Os bastidores do Parque São Jorge seguem quentes às vésperas da reunião extraordinária convocada por Osmar Stabile, presidente do Corinthians, para votação sobre o afastamento provisório de Romeu Tuma Jr., que preside o Conselho Deliberativo. A convocação prevê que o encontro aconteça na segunda-feira (23), às 18h (de Brasília), na sede social do clube.
Entre a onda de manifestações favoráveis e contrárias à reunião, a Comissão de Justiça alertou para o “risco iminente de intervenção judicial que a insistência nesta medida temerária expõe o Clube”.
Ofício assinado pelos conselheiros Corinto Baldoino Parreira e Costa, André Moreno, Alexandre Silveira e Fausto de Totti enviado ao presidente Osmar Stabile recomenda o cancelamento da reunião alegando vício de competência e ilegalidade da convocação e violação ao devido processo estatutário.
“A Comissão de Justiça do Conselho Deliberativo, no uso de suas atribuições estatutárias e agindo em defesa da segurança jurídica desta entidade desportiva, vem, por meio deste, manifestar-se formalmente CONTRÁRIA à realização da Reunião Extraordinária convocada para o próximo dia 23 de março de 2026”, citou o oficio, ao qual a ESPN teve acesso.
Em outro ponto do documento, a Comissão de Justiça reforça.
“Alertamos que o Ministério Público do Estado de São Paulo já manifestou ciência sobre este ‘ato administrativo irregular’. A insistência nesta medida temerária expõe o Clube ao risco iminente de intervenção judicial, conforme já tramita no Inquérito Civil 695.708/2025”.
O trecho se refere aos “possíveis atos administrativos irregulares” apontados pelo promotor Cássio Roberto Conserino, do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), em representação que foi enviada à Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social para que a “guerra” entre diretoria do Corinthians e Conselho Deliberativo seja incluída no inquérito que apura a necessidade de uma possível intervenção judicial no clube.
O Ministério Público se manifestou após provocação em e-mail enviado por Peterson Ruan Aiello do Couto Ramos e Romero Cardoso de Ávila, conselheiros do Corinthians, e Alexandre Germano, Felipe José Mendes da Silva e Cyrillo Cavalheiro Neto, sócios do clube. A alegação era de “possível ato administrativo irregular”.
O movimento é um avanço da guerra declarada entre Osmar Stabile e Romeu Tuma Jr., que ganhou contornos maiores com as ações do presidente do Corinthians em afastar o membro do Conselho.
No documento em que convoca a reunião extraordinária, Stabile justifica a ação pela “necessidade de preservar a lisura do procedimento disciplinar, de garantir liberdade de manifestação das testemunhas, a serenidade da instrução, a confiança dos conselheiros e das testemunhas, a imagem institucional do clube e de regularizar o procedimento de reforma estatutária”.
Durante a reunião do Conselho Deliberativo no último dia 9 de março, Stabile acusou Tuma Jr. de, nas dependências do clube, ter o ameaçado. “Ou faz o que eu quero ou vou te f****”, teria dito o presidente CD ao mandatário do Timão. A alegação foi negada por Romeu.
A convocação gerou uma reação contundente do presidente do Conselho, que classificou como “ato juridicamente nulo, institucionalmente temerário e uma traição ao estatuto, motivo pelo qual não existe qualquer possibilidade de que se realize (em ambiente de legalidade)”, a ação de Osmar Stabile, a quem acusou de “atuar agora como protagonista de uma manobra de inequívoco caráter golpista”.
Alegação é de que cabe ao presidente do Conselho Deliberativo a convocação do colegiado, baseando-se no artigo 82 do estatuto.
O que disse Romeu Tuma Jr. presidente do CD:
Recebo com imensa indignação a comunicação de que a Presidência da Diretoria Executiva do Sport Club Corinthians Paulista, em ato flagrantemente contrário ao Estatuto vigente do clube, lançou edital de convocação para reunião extraordinária do Conselho Deliberativo com o objetivo de me destituir do mandato, sem que tivesse sido notificado e estabelecido contraditório algum.
Causa espanto — embora não surpresa — que o presidente do Corinthians, ele próprio vítima de uma gravíssima tentativa de ruptura institucional em 31 de maio de 2025, marcada pela invasão de sua sala e subtração de documentos, como ele mesmo afirmou, atue agora como protagonista de uma manobra de inequívoco caráter golpista.
A iniciativa viola frontalmente o Artigo 82, inciso II, do Estatuto Social, que estabelece rito claro para a convocação de reuniões extraordinárias do Conselho Deliberativo, mediante requerimento formal dirigido à Presidência do Conselho e com a devida observância de prazos. Trata-se, portanto, de ato juridicamente nulo, institucionalmente temerário e uma traição ao estatuto, motivo pelo qual não existe qualquer possibilidade de que se realize (em ambiente de legalidade).
Chega a ser desprezível o presidente desrespeitar até mesmo a Comissão de Ética do Conselho Deliberativo, legitimamente eleita para atuar em casos que envolvam apuração de infrações estatutárias supostamente cometidas por dirigentes e Conselheiros.
O presidente acredita que ele sozinho tem competência para apresentar denúncia contra mim, que presido o órgão que tem obrigação de fiscalizá-lo, para deliberar sobre a veracidade e gravidade das provas que ele mesmo apresentou, para definir que existe urgência pelo meu afastamento, para mandar publicar edital agendando reunião para me afastar preliminarmemte, para me julgar como impedido a presidir tal reunião e ainda para definir quem deverá presidi-la. Tudo por conta própria, sem prestar contas a ninguém. (Especialmente estranho porque, em passado não distante, Osmar Stabile, então vice-presidente, refutou publicamente outra tentativa menos agressiva, mas igualmente antiestatutária, que buscava meu afastamento.)
Tal conduta lança o Corinthians em mais uma crise institucional e revela, com nitidez, uma estratégia deliberada não apenas de obstrução ao avanço da Reforma Estatutária — agenda amplamente debatida ao longo de meses e cuja Assembleia Geral de sócios encontra-se convocada para o próximo dia 18 de abril —, mas também de evasão de responsabilidades e recusa em prestar contas à instância máxima de fiscalização do clube, que é o Conselho Deliberativo, conforme o próprio presidente deixou explícito na última reunião do Conselho, em sua manifestação pessoal".
Vice-presidente do Conselho Deliberativo e presidente da Comissão de Ética do Corinthians, Leonardo Pantaleão apontou “vício formal na origem da convocação”.
O que disse Leonardo Pantaleão, vice-presidente do CD:
“Surpreendi-me com a convocação em questão, a qual recebo com o devido respeito institucional tanto ao Presidente da Diretoria quanto ao Presidente do Conselho Deliberativo.
Cumpre consignar que tal convocação não contou, sequer de forma tangencial, com o meu conhecimento ou anuência, tendo-me sido integralmente desconhecidas, até então, tanto a sua pretensão quanto a eventual definição de ordem do dia.
Sob o prisma técnico-jurídico, verifica-se vício formal na origem da convocação. O Estatuto Social é claro ao atribuir, em seu art. 82, inciso II, alínea ‘b’, ao Presidente do Conselho Deliberativo a competência exclusiva para convocação do colegiado, ainda que haja requerimento de outros órgãos legitimados.
Trata-se de regra de competência de observância obrigatória, cujo salto compromete a legitimidade de quaisquer deliberações eventualmente formalizadas no âmbito de reunião assim constituída.
Diante desse quadro, e com a serenidade que o momento exige, não me parece juridicamente adequado, na condição de Vice-Presidente do Conselho Deliberativo, registrar presença em reunião cuja convocação se apresenta comprometida desde a sua gênese.
Lamento o momento vivenciado pelo clube e reafirmo que o respeito às normas estatutárias constitui pressuposto indispensável à preservação da segurança jurídica e da estabilidade institucional”.
Relembre o caso 'Stabile x Tuma' no Conselho
Durante do Conselho Deliberativo para análise da reforma estatutária, Stabile acusou Tuma Jr. de, nas dependências do clube, ter o ameaçado. “Ou faz o que eu quero ou vou te f****”, teria dito o presidente CD ao mandatário do Timão. A alegação foi negada por Romeu.
O clima teria se elevado após Romeu ter sido pressionado instantes antes por um torcedor na pizzaria em que os dirigentes jantavam.
“O pior de tudo que aconteceu na sexta-feira. Estava comendo uma pizza e ele [Tuma] estava em uma outra mesa. De repente ocorreu uma discussão entre ele e um associado. Ele passou pela minha mesa e falou para mim: ‘Ou você faz o que eu quero ou eu vou te f...’. Eu pensei: ‘Será que ele falou isso mesmo?’, e aí quem estava do meu lado disse: ‘Foi exatamente isso que ele falou’. Fiquei muito magoado com isso”, disse Osmar Stabile a jornalistas horas após o encerramento do encontro no Conselho Deliberativo.
As acusações foram rebatidas por Romeu Tuma, que também conversou com a imprensa logo após o fim da reunião da última segunda-feira.
“Lamento profundamente a atitude do presidente do clube. Se fosse verdade as coisas que ele falou, ele teria vários mecanismos para tomar uma atitude dentro do rito estatutário, dentro dos órgãos competentes”, disse Romeu. “Tudo isso só serviu para manchar a imagem institucional do Corinthians, o que eu lamento profundamente, principalmente quando isso parte daquele que é o maior mandatário do clube, que é o presidente”.
Procurado pela ESPN, Romeu Tuma relatou que formalizou Boletim de Ocorrência na última sexta-feira (06) após uma discussão ríspida com o associado Osni Fernando Luiz, conhecido como 'Cicatriz', nas dependências do Parque São Jorge.
O vídeo do bate-boca entre ambos foi publicado pelo próprio torcedor em sua página no Instagram.
“Fiz um BO na própria sexta-feira sobre o ocorrido naquele dia na pizzaria a respeito da intimidação e ameaça que sofri de um associado que já foi suspenso do Clube uma vez e continua agindo da mesma forma no ambiente interno. Nesse BO citei que o Presidente estava presente com seus seguranças que são do Clube e nada fizeram”, disse Tuma à ESPN, citando ainda a possível recontratação de Aldair Borges para o quadro de seguranças do clube.
Osmar Stabile, por outro lado, nega que o profissional tenha voltado a integrar o quadro de funcionários do clube.
“Também registrei que tinha questionado o Presidente sobre o fato da administração ter contratado um ex-segurança que estava sendo investigado por ter sabotado o trabalho da Polícia na reunião do CD que votou a admissibilidade do impeachment e acabou gerando agressões contra sócios e Conselheiros pois ele foi o responsável por ter escondido as grades de contenção que isolam a frente do Clube e com isso possibilitou a invasão de pessoas não autorizadas”.
“Na segunda-feira pela manhã, encaminhei para o Presidente da Ética o BO pedindo apuração e solicitando que ele requisitasse as imagens para comprovar os fatos que narrei. Imagens da pizzaria e dos andares do Clube onde vi o segurança naquela semana. Não havia representado contra o Presidente, mas sobre o fato de eu ser vítima do que narrei e dos fatos estranhos que percebi”.
Esse é o segundo pedido de afastamento enfrentado por Romeu feito por um presidente do clube desde que assumiu a 1ª cadeira do Conselho.
Como a ESPN informou em janeiro de 2025, o dirigente foi alvo de requerimento de Augusto Melo, que alegava, sem sucesso, falta de imparcialidade e neutralidade de Tuma na condução do processo de impedimento do presidente da diretoria.
Poucos dias antes, ambos precisaram ser contidos durante discussão acalorada em meio à reunião que pretendia votar o processo de impeachment de Augusto Melo, que acabou destituído da presidência do Corinthians em agosto daquele ano.
