que tinha acabado de ganhar uma semifinal por 8 a 0, 11 a 0 no placar agregado. Aí, o problema deixou de ser tático ou técnico. Virou social.
A demissão de Filipe Luís é o símbolo máximo disso. Uma decisão que ignora mérito, trabalho duro, contexto e a própria lógica do futebol. É a cultura do ódio que impregna as redes sociais ditando o ritmo das arquibancadas. É a indústria da indignação transformando um Flamengo esportivamente soberano em piada pronta. É o imediatismo estúpido que exige perfeição absoluta em um esporte imperfeito. E por isso fascinante.
Vale lembrar, Filipe Luís não foi o primeiro. Dorival Júnior foi demitido depois de conquistar CONMEBOL Libertadores e Copa do Brasil. Há algum tempo que o Flamengo vem virando alvo da própria soberba, que não aceita tropeços, não aceita instabilidade, não aceita nada menos do que vitórias eternas. Só que elas não existem. E o resultado é inevitável.
O velho fantasma de volta. O Flamengo que sabota o Flamengo. Que vira chacota dos rivais mesmo quando ganha tudo. O Flamengo que, mesmo com 8 a 0 no placar, consegue perder.
Próximos jogos do Flamengo:
Fluminense (N) - 08/03, 18h (de Brasília) - Campeonato Carioca (final)
Cruzeiro (C) - 11/03, 21h30 (de Brasília) - Brasileirão
Botafogo (F) - 14/03, 20h30 (de Brasília) - Brasileirão
