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De 'pecho frío' a 'sai pra lá, bobo': como Messi 'virou Maradona' para Argentina e lidera time que o idolatra na final da Copa do Mundo

Mudança de postura de Messi com a Argentina nos últimos anos é notável, com traços "Maradonianos" cada vez mais evidentes


Durante muitos anos, Lionel Messi viveu às rusgas com os torcedores da Argentina. Era chamado de pecho frío, expressão em espanhol usada para se referir aos jogadores que não atuam com paixão e que não sentem o "calor" de vestir uma camiseta pesada de clube ou seleção. Diziam que ele era espanhol, pelos muitos anos vivendo em Barcelona desde a adolescência. Reclamavam que não cantava o hino, que não brigava com o árbitro, que não empurrava o time na hora difícil. Apesar dos muito títulos a nível de clubes, o gênio era visto como símbolo dos fracassos da Albiceleste nos grandes torneios.

Tudo começou a mudar em 2 de julho de 2019.

Na ocasião, a Argentina foi eliminada pelo Brasil na semifinal da Copa América, no Mineirão, com os jogadores da equipe derrotada ficando extremamente insatisfeitos com a arbitragem do equatoriano Roddy Zambrano, além da equipe do VAR.

Na área de entrevistas, todos esperavam que Messi falasse, mas aguardavam também que desse suas famosas entrevistas em tom ameno, dizendo que estava muito triste com mais uma decepção com a seleção, mas que a vida era assim mesmo, que não havia o que fazer, etc.

Ao ver o microfone à sua frente, porém, o camisa 10 soltou fogo.

Em um desabafo nunca antes visto, reclamou que dois pênaltis não foram dados para a Argentina e que o Brasil havia sido favorecido pela arbitragem. Disparou ainda que o país "controlava a Conmebol" e que a entidade sul-americana estava fazendo de tudo para dar o título à equipe de Tite.

"Tomara que a Conmebol faça algo, embora eu não acredite que vá fazer nada, porque o Brasil controla tudo. É muito complicado", vociferou.

E, diferentemente das outras vezes em que ameaçou se aposentar da Albiceleste, como nas traumáticas derrotas seguidas para o Chile nas finais de Copa América em 2015 e 2016, o camisa 10 prometeu: "Vou estar ao lado dessa equipe. Se necessitarem da minha ajuda, estarei presente".

Acabava aí a era pecho frío de Messi, e nascia um protótipo de ícone "Maradoniano".

"Sai pra lá, bobo!"

Diego Armando Maradona foi um jogador conhecido tanto pelo talento inigualável com a bola no pé quanto pela capacidade de criar confusão em campo - em todos os sentidos.

O "D10S" argentino adorava discutir com rivais, reclamar com a arbitragem e inflamar a torcida. Na maioria das vezes, o gênio resolvia as partidas com seus dribles e finalizações. No entanto, se eles não bastassem, Maradona sabia condicionar a partida da maneira que queria.

E foi exatamente essa transformação que ocorreu com Messi nos últimos antes. Antes apenas um líder técnico, Lionel passou a ser um capitão de fato. Afinal, no mundo do futebol, muitas vezes o respeito se ganha não só por um golaço ou uma finta maravilhosa, mas também por um xingamento cabeludo ou uma voadora bem dada em uma briga generalizada.

A mudança já começou a ser vista de forma clara na Copa América do ano passado, no Brasil. Sem qualquer pudor, Messi detonou os gramados dos estádios que a Argentina jogava, sendo especialmente crítico com o do Nílton Santos, no Rio de Janeiro. A organização do torneio ficou perplexa. A Conmebol se viu em situação constrangedora. O Messi "Maradoniano" começava a dar as caras, aparecendo também no épico discurso antes da grande decisão do torneio, contra os donos da casa.

Logo após a conquista do título de forma épica em cima da seleção brasileira, no Maracanã, o camisa 10 explodiu em entrevista à ESPN Argentina.

"Com tudo o que aconteceu em 2014, 2015, 2016, uma parte do jornalismo nos tratava como fracassados. Diziam que não sentíamos a camiseta, pediam que não jogássemos mais na seleção", disparou, logo após colocar fim ao longo jejum de 28 anos sem títulos importantes da Albiceleste, que vinha desde 1993.

E, ao mesmo tempo em que se mostrava mais arredio, com personalidade mais forte, Messi seguia resovendo jogos difíceis com atuações geniais. Em junho deste ano, por exemplo, ele simplesmente aniquilou a Itália, campeã da Eurocopa, na Finalíssima, disputada em Londres. O craque "comeu a bola" e conduziu a vitória por 3 a 0, faturando sua 2ª taça pela seleção argentina.

Dessa forma, ele chegou à Copa do Mundo na ponta dos cascos - mas também preparado para dar "coices".

Depois que a Argentina começou a campanha no Mundial perdendo de forma bizarra para a Arábia Saudita, Lionel teve que ser mais Maradona do que nunca, tanto dentro quanto fora de campo.

"A verdade é que estamos mortos. Agora, temos que mostrar que somos um grupo de verdade. Ainda nos restam duas partidas para seguirmos adiante na competição", disse.

"É uma derrota que dói. Não há desculpas. Agora, temos que estar mais unidos do que nunca. Esse grupo é forte e já demonstrou isso. É uma situação que há muito tempo a gente não passava, mas é agora que temos que mostrar que somos um grupo de verdade", seguiu.

"Sei que foi um golpe muito duro. Não é fácil começar a competição dessa maneira, mas peço que as pessoas confiem na gente", salientou.

A entrevista inflamou a torcida argentina, que "comprou a briga" dos atletas ao invés de disparar críticas pela péssima estreia. Nos jogos seguintes, os milhares de fãs abraçaram a equipe, mostrando apoio irrestrito, e viram Messi resolver as partidas contra México e Polônia, classificando a Argentina em 1º lugar do grupo. Contra os poloneses, aliás, mais um momento "maradoniano": após se chocar com o goleiro Szczesny na área, Lionel ficou no chão e reclamou, reclamou, reclamou... Até que o árbitro foi chamado ao VAR para ver o lance. No fim das contas, o juizão apitou o pênalti mais "mandrake" da Copa.

Seu ápice, porém, veio nas quartas de final contra a Holanda. Ao fazer o gol que abriu 2 a 0 para a Albiceleste, Messi foi até o banco de reservas adversário e comemorou colocando as mãos atrás das orelhas para provocar Louis van Gaal, técnico da equipe rival, como vingança ao amigo Juan Román Riquelme, que sofreu tendo o holandês como treinador no início dos anos 2000, no Barcelona.

Em outros tempos, tal atitude seria inimaginável para o atacante, conhecido por seu temperamento acanhado e pela fala até difícil de entender, de tão abafada.

Depois do triunfo argentino nos pênaltis, foi "na cara" de Van Gaal e, com dedo em riste, falou algumas "verdades" para o técnico. Parecendo possuído, ainda detonou o árbitro espanhol Mateu Lahoz. Na sequência, arrumou "treta" com o atacante Weghorst, da "Laranja Mecânica", e deu forte encarada no grandalhão enquanto concedia entrevista pós-jogo, soltando a frase mais célebre do Mundial até agora.

"Está olhando o quê, bobo? Sai pra lá, bobo!", disparou - vale lembrar que, na Argentina, a expressão "bobo" tem conotação muito mais séria que no Brasil, sendo uma ofensa pesada.

Depois, nos vestiários, a situação quases terminou em quebra-pau, com o ex-atacante Sergio Agüero tendo que intervir para acalmar os ânimos.

Mais Maradona que isso, impossível!

"Messi nunca foi tão Maradoniano!"

Um dos principais comentaristas da ESPN Argentina, Daniel Arcucci não foge dos pedidos de comparação entre Messi e Maradona.

Em conversa com a reportagem, ele exaltou a mudança de postura de Lionel nos últimos anos, apontando sua nova liderança como ainda mais marcante.

"Muitas pessoas na Argentina dizem para não comparar Messi e Maradona, mas não compará-los é pobreza intelectual. A comparação não é para chegar a uma conclusão e dizer: 'Messi é melhor' ou 'Maradona é melhor'. A comparação é para encontrar coincidências e diferenças entre dois futebolistas que nasceram no mesmo país, mas que são incrivelmente diferentes", dissertou.

"Essas diferenças nos fazem analisar Lionel Messi hoje e encontrar muitas coisas de Maradona. Nunca Messi foi tão 'Maradoniano' como nessa Copa do Mundo. E não estou só me referindo ao fato dele chamar o adersário de 'bobo', algo que estávamos muito acostumados com Diego, um homem de declarações muito impactantes. Brigar com o árbitro também é algo novo, e também serve. Mas a maior novidade é essa nova forma de exercer liderança", seguiu.

"Messi sempre foi um líder futebolístico, que todos seguiam. Agora. ele é um líder total e completo. Além disso, converteu-se num jogador mais épico. Qual era a grande dificuldade de Messi? Justamente uma de suas maiores virtudes: fazer tudo paracer mais fácil. Para Maradona, tudo parecia sempre difícil. Ele sempre fazia parecer que batiam nele, faziam faltas, derrubavam, mas ele seguida. O Messi era o contrário, parecia que voava em campo. Era como ver o Federer jogar tênis", comparou.

"Já neste Mundial, ele agregou a condução de bola junto com explosão física, e agora tem essa nova face da garra e da entrega. Veja como terminou o 1º tempo contra a Croácia: com Messi cavando falta e segurando a bola, sendo dono da bola", complementou.

Para Arcucci, os lances mais emblemáticos de Messi na Copa-2022 também lembram muito os de Diego Armando Maradona em seu auge.

"Messi é um homem de 35 anos, em seu último Mundial. Mas a jogada que ele fez contra o Gvadiol, de 20 anos, e que vinha sendo um dos melhores zagueiros da competição, foi Maradoniana! E, ao mesmo tempo, foi Messiânica!", exclamou o comentarista.

"Em algum ponto da história, Messi e Maradona se encontram e se parecem. E, na primeira Copa do Mundo em que supostamente Diego não está mais entre nós, na realidade ele está mais presente do que nunca", finalizou.

O ex-atacante Martín Palermo, um dos maiores ídolos da história do Boca Juniors e ex-companheiro de Messi na seleção, concordou.

"Hoje,temos o Lionel que queremos ver, como líder, cumprindo todas as expectativas que caem sobre ele. Estou surpreendido por tudo que Lionel está dando para a equipe e para ele mesmo neste Mundial", salientou, à ESPN Argentina.

A idolatria do time por Messi

Muitos jogadores mais jovens da seleção argentina, como os meio-campistas Enzo Fernández e Alexis Mac Allister e o atacante Julián Álvarez, cresceram vendo Messi jogar pela TV e sempre o tiveram como ídolo. Durante a Copa, inclusive, viralizou uma foto de Álvarez ainda criança posando para foto com Lionel na Copa América de 2011, com a seguinte legenda: "O maior de todos". Hoje, eles são parceiros de ataque na Albiceleste.

Não à toa, os atletas da seleção não cansam de exaltar Messi, ainda mais depois do craque adotar sua postura de líder absoluto em campo nos últimos anos, misturando sua incrível técnica com pitadas de raça e "catimba", também muito valorizadas na Argentina. No vestiário, é sempre possível ouvir os atletas cantando a música que diz que o triunfo do dia veio através "de la mano de Leo Messi", ou "pelas mãos de Leo Messi".

"Ao ver Lionel Messi dar tudo de si no campo, eu fico arrepiado. Como companheiro de time, você dá tudo por ele", afirmou o zagueiro Lisandro Martínez, que tem 24 anos e é mais um que cresceu idolatrando Messi.

"Ele é o melhor de todos os tempos. Tê-lo como companheiro de seleção me deixa extremamente orgulhoso", completou o atleta do Manchester United.

"Quando fomos ao Brasil (jogar a Copa América), diziam que o favorito era o Brasil na final. E, hoje, podem dizer que é a França (a favorita ao título da Copa). Mas nós temos a vantagem, que é ter o melhor jogador do mundo", completou o goleiro Emiliano Martínez, um dos melhores amigos do camisa 10.

Para o ex-lateral-direito Pablo Zabaleta, que dividiu agruras com Messi em tempos menos vitoriosos da seleção argentina, sua aura de líder fez com quem uma nova faísca de esperança fosse acesa para reconduzir a equipe às glórias.

"Agora mesmo, ele (Messi) está sendo o líder desta nova geração, mostrando o caminho. Ele está em um desafio pessoal de ser campeão do mundo e levantar a taça. É uma alegria enorme ver ele vivendo esse momento", exaltou, durante evento do FIFA Legends nesta semana, em Doha.

Messi tem a chance de conquistar a Copa do Mundo neste domingo (18), às 12h (de Brasília), contra a França. No gramado, seus companheiros estão prontos para morrer pelo capitão. E, do céu, os argentinos contam com o "empurrão" decisivo de Maradona, como o próprio Lionel admitiu depois da recente vitória contra a Holanda, nas quartas do Mundial.

"Eu imagino que Diego lá de cima está vendo e nos empurrando. Que siga assim".

*Colaboraram Natalie Gedra, de Doha (QAT), e Thiago D'Amaral, de São Paulo (SP)