Ao longo de 38 anos, a mulher foi proibida por lei de jogar futebol no Brasil. Isso porque, na visão do governo vigente à época, o corpo feminino não era feito para a prática do esporte. Tal proibição resultou em um enorme atraso no desenvolvimento da modalidade no país.
Por conta disso, as primeiras gerações de jogadoras tiveram que superar preconceitos e humilhações para que o futebol feminino evoluísse ao que é hoje. Uma delas foi a Formiga.
Ao longo de 26 anos defendendo a seleção brasileira, a ''eterna camisa 8'' viveu uma jornada para lá de desafiadora, que foi contada por ela própria no programa ''Gerações - A Evolução do Futebol Feminino no Brasil'', que vai ao ar nesta terça-feira, às 22h (de Brasília), pela ESPN no Star+.
''O futebol feminino vem brigando pela visibilidade que tem hoje há muitos anos, porque ninguém acreditava no futebol feminino, ninguém dava oportunidade. Eu sabia que ia passar dificuldade, principalmente quando saí de Salvador e vim para São Paulo, mas aqui eu tinha estrutura um pouco melhor. Lá era muito difícil'', lembrou.
Aos 16 anos, Formiga chegou à seleção principal, onde ficou por mais de duas décadas. Com a camisa verde e amarela, ela teve que superar desafios que vão muito além das quatro linhas para atingir um feito que nenhum outro atleta, seja homem ou mulher, conseguiu até então: disputar sete edições de Copa do Mundo.
''A gente se virava para ter um lugar descente para treinar. Não tinha isotônico, a gente abria a torneira e bebia água ali mesmo. Tentaram atrapalhar a nossa evolução. A gente não tinha direito de nada, nem de treinar nos campos bons da Granja [Comary]. Quando estávamos lá e o sub-20 masculino tinha que treinar, a gente tinha que sair para ceder o lugar para eles. Não tínhamos direito nem de usar a academia boa, usávamos um espaço melhor que tinha os aparelhos antigos'', lembrou.
Formiga contou ainda que só foi ter um "salário digno" quando conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas, na Grécia.
''Os uniformes eram grandes, porque vinham dos homens. O meu short parecia de basquete e a blusa parecia pijama. Nos anos 90, ganhávamos uma ajuda de custo. Era pouquíssimo: R$ 800, R$ 1 mil, mas aí depois que ganhamos a medalha de prata, aí sim tivemos um salário digno. Digno, mas muito menor do que o dos homens, mas digno porque antes não ganhávamos nada. Perdemos muitos talentos por falta de estrutura. Hoje o futebol feminino poderia estar em outra realidade, outro patamar, mas infelizmente as pessoas acordaram tarde'', lamentou.
Muito antes disso, a 'Pioneira' Roseli de Belo lutou para desbravar o caminho seguido posteriormente por Formiga. Em um depoimento emocionante ao especial 'Gerações', a ex-atacante, que disputou a primeira Copa do Mundo com a seleção brasileira da modalidade, contou que as batalhas tinham que ser vencidas até mesmo dentro de casa.
''Futebol feminino era difícil. Se era difícil para a nossa família aceitar, imagine para a torcida. Eles não aceitavam, falavam que lugar de mulher era na cozinha e eu rebatia: 'Então por que vocês não vêm jogar com a gente se são tão bons mesmo?'. Era essa guerra", disse.
Quem também sofreu na pele o preconceito pelo simples fato de ser jogadora de futebol foi Rosana Augusto, ex-atleta da seleção e hoje técnica do Red Bull Bragantino.
''Várias vezes eu fui xingada e muita gente falava que esse esporte não era para meninas. Eu sofri vários tipos de preconceitos, mas isso só me dava força. A gente não tinha roupa do nosso tamanho, as chuteiras também não eram de primeira linha e descolavam o tempo todo. A gente foi conquistando passinho a passinho'', afirmou.
A ex-lateral e meia da seleção, prata nas Olimpíadas de 2004 e 2008 e também na Copa do Mundo de 2007, disse ainda que as futuras gerações eram as suas principais motivações.
''A gente lutava por um prato de comida porque sabíamos que os destinos de muitas meninas dependiam da nossa performance, dos nossos resultados em competições importantes. Era isso que nos movia de poder trazer bons resultados para que outras gerações pudessem usufruir'', completou.
Hoje, o futebol feminino brasileiro vive o seu melhor momento. A seleção comandada por Pia Sundhage estreia na Copa do Mundo feminina contra o Panamá no dia 24 de julho, às 8h (de Brasília).
Onde assistir ao especial 'Gerações – A Evolução do Futebol Feminino no Brasil'?
Entrando no clima da Copa do Mundo Feminina, a ESPN e o Star+ lançam em julho sua mais nova produção original. “Gerações – A Evolução do Futebol Feminino no Brasil” conta a história do esporte através das experiências de cinco jogadoras profissionais que atuaram em diferentes épocas e contextos sociais.
Roseli, Formiga, Rosana, Andressa Alves e Tarciane trazem o olhar de cada geração e falam sobre as mudanças na modalidade e como ela foi utilizada como ferramenta para a transformação social. O conteúdo estreia na TV e no streaming do Star+ nesta terça-feira (4), às 22h (de Brasília).
