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Conselho a Yuri Alberto, planos no Corinthians e até naturalização: António Oliveira abre o jogo à ESPN

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António Oliveira abre o jogo sobre relação com Yuri Alberto no Corinthians: 'Técnico também é um pai' (4:54)

Treinador do Corinthians concedeu entrevista exclusiva à ESPN (4:54)

O português António Oliveira chegou ao Corinthians há pouco mais de três meses, mas, com passagens por Santos, Athletico-PR, Cuiabá e Coritiba, já está completamente adaptado ao país – e pensa, inclusive, em pedir nacionalidade brasileira. Em entrevista exclusiva à ESPN, o treinador abriu o jogo: revelou um conselho que deu a Yuri Alberto, falou sobre rotina, referências e os planos no time alvinegro.

"Tem sido gratificante e prazeroso viver o dia a dia neste grandioso clube", disse, logo no início do papo. O técnico contou que dorme pensando em futebol e que costuma sair do CT Dr. Joaquim Grava às 19h ou 20h. O momento para relaxar é nos jantares em restaurantes com membros da comissão técnica, mas os papos sempre retornam ao que acontece dentro de campo.

"Não vim para passar férias, vim para trabalhar e assumir essa responsabilidade de treinar um dos melhores clubes do mundo", justificou.

António Oliveira não hesitou nem ao falar sobre seus atletas. Foi sincero ao dizer que se surpreendeu com Breno Bidon, que, antes, não "saltava os seus olhos". Também se mostrou grato a Raniele, com quem já trabalhou no Cuiabá. A relação com os atletas, além do desempenho esportivo, tem um objetivo claro: deixar um legado por onde passa.

Conselho a Yuri Alberto

António acredita que o papel de um treinador vai além das quatro linhas. "Técnico também é um pai", afirmou. Foi com esse pensamento que ele ajudou Yuri Alberto em uma fase complicada no Corinthians, em que as coisas pareciam que nunca dariam certo.

"Não é só saber do treino e do jogo, temos de perceber que 80% da função é gerir as emoções deles (jogadores), estamos falando de pessoas. Eles leem, sofrem, sentem. O técnico é também um pai, passo mais tempo com eles do que com meus filhos", disse.

"O pai cobra, mas também tem de dar amor. Querem receber carinho, diálogo, que é fundamental para o treinador mostrar o que quer, mas também mostrar princípios e valores para o grupo. Nisso eu sou próximo dos jogadores, de uma forma natural. As lideranças não podem ser impostas", seguiu.

A má fase de Yuri Alberto, segundo António Oliveira, esteve também ligada ao emocional.

"No fim do jogo contra o Nacional-PAR (pela Sul-Americana), fui para a entrevista coletiva e ele (Yuri Alberto) disse que eu era o responsável por ele estar ali. O Yuri não era para viajar. Havia uma dor que o incomodava mais, que estava na cabeça, porque nós temos emoções", iniciou, citando a vitória por 2 a 0 sobre o Nacional, em que o atacante saiu do banco de reservas para fazer um gol.

"Eu disse: 'Yuri, preciso de ti. Vai me deixar na mão?'. E o Yuri disse: 'Eu vou'. Falei que queria só 30 minutos dele, sabia que não poderia mais, mas disse que esses 30 minutos seriam bons para a equipe e para ele", seguiu.

"Dei um exemplo de um jogador que tive, que hoje é do Benfica, e um dia estávamos perdendo no intervalo. O jogador chegou ao meu vestiário chorando, falando: 'Me tire, por favor, que só estou fazendo m...'. Eu disse que não ia tirar. Sabe por quê? Para mim, como treinador, o mais fácil era tirar, mas não resolveria o problema dele. Disse: 'Você vai lá no segundo tempo, a equipe vai ganhar, você vai fazer um grande jogo e vai resolver seu problema'. Ganhamos o jogo, viramos para 2 a 1 e no fim ele estava contente", contou.

"O que falei para o Yuri ainda no gramado em Assunção: hoje [você] é aclamado; no futebol, um dia somos heróis e no outro somos vilões. Se tivesse ficado em casa, com uma dorzinha, jogando Playstation, o problema persistiria. Hoje resolveu o problema, porque enfrentou. Esse é o desafio", disse.

António Oliveira elogiou Yuri Alberto e disse tentar sempre tirar o melhor do atleta.

"Sou honesto com os jogadores. Não vou querer que eles tenham funções que se sintam desconfortáveis, porque, senão, não vou tirar rendimento deles. Tenho que extrair o melhor deles. Não quero dizer que o Yuri não vai jogar em apoio, mas os movimentos são treinados em função do que o beneficie", iniciou.

"Potencializamos muito mais atacar os espaços com o Yuri, muito mais situações de finalização onde ele possa ser realmente decisivo. Ele é um menino fantástico, do bem, com educação enorme, de grande trabalho, merece o mundo", finalizou.

Gratidão a Raniele

A relação próxima que António Oliveira tenta manter com seus atletas também traz sentimentos de gratidão. O Corinthians é o segundo clube em que eles trabalham juntos. Antes, se destacaram pelo Cuiabá.

"O Raniele não é o jogador mais talentoso do mundo, não é um Garro ou Coronado, mas tem outras características. O Raniele sabe o espaço, a função e a tarefa. Ele sabe o que quero para minhas equipes. Não quero ser injusto, porque há jogadores importantes para minha trajetória, mas ele foi um dos pilares da temporada fantástica que o Cuiabá fez. Não foi o único, todos foram importantes, mas ele foi um dos pilares dessa grande campanha", afirmou.

Surpresa com Bidon

Outro atleta com quem o português criou uma relação é o jovem Breno Bidon. E a história começou de forma curiosa: Bidon não encantava o treinador, mas o surpreendeu em um momento importante.

"O Bidon é um diamante. É um achado que criamos aqui a partir do momento da lesão do Maycon. Vou ver o mais honesto e transparente possível. O Bidon, quando o olhava treinar desde que cheguei, era o jogador que menos me saltou a vista. Não dei tanta atenção", revelou.

"Em um jogo que fizemos com o Água Santa, tivemos uma expulsão. Por acaso jogamos com uma linha de 5, que não quis desestruturar. Tirei os dois pontas, coloquei um lateral e compus uma linha de meio-campo onde o Bidon virou 5. Coloquei dentro do que eu tinha no banco e porque o jogo seguinte era importante. Veio a oportunidade. Foi sem nenhuma expectativa. Quando coloquei no jogo, vi as ações dele e fiquei maravilhado. Com um a menos, a equipe até jogou mais e criou até mais chances", seguiu.

"O Breno [Bidon] percebe o jogo todo. Do ponto de vista técnico é refinado, então mapeia o jogo todo. O Garro tem outras características. Sob o ponto de vista tático é menos rigoroso, mas dá outras valências. O Bidon está compensando o Rodrigo [Garro]. Ele entende que, se abandona um espaço, alguém tem de ir ocupar. É um diamante que o clube tem. Vai crescer cada vez mais. É extremamente inteligente, extremamente técnico e é um jogador que precisa de pouca informação para perceber o que o treinador quer. Tem sido muito importante. O Maycon e o Bidon parecem que às vezes andam de pantufas no jogo, ninguém dá nada por eles, mas são tão ou mais importantes que os outros. Muitas vezes há mais protagonistas, mas eles foram cobrir os protagonistas para os gols saírem", finalizou.

Adaptação ao Corinthians

António Oliveira sabia o que encontraria pela frente quando aceitou ser treinador do Corinthians. Além de gerir emoções dos jogadores, também era preciso encaixar características de um elenco que não ajudou a montar. O técnico chegou ao clube no início de fevereiro.

"A partir do momento que aceitei o convite, percebi o desafio que era. Se estivesse tudo bem, não estaria aqui. Qualquer treinador do mundo gostaria de estar nesta posição. É um clube grande, apaixonante, com uma torcida fantástica, que me faz todos os dias acordar com uma vontade enorme de servir esse clube. São os desafios que nos fazem crescer. Passados três meses e poucos, percebemos que há um crescimento. No contexto do futebol brasileiro, não há tempo para pedir tempo", disse.

"Dentro dessas circunstâncias, existem formas de trabalharmos sobre o que é o nosso jogar. É olhar aquilo e a forma que queremos implementar, mas também olhar para as características dos jogadores que nós temos à disposição. Uma coisa é chegar no início e ver as características dos jogadores que melhor se encaixam no que nós queremos e outra coisa é chegar já com o elenco feito e perceber que, não abdicando do que é nossa matriz, dar e potencializar a característica de quem temos à disposição", seguiu.

"Acredito muito na repetição como base do nosso treinamento. Tenho tido o privilégio de ter os jogadores comigo e eles estão comprometidos com a causa, com uma vontade de aprender, competir. No Brasileirão, as equipes que mais ganham não são as que mais jogam, são as que mais competem. Temos de jogar, mas sem abdicar de competir", finalizou.

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5:27
António Oliveira se diz grato ao Brasil e revela plano: 'Sinto isso aqui'

Treinador do Corinthians concedeu entrevista exclusiva à ESPN

Naturalização e planos no Corinthians

O português já se sente quase brasileiro, e vai querer se naturalizar. Ele diz ser grato ao país, onde chegou para trabalhar pela primeira vez em 2020, como auxiliar-técnico do compatriota Jesualdo Ferreira, no Santos. O objetivo é se consolidar como um grande treinador e ganhar títulos pelo Corinthians.

"Eu amo meu país, mas vou pedir nacionalidade brasileira. Eu também sou grato ao Brasil. Gosto muito de estar aqui. As pessoas tratam muito bem. Temos de estar onde somos bem tratados, onde as pessoas nos querem. Eu sinto isso aqui do povo brasileiro, dos clubes. Nós deixamos marcas, legados e essa mensagem passa de clube para clube. Por isso hoje cheguei aqui. Um dos objetivos que coloquei quando cheguei ao Brasil era de que tinha de chegar a um grande do Brasil, e hoje concretizei. Mas é insuficiente. A partir daqui o objetivo é ganhar títulos aqui", afirmou.

"Até dormindo estou pensando em futebol. Muitas vezes tenho uma ideia e anoto para não esquecer. Minha forma de jogar não é estagnada, está em constante evolução. As características dos jogadores são importantes, mas não desvia a matriz. Eu costumo dizer que trabalho tipo um McDonalds. Geralmente saio às 19h ou 20h do CT. Guardo umas duas horinhas para mim, vou fazer meu jantar, vou em um restaurante qualquer. Não vim para passar férias, vim para trabalhar e assumir essa responsabilidade de treinar um dos melhores clubes do mundo", garantiu.

Para atingir os objetivos, ele acredita na busca por uma equipe "equilibrada".

"Falo sempre em equilíbrios. É determinante para o resultado final. Não gosto de um jogo de 6 a 5. Uma vez estive na Arena para um jogo do Athletico-PR contra o Corinthians, foi 3 a 3, falaram que foi um jogão. Foi um jogão do ponto de vista ofensivo. Do ponto de vista defensivo foi desastroso. Jogar bem é estar equilibrado. São as equipes que conseguem estar mais tempo no campo defensivo do adversário e conseguem bloquear as transições. Quanto mais tempo estamos com a bola, menos o adversário consegue nos ferir. Cada vez que tiramos o espaço do adversário, vamos retirando confiança", disse.

"[Jogar bem] É uma equipe que cria, que finaliza, mas que não deixa o adversário em nenhum momento nos ferir. Por isso minha definição para uma equipe que joga bem é ser uma equipe equilibrada".

António Oliveira falou sobre equilíbrio em mais de momento. Ele reiterou que essa é a chave para chegar aos objetivos.

"Temos de atacar, temos de propor, mas não podemos desequilibrar. Ser uma equipe que vai à procura. Não sei a quantidade de equipes que mudam sua estrutura para jogar com nós. Costumo dizer que as melhores equipes do mundo são as que têm padrões identificados. São as mais fáceis de analisar. Somos uma equipe que procura a relação nos triângulos ofensivos, dentro da relação lateral, meia e ponta, sempre mantendo equilíbrio, olhar e perceber espaços, mas também as variáveis que o jogo nos dá. Olhar uns aos outros. É um conjunto de situações. É um jogo mais organizado, com regras. Claro que tem regras ofensivas e defensivas, mas, principalmente, dou luzes em termos ofensivos, mas não vou barrar a criatividade".

"Tem sido um dos grandes desafios perceber que sem movimento não conseguimos desmobilizar a estrutura do adversário. Isso tem a ver com os jogadores de frente que hoje se reuniram no Corinthians. Temos de cada vez mais criar relações entre eles. Tem sido desafio perceber que alguns são jogadores mais de atacar espaços, outros preferem a bola no pé", finalizou.

Referências

Nas referências de António Oliveira é possível perceber a mistura entre Portugal e Brasil que ele tem tentado levar para o trabalho como treinador.

"Há três pessoas que eu queria citar. A primeira, que foi quem me trouxe ao Brasil, o professor Jesualdo, uma das grandes referências do futebol em Portugal, um dos responsáveis pela formação dos treinadores. Sou muito grato. Ao mestre Paulo Autuori, ele faz parte da minha história. Sou grato por todos ensinamentos que aprendi. Às vezes, mais do palavras, vale um gesto. Não precisamos gritar. Aprendi muito com ele", começou.

"O outro é meu pai. É, além dos meus filhos, a pessoa mais importante da minha vida. Trabalhei com ele por muitos anos, me habituei a torcer por ele. Percebi que não era benfiquista, era tonista. Torcia pelo meu pai. Me formei a partir do valores que ele e minha mãe me passaram", seguiu.

"Mais do que o treino e jogo, um dos meus objetivos no futebol é deixar um legado por onde eu passo. Os que melhor analisam o trabalho do treinador são os jogadores. Sou grato. Estou em um dos melhores clubes do mundo, sei da responsabilidade. A cada dia que passo aqui sou mais apaixonado por esse clube, identifico os valores. Tudo farei para ganhar títulos neste clube", finalizou.

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