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Primeiro Argentina x Croácia da história teve Maradona quase desistindo da Copa e visitando túmulo de lenda croata, e 'marmelada'

Maradona em ação pela Argentina em 1993 Mike Hewitt/ALLSPORT

Primeiro duelo entre Argentina e Croácia foi cercado de polêmicas e quase fez Maradona desistir de jogar a Copa do Mundo


Nesta terça-feira (13), Argentina e Croácia disputam uma vaga na grande final da Copa do Mundo, a partir das 16h (de Brasília), no Estádio Lusail. Quando se fala no confronto, as primeiras lembranças são o primeiro gol de Messi com a camisa da Albiceleste ou os 3 a 0 aplicados pelos croatas no Mundial da Rússia, em 2018.

O primeiro duelo entre os dois países, porém, já foi cercado de diversas histórias e quase fez Diego Armando Maradona desistir de jogar uma Copa.

Em 4 de junho de 1994, a Argentina enfrentou a Croácia, em Zagreb, capital do país europeu, em um dos amistosos de preparação para a Copa disputada nos Estados Unidos. A viagem para o recém independente país, porém, quase fez com que Maradona largasse a preparação e, consequentemente, o Mundial.

Diego vivia uma fase conturbada de sua vida. Pela seleção, havia jogado apenas algumas partidas, com destaque apenas para as duas contra a Austrália, na repescagem das eliminatórias que colocou os hermanos na Copa. O final de sua passagem pelo Napoli havia sido melancólico e a aventura no Sevilla quase um desastre. Pelo Newell's Old Boys também pouco fez. E a turnê até a Croácia, com escala no Equador e Israel, quase o tirou de sua última Copa.

Tudo começou quando o plano argentino era se preparar para o Mundial com amistosos no Japão. O governo japonês, porém, não permitiu a entrada de Maradona no país por conta de seus antecendentes com as drogas. Então, a AFA (Associação de Futebol Argentino) decidiu mudar completamente a rota. A primeira parada foi em Guayaquil para um amistoso contra o Equador, que terminou em derrota por 1 a 0, no dia 25 de maio de 1994.

Do Equador, uma escala até Nova York para, então, chegar em Tel Aviv para golear Israel por 3 a 0. Durante um dos voos, jogadores tiveram suas passagens mudadas de última hora para a classe econômica e tiveram que dormir no chão. Foi ali a primeira ameaça de Maradona de não jogar a Copa.

"Se isso continuar assim, volto para casa e não jogo o Mundial", disse Diego a jornalistas que estavam acompanhando a seleção argentina. Depois de vencer Israel, a Argentina rumou até Viena, capital da Áustria, para começar a epopeia até Zagreb.

Uma vez na Áustria, os argentinos deveriam pegar um trem até Portschach, na fronteira com a Eslovênia para, então, chegarem na Croácia. Maradona pensava que a viagem de trem teria 150km. Quando ficou sabendo que eram 340km, se revoltou. No entanto, viajou as cinco horas e meia com seus companheiros.

Assim que a delegação argentina chegou na Eslovênia, uma nova polêmica. A mãe de Dario Franco, jogador que foi cortado pelo técnico Alfio Basile semanas antes da Copa, saiu na imprensa para acusar Maradona de ter sido o responsável pelo corte de seu filho. Transtornado, Diego voltou a ameaçar não jogar a Copa. "Parece que todo dia acontece alguma m** e a culpa é sempre minha. Me deem uma passagem que estou voltando para a Argentina", disse o camisa 10.

Dessa vez, a ameaça parecia mais real. Maradona andava descontrolado pelo lobby do hotel na Eslovênia e exigia uma conversa com Julio Grondona, presidente da AFA, ou voltaria para casa. Ele só foi acalmado por um jornalista argentino enviado pelo jornal La Nación para cobrir a seleção e que era amigo do craque.

Passada mais uma crise, a Argentina finalmente chegou em solo croata ao desembarcar em Zagreb. Ali, Maradona parece ter se acalmado - coincidentemente, ou não, Diego descobriria anos depois, em 2018, que tinha descendência croata por parte de mãe. Recém desembarcado na Croácia, Diego foi se encontrar com Davor Suker, atacante croata artilheiro da Copa de 98 e que havia sido companheiro do argentino no Sevilla.

Os dois, então, foram visitar o túmulo de Drazen Petrovic, lenda do basquete da Croácia e que havia morrido um ano antes em um acidente de carro. "Não se preocupe, Davor, a genialidade de Drazen sempre estará viva", teria dito o craque ao seu companheiro croata.

No dia seguinte, finalmente veio o jogo. O que ninguém esperava, porém, é que seria um dos jogos mais monótonos de todos os tempos. Anos depois, em 2020, Oscar Ruggeri, zagueiro campeão do mundo em 86 e que fazia parte daquele plantel argentino, confessou que os jogadores fizeram um "pacto de não agressão" para evitar qualquer lesão e não se esforçaram.

"Me recordo de um Argentina x Croácia, terminou 0 a 0. Eles tinham Boban, Suker, Bilic, Prosinecki, um timaço. E nós estávamos mortos da viagem e ainda teríamos que jogar no dia seguinte. Subimos ao gramado e Diego foi falar com Suker. Eram reuniões de todos os lados, entre todos os jogadores, até que pedimos. 'Não nos ataquem, estamos mortos'. E decidimos também não atacar", disse o ex-zagueiro.

O jogo acabou sem gols e os últimos 20 minutos tiveram os dois times tocando a bola de lado sem passar do meio-campo. No dia seguinte, a Argentina deixou a Croácia até Boston, onde se preparou para o Mundial dos Estados Unidos, que acabou sendo o último da carreira de Maradona.