O holandês Memphis Depay, que deve fazer sua estreia pelo Corinthians neste sábado (21) contra o Atlético-GO, é o mais recente exemplo de jogador europeu atuando no futebol brasileiro. Pode não ser comum, mas está longe de ser algo inédito.
No início do século passado, ainda no período de aprendizado do jogo britânico, muitos passaram pelos campos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Alguns eram trabalhadores estrangeiros de companhias ferroviárias ou de luz.
Com o passar das décadas, o futebol brasileiro se tornou o mais forte do mundo. Mesmo assim, alguns europeus marcantes fizeram história em nossos gramados – o maior deles foi Dejan Petkovic e outro de passagem gloriosa foi Clarence Seedorf.
Atualmente, não há nação com mais jogadores expatriados do que o Brasil, com 1338, de acordo com o último censo global realizado pelo CIES Football Observatory (Observatório de Futebol do Centro Internacional de Estudos Esportivos) e publicado em maio deste ano.
Só que, nos últimos meses, há um movimento ao revés acontecendo, e não apenas para o futebol brasileiro – só na Série A, em 2024, são nove europeus, contando Depay.
A contratação do atacante pelo Corinthians foi impactante. Afinal, Depay foi titular da Holanda na última Euro, é o segundo maior artilheiro na história de sua seleção, era um jogador importante do Atlético de Madrid e está com apenas 30 anos. Situação bem distinta de veteranos europeus que optam pela Major League Soccer (MLS), por exemplo.
Pouco antes, o San Lorenzo acertou a chegada de Iker Muniain (31 anos), lenda do Athletic Bilbao, clube de toda sua vida. O dinamarquês Martin Braithwaite (33 anos), principal jogador do Espanyol no acesso para LALIGA, cruzou o Oceano Atlântico para ser jogador do Grêmio.
Mais recentemente aconteceram outras contratações chamativas. Em agosto do ano passado, mesmo com mercado ainda na Europa, Dimitri Payet se tornou o primeiro jogador francês na história do Vasco. Sem falar na enorme variedade de nações presentes no Brasileirão, com Héctor Hernández (Corinthians, Espanha), Jamal Lewis (São Paulo, Irlanda do Norte), Maxime Dominguez (Vasco, Suíça), Yannick Bolasie (Criciúma, francês naturalizado congolês), entre outros. Os nove europeus são um recorde na competição.
As impressões do Atlético de Madrid sobre Depay no Corinthians
Esse movimento de jogadores deixando a Europa rumo à América do Sul chama atenção entre quem permanece no Velho Continente. Como do técnico argentino Diego Simeone, que falou com exclusividade para a ESPN sobre seu ex-jogador colchonero.
"Sempre é bom que os grandes jogadores vão para as ligas sul-americanas. Dão mais prestígio, mais valor. Memphis é um jogador extraordinário, tomara que consiga dar ao seu novo time tudo que tem, porque tem uma qualidade enorme", disse o treinador.
Entre os ex-companheiros do holandês, provavelmente quem ficou mais surpreso foi o único brasileiro no elenco do Atleti. "Fiquei muito feliz com a ida do Memphis ao Corinthians, porque é o time que eu torço. No dia da apresentação dele, eu vi os vídeos e não acreditei! Ele estava aqui e agora está no Corinthians. Desejo todo sucesso do mundo, que seja muito feliz e tire o Corinthians da situação em que está", afirmou Samuel Lino.
Por que europeus estão vindo jogar no Brasil?
Independentemente do nível de jogo, o futebol sul-americano tem baixa cobertura pela imprensa europeia, de maneira geral. As recentes contratações de Memphis e Muniain, no entanto, geraram maior repercussão em grandes veículos de comunicação e também nas redes sociais.
O atacante Sheraldo Becker, holandês naturalizado surinamês que defende a Real Sociedad, aponta o desejo de viver uma nova experiência como motivo para algumas destas transferências - mesmo valorizando e ressaltando a qualidade do futebol jogado no Brasil.
"Memphis é um jogador que atuou por alguns dos maiores clubes do mundo. Manchester United, Barcelona, Atlético de Madrid... Porque sabem que é um ótimo jogador, com muita qualidade. A razão pela qual ele foi para lá é querer uma nova experiência, porque já viu muito na Europa. Devo dizer que a liga no Brasil não está tão atrás. Você vê jogadores jovens como Vinicius Jr. e Rodrygo, o Endrick veio de lá, outros vão para Chelsea, Barcelona, então você sabe que há muita qualidade e muitos jogadores bons. Acho também que ele vai se encaixar muito bem no Brasil", explica Becker.
Há também aqueles que, até mesmo pelo idioma, valorizam e apreciam tudo que está acontecendo. "Acho que (os jogadores) estão fazendo bem, aproveitando as oportunidades que têm. Vão jogar em um campeonato e um país que, para mim, é incrível", afirma o lateral português Thierry Correia, do Valencia, que pensa em jogar no Brasil. "Um dia, quem sabe".
Entre sul-americanos que conhecem muito bem a Europa, como o uruguaio Cristhian Stuani, de 37 anos, atacante do Girona, o ponto de vista recai sobre o fortalecimento das ligas locais.
"É um movimento que me dá alegria, porque se está acontecendo isso, é porque o futebol sul-americano está crescendo e melhorando. Quando eu era jovem, meu sonho era jogar na Europa, vir jogar nas grandes ligas. Por sorte consegui, tive a sorte de jogar em ligas muito importantes. É verdade, porém, que atualmente se vê jogadores de ótimo nível, que atuam em equipes importantes da Europa, com muita trajetória, decidindo testar uma experiência nova em países sul-americanos, que possuem melhora notória quanto às ligas e infraestrutura. Acho que, com o tempo, vai se profissionalizando cada vez mais o futebol dos nossos países".
Países exportadores
Apesar desse movimento recente de europeus buscando o mercado sul-americano, principalmente o brasileiro pela melhor condição financeira, seria uma ilusão imaginar a reversão do cenário mundial. Brasil e Argentina, para citar as duas nações mais fortes no futebol da América do Sul, seguirão como países exportadores.
As crianças que hoje em dia estão na base de Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Cruzeiro, Internacional ou qualquer outro clube grande querem se tornar jogadores profissionais e chegar um dia na Europa. Cabe aos clubes brasileiros, melhores e mais estruturados financeiramente, estarem bem cobertos nos contratos das jovens promessas.
Até porque, com o aumento cada vez maior de estrangeiros nas duas primeiras divisões do Brasil - e nesse caso incluímos sul-americanos -, será cada vez mais comum garotos serem negociados antes de completarem 18 anos, até pelo pagamento natural de valores menores por parte dos europeus. Esse também é um dos lados dessa moeda.
Próximos jogos do Corinthians
Atlético-GO (C) - 21/09, 16h (de Brasília) - Brasileirão
Fortaleza (C) - 24/09, 21h30 (de Brasília) - CONMEBOL Sul-Americana - Transmissão pelo Disney+
São Paulo (F) - 29/09, 16h (de Brasília) - Brasileirão
