Depois de golear o Panamá na estreia, o Brasil encara a França neste sábado (29) em busca de mais uma vitória rumo ao título inédito da Copa do Mundo feminina. Se atualmente a modalidade vive o seu melhor momento no país, foi porque, no passado, algumas pioneiras deram os primeiros passos com a bola. Ou pelo menos tentaram.
Heloísa Helena Marques foi uma delas. Há 65 anos, ela integrou o Araguari Atlético Clube, de Minas Gerais e primeiro time de futebol feminino registrado no Brasil, mas viu seu sonho de ser jogadora ser interrompido por uma lei que proibiu a prática do esporte entre mulheres.
''As pessoas falavam que era um absurdo, que não era esporte de mulher, era esporte de homem, selvagem, que ia machucar e que a gente ia ter problemas futuramente em ser mães e ser qualquer coisa, porque as bolas iriam nos machucar. Era cada coisa que a gente escutava que não era fácil não'', disse a ex-atleta em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.
''A grande maioria proibia de jogar futebol. Foi um horror. Meus pais eram exemplos. Eu gostava muito de futebol e meu pai era um vanguardista. Ele gostava de ver. Sempre foi uma pessoa além do tempo. Ele com minha mãe tinham essa ideia que nada era proibido e poderia fazer tudo dentro do limite da decência da época. E poderia ser feito'', lembrou.
Tudo começou em 1958, quando Isolina França Soares, diretora de uma escola de Araguari, em Minas Gerais, procurou dirigentes do Araguari Atlético Clube para fazer um jogo beneficente na tentativa de salvar o colégio da falência. Foi então que Ney Montes, então diretor do clube, sugeriu que fosse formado um time apenas por mulheres. E deu certo.
Ao lado de Heloísa, Eleuza, Ormezinda, Marizete, Nilza, Darci, Maria da Penha, Zalfa, Haidê, Jane, Cirlene, Maria, entre outras, formaram o primeiro time feminino no Brasil.
Sucesso em Araguari, a equipe foi convidada a jogar em Uberlândia, cidade vizinha, também no Triângulo Mineiro, e lotou o estádio. O time começou a ganhar projeção nacional, com cobertura dos principais jornais da época, e ainda viajou para disputar partidas em Buriti-Alegre-GO, Ituiutaba-MG, Varginha-MG, Goiânia, Belo Horizonte e Salvador.
''Em todas as cidades que jogamos, fomos muito bem recebidas, e o público era imenso. Inclusive, em Salvador, desfilamos até no carro de bombeiros pelas ruas da cidade. Em Belo Horizonte também tivemos boa recepção, Goiânia. A não ser uma pequena cidade aqui de Minas, que quando fomos jogar, no meio do caminho tivemos que voltar. O padre não deixou que nós realizássemos por lá, mas fora isso, fomos muito bem aceitas e com uma recepção muito boa perante o público que ia assistir futebol'', disse Heloísa.
Depois de nove meses lotando estádios pelo Brasil, o Araguari recebeu o convite para jogar no México. Mas o sonho de realizar a primeira viagem internacional se transformou em frustração. O Decreto-Lei do então presidente Getúlio Vargas, promulgado em abril de 1941, estava de fato sendo colocado em prática no país, o que significava que as mulheres estavam proibidas de praticar esportes que não fossem ''adequados à sua natureza''.
''Estávamos muito empolgadas quando veio a notícia que a gente iria para o México. Só que logo depois disso, já veio a outra notícia dizendo que tinha sido proibido, que nós não poderíamos sair do país de jeito nenhum, e não iam dar para nós autorização pela alfândega sairmos. Então foi cancelado, e a proibição foi dada lá em Salvador'', lembra a ex-jogadora Heloísa.
''Falavam de incompatibilidade do esporte para o físico feminino. Onde estava essa incompatibilidade? A gente nunca viu. Quando veio essa proibição, nós tivemos que voltar trás, sem nada. Foi aí que realmente a gente calou a boca e nunca mais falou nada'', completou.
Legado além do futebol
Mais de seis décadas depois, o primeiro time de futebol registrado no Brasil já ganhou homenagens no Museu do Futebol, no Pacaembu, nas Olimpíadas do Rio, em 2016, e até por ONGs internacionais. Uma das responsáveis por resgatar a história é Teresa Cristina, jornalista, pesquisadora e filha de Ney Montes, ex-diretor do Araguari Atlético Clube em 1958. Para ela, o legado do pai se vê além dos gramados de hoje.
"É algo que ficou engavetado por muitos anos, até que meu pai, já adoentado, começou a falar do assunto, e vi que estava tudo guardado. Ele tentava levar à frente o sonho de ver o futebol feminino sendo reconhecido, ter sua liga, as cidades montando os campeonatos, e hoje estamos vendo o futebol profissional em nossos campos, acho que esse é um legado", disse a jornalista, que se prepara para lançar um livro sobre os bastidores da equipe.
Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, Teresa Cristina contou detalhes da luta do pai
Para Heloísa, hoje consumidora assídua do futebol feminino, acompanhar a campanha da seleção brasileira na Copa do Mundo vai além da torcida.
"Me sinto representada por elas. Para falar a verdade, tenho três filhas e nenhuma quis ir para o lado do esporte, então sou eu mesmo que vibro, com meu neto que está sempre comigo. É como se estivesse no campo de futebol jogando. É um reviver".
Heloísa Marques contou detalhes da luta pelo esporte em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br
