Na última terça-feira (31), a Itália deu mais um vexame, perdeu nos pênaltis para a Bósnia e ficou fora da Copa do Mundo pela 3ª edição seguida.
De acordo com um jogador que conhece muito bem os bastidores da Azzurra, a seleção perde cada vez mais respeito no cenário europeu e mundial, e o trabalho para voltar ao topo será árduo.
Trata-se do ex-atacante Éder Citadin, que vestiu as camisa de Criciúma e São Paulo, no Brasil, mas teve anos de muito sucesso no Campeonato Italiano, defendendo equipes como Sampdoria e Inter de Milão.
Sua passagem pela Serie A foi tão destacada que ele se naturalizou italiano e foi convocado pelos Azzurri, fazendo inclusive parte do elenco que disputou a Eurocopa 2016.
Durante os anos de serviço à seleção, o catarinense conheceu bem o funcionamento interno da seleção e da Federação, falando com propriedade sobre o tema.
Em entrevista à ESPN, Éder relembrou sua passagem pela equipe nacional italiana e elencou os fatores que foram levando a equipe à derrocada dos últimos anos.
"Quando eu quando chego à seleção da Itália, na primeira convocação, em 2014, eu pego os caras que foram campeões do mundo: Buffon, Pirlo, De Rossi, Barzagli... Qualquer time que você encontrava, a mentalidade que eles colocavam era isso: 'A Itália que está em campo, os caras têm medo da Itália'", recordou.
"Nós vamos pra uma Eurocopa (em 2016) na qual a gente passa (nas oitavas) por uma Espanha que vinha jogando um grande futebol, depois a gente perde nos pênaltis pra uma Alemanha que era campeã do Mundo aqui no Brasil. Os meus amigos de outras seleções, como o (meio-campista) João Mario, que estava em Portugal e foi campeão, me falou: 'A gente não queria pegar vocês, porque o time de vocês é muito chato'", rememorou.
"Isso foi se perdendo... Na mudança do (Antonio) Conte para o (Gian Piero) Ventura começaram os erros. Você não pode passar de um Conte, que é um grande treinador, pra um treinador que só treinou times médios e baixos da Itália. Ali começa isso que eu falo que a Federação erra muito nos últimos anos e vai perdendo o respeito", apontou.
"Acho que aquilo que apareceu na mídia do mundo inteiro, do Dimarco festejando que não pega País de Gales e pega a Bosnia (nos playoffs das eliminatórias), isso mostra uma mentalidade muito perdedora e depois você dá mais força pro adversário", opinou.
Questionado sobre o que a Itália deve fazer para voltar ao topo do futebol, o ex-atleta vê um cenário muito difícil, principalmente no quesito de revelar novos talentos.
"Tem que começar desde a base, mudar muitas coisas, esse tipo também de mentalidade. A Itália é um país pequeno, com muitos estrangeiros jogando, com muitos que podem jogar na Itália, e tem essa restrição. Mas se você não tem talento italiano vindo da base, você tem que achar um modo", salientou.
"Acho que é a Federação que tem que sentar e ver o que é melhor. Acho que alguma coisa precisa ser feita, porque, nos últimos anos, tem se falado muito e não tem nenhuma tomada de decisão. Acho que dessa vez, até pelo ministro dos esportes falando palavras pesadas, acho que pode ter mudanças mais eficazes em quem comanda o futebol italiano", comentou.
Jorginho deveria ter sido convocado?
Outro ponto que gerou polêmica na mídia e nas redes sociais da Itália nos últimos dias foi o fato do experiente volante Jorginho, um dos heróis do título da Eurocopa-2020, não ter sido convocado.
O meio-campista do Flamengo estava aberto a ser chamado pelo técnico Gennaro Gattuso, mas acabou ficando fora da lista e viu pela TV a eliminação da Azzurra nos playoffs.
Para Éder, o volante deveria ter sido convocado, mas o "receio" da alta cúpula da Federação Italiana com a convocação de estrangeiros naturalizados acabou pesando contra
"Eu vejo um pouco (de preconceito com estrangeiros naturalizados) nessa parte. Como falei do Jorginho, com todo respeito ao Barella, ao Locatelli, que são bons jogadores, mas acho que com o Jorginho, que foi campeão da Euro, que joga no Flamengo, que joga jogos pesados, que tem uma mentalidade que pode passar pra esses jovens", ressaltou.
"Acho que tem esse receio (de convocar estrangeiros). Nunca foi tão falado nesse período nos jornais o Jorginho sendo convocado. Acho que tem um pouco esse receio, mas ao mesmo tempo você não tem talentos italianos, aí vai em clubes que tem evoluído na base, como Atalanta, Udinese e Inter de Milão, tem muito estrangeiro na base. Acho que tem que ter um pouco de abertura", seguiu.
"A Itália tem um pouco desse receio. Eu sempre fui muito bem tratado por todos, por todos jogadores, por todos da imprensa, é lógico que você tem que chegar e mostrar qualidade pra ter o privilégio de eles não falarem mal, mas acho que a Itália poderia abrir mais. Isso é uma visão que poderia acontecer", complementou.
Para o ex-são-paulino, aliás, o maior erro de não chamar Jorginho foi justamente o fato de que a possibilidade de ter pênaltis nas eliminatórias era grande, e o meio-campista é um especialista nas batidas.
"O Jorginho na Itália com certeza ajudaria muito a seleção. Nos pênaltis, já teria um garantido...", finalizou.
