Ausência no confronto de ida pela final do Campeonato Paulista, Rodrigo Garro deverá voltar à equipe titular do Corinthians nesta quinta-feira (27), na Neo Química Arena, para a decisão do Estadual.
O duelo contra o Palmeiras terá bola rolando às 21h35 (de Brasília).
Ainda tentando retomar o nível apresentado em 2024, quando integrou a seleção do prêmio Bola de Prata, da ESPN, o meia argentino tem sofrido com uma tendinopatia patelar no joelho direito, uma das razões que levaram a comissão técnica alvinegra a poupar o atleta na vitória por 1 a 0, no gramado sintético no Allianz Parque.
Mas o que é esse problema que tem afetado a temporada do meio-campista? A ESPN ouviu o médico Bruno Canizares, ortopedista e traumatologista do esporte, para entender o quadro em cinco pontos essenciais.
O que é, inicialmente, a tendinite patelar?
“A tendinite patelar é uma inflamação do tendão patelar, que é a estrutura que conecta a patela com a parte proximal da tíbia. Esse é o principal tendão para a biomecânica do joelho porque vai transferir a força que a gente faz com o músculo do quadríceps, permitindo a extensão da perna e absorvendo os impactos no membro inferior. Quando esse tendão é submetido a uma carga excessiva e repetida de treinamentos, ele pode ir sofrendo micro lesões, que vão desencadear um processo inflamatório de tendinopatias, que vai levar a uma dor e uma limitação funcional do tendão”.
“A tendinite patelar vai surgir principalmente por uma sobrecarga e um estresse repetitivo no tendão, principalmente nos esportes que envolvem saltos, aterrissagens, mudanças bruscas de direção e acelerações e desacelerações. Outros fatores que a gente vê como desequilíbrio muscular, principalmente fraqueza do quadríceps e encurtamento de isquiotibiais, estão muito associados, desalinhamentos no membro inferior, no alinhamento das pernas, treinamentos de superfície de treino inadequada e também falhas na recuperação, quando você tem uma carga de treino em jogos muito intensa e falha um pouco na recuperação, também podem aumentar o risco da lesão”.
“É importante a gente falar também dos estágios que a tendinite patelar tem, porque ela pode ser dividida em quatro estágios, desde um quadro leve e facilmente reversível até um quadro mais grave, com comprometimento da estrutura do próprio tendão”.
“O estágio 1 é quando o paciente tem uma dor depois do exercício, sem nenhuma limitação funcional. Ela só vai aparecer depois da atividade física e não atrapalha o desempenho do atleta. O tratamento, quando ele inicia nessa fase, pode ser curativo e evitar a progressão da doença”.
“No estágio 2, o atleta vai ter uma dor durante e depois da atividade. Durante o exercício ele começa a sentir a dor, mas ainda vai conseguir desempenhar as funções normalmente, não vai prejudicar o treino ou o jogo”.
“No estágio 3 já tem uma dor persistente e começa a comprometer o rendimento do esporte. Nesse estágio a gente começa a ver um tendão mais fragilizado. Então tem um risco mais alto de lesões parciais ou até, às vezes, aumentando o risco de lesão total. Nesse estágio, a gente começa a ter que fazer uma abordagem mais precisa e agressiva, como afastar, deixar fora de alguns jogos, tirar um pouco o treinamento, fazer um controle de carga para evitar um afastamento mais prolongado depois”.
“O estágio 4 é quando tem uma ruptura parcial ou ruptura total do tendão, que acontece se não consegue interromper a tenção de patelar nos outros estágios, porque vai fazer a degeneração avançada do tendão, e aí é um cenário mais grave. Então, geralmente, a gente quando já tem essa ruptura parcial, precisa de uma cirurgia ou então um período bem longo de reabilitação e afastamento do esporte”.
A tendinite é limitante para a atividade física? Quando vira tendinopatia?
“Pode impactar a performance do atleta, porque o joelho é essencial, principalmente para o futebol, falando de salto, corrida, mudança de direção, aterrissagem, contato. Então, nos primeiros estágios, o desconforto que ele sente até é contornável com o uso de medicamentos analgésicos, anti-inflamatórios, a fisioterapia, mas conforme a lesão patelar vai avançando, a dor vai ser mais intensa, persistente, e aí começa a limitar os movimentos que o atleta tem que fazer, que são mais explosivos, então ele começa a perder força muscular, a dor limita o movimento e começa a atrapalhar os movimentos que ele precisa durante a partida ou treino”.
“Se ele continua forçando o joelho sem tratar adequadamente, a inflamação vai se tornando crônica, e as inflamações crônicas a gente fala que são as tendinopatias. Uma doença que vai gerando uma degeneração de tendão, e quanto mais degenerado, mais prolongado vai ser o tempo de recuperação, prejudicando cada vez mais e aumentando o risco até de rupturas do tendão patelar”.
“Com as rupturas parciais ou totais, então, a gente pode precisar até mesmo de uma cirurgia que vai levar meses de reabilitação e podendo até mesmo prejudicar o retorno ao esporte”.
Como é feito o tratamento?
“O tratamento vai depender muito do estágio da lesão e do grau de comprometimento que a gente vai encontrar do tendão. O objetivo principal vai sempre ser reduzir a dor, controlar a inflamação e fortalecer toda a estrutura do joelho do atleta para ele retornar na performance ideal e interromper a degeneração”.
“Na fase inicial, a gente vai sempre fazer o controle da dor e inflamação. O foco do tratamento nessa fase inicial, nesses estágios iniciais da tendinite patelar, vai ser tirar a sobrecarga que o tendão vai estar recebendo e controlar a dor dele. Por isso, a gente vai fazer o controle da carga de treino”.
“Se diminui a intensidade, o volume dos treinos, principalmente os treinos que vão envolver muitos saltos, aceleração e desaceleração brusca. Fazer as medidas de fisioterapia com gelo, medidas anti-inflamatórias, exercícios de terapia manual e liberação miofacial, técnicas da fisioterapia que vão aliviar a tensão, fazer exercícios de fortalecimento para equilibrar a musculatura”.
“Depois começa a fase intermediária, que faz mais a parte da reabilitação e do fortalecimento. Quando já há um controle da dor, começa um programa mais voltado para o fortalecimento muscular e a correção dos fatores biomecânicos, que vai servir principalmente para evitar que continue agravando o problema da tendinite patelar”.
“Exercícios excêntricos, que é um fortalecimento controlado desse tendão patelar, treinos de propriocepção e estabilidade para fazer uma melhora do controle de dor muscular do joelho, evitando algumas sobrecargas desnecessárias que possa ter por causa dessa falta de controle, as correções dos equilíbrios. Trabalhar quadríceps, glúteo, musculatura posterior de coxa, o core, que aí distribui muito bem as forças que agem sobre a articulação do joelho e sempre trabalhar alongamento e mobilidade que a gente tem de membros inferiores, que aí você tira a tensão excessiva que você exerce no quadríceps e nos riscos tibiais, que influenciam muito a sobrecarga do tendão”.
“A fase mais avançada, já quando a gente tem a correção desse desequilíbrio, é o retorno ao esporte, quando o atleta já não tem mais dor e consegue realizar movimentos sem desconforto”.
É possível voltar a atuar sem dor?
“Sim, é possível, mas vai depender de vários fatores. Desde o estágio da lesão no início do tratamento, a adesão ao tratamento e qualidade da reabilitação. Vários fatores vão influenciar na recuperação. Diagnóstico e intervenção mais precoce possível é extremamente importante. Quanto mais cedo for diagnosticado, mais chance vai ter de resolver por completo”.
“O tipo de tratamento, uma abordagem muito bem-feita, com uma fisioterapia de qualidade, o fortalecimento muscular bem realizado, uma correção biomecânica minuciosa, exercícios excêntricos são muito importantes para poder regenerar bem o tendão, restaurando toda a sua resistência”.
“O mais importante é respeitar o tempo de recuperação, porque se volta antes de completar toda a regeneração do tendão, tem um grande risco de retornar o problema e piorar o quadro. Pode até demorar algumas semanas e meses para isso acontecer. Alguns quadros crônicos demoram muito tempo para a resposta completa. Muitas vezes, por ter uma ação biomecânica muito importante, tem que fazer uma modificação nessa biomecânica de alguns movimentos, na corrida, no modo de bater na bola”.
“Geralmente, quando a gente tem um protocolo certinho e um acompanhamento rigoroso, a grande maioria dos atletas consegue retornar para o esporte sem dor e com desempenho completo, 100% do que consegue desempenhar”.
Um atleta consegue competir durante o tratamento?
“É possível, mas tudo vai depender do estágio da lesão e da quantidade de dor que ele está sentindo, do grau de dor que ele sente. Nos estágios mais iniciais, estágio 1 ou 2, a grande maioria vai conseguir seguir competindo, seguir jogando, com algumas adaptações na carga de treinamento e com tratamento mais intensivo. Ele consegue adaptar alguns treinos, fazer um treinamento mais regenerativo, ser retirado de alguns treinos mais específicos, mas quando a dor se torna mais persistente, que a gente já fala mais no estágio 3, se ele continuar treinando e jogando, isso pode agravar a lesão, que aí vai prolongar o tempo de recuperação e vai aumentar o risco do tendão romper”.
“Mas se ele precisa continuar competindo durante o tratamento, como parece que foi o caso do Garro no ano passado, que quando ele estava na reta final da temporada, há algumas coisas que a gente pode fazer que vão diminuir o impacto da tendinite patelar, principalmente fazer um monitoramento bem rigoroso da dor”.
“O próprio atleta tem um entendimento grande do corpo, tem que entender os limites dele e o que tem que evitar para poder fazer os próprios exercícios, controle no treinamento, alguns treinos que vai ter que evitar. Ele, a comissão técnica, a equipe médica tem que estar sempre em uma conversa muito próxima e entender muito bem o que tem que ser evitado para não agravar a lesão, fazer ajuste nos treinamentos, reduzir a intensidade de alguns tipos de treino com saltos, fazer treinos com menos impacto para manter o condicionamento sem agravar a lesão, poder participar das partidas, fazer um tratamento intenso e contínuo de fisioterapia, várias sessões, fortalecimento específico, gelo depois de treinos e jogos, fazer às vezes uso de bandagem de suporte”.
“São coisas que ajudam bastante. E o grande desafio que a gente vê nos atletas de alto rendimento, atletas profissionais, é achar esse equilíbrio entre competir e tratar a lesão, porque muitas vezes, principalmente os clubes, eles precisam do atleta, mas muitas vezes o atleta precisa tratar a lesão e até o próprio atleta quer estar presente no jogo, quer estar na partida. Então, tem que achar esse equilíbrio. Tem que fazer tudo isso para garantir que a tendinite não vai se tornar um problema muito crônico e muito grave, que possa comprometer a carreira e o rendimento dele a médio e longo prazo”.
