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Os erros de Tite, o imponderável e a certeza: o Brasil não jogou bola suficiente para derrubar a Croácia

O Brasil não conseguiu vencer a Croácia e foi eliminado nos pênaltis nas quartas da Copa do Mundo


A missão de escrever sobre uma eliminação do Brasil em Copa do Mundo não é nada simples. Logo após a queda, então, é ainda mais complicado. O sonho deste título é sempre algo que mexe demais com o emocional do brasileiro. Ainda por cima daqueles que (como eu) vivem o futebol diariamente.

E a sombra da tristeza pode esconder ou mascarar aspectos importantes do jogo. Mas precisamos ser muito frios para analisar presente e futuro da seleção. E o primeiro passo é aceitar o que o campo mostrou. O Brasil não teve futebol suficiente para passar pela Croácia.

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O futebol é um esporte com mil facetas e variáveis que incidem sobre o resultado final. A qualidade técnica individual é apenas uma delas. E a Croácia soube manejar suas habilidades para alcançar a classificação. Cometeu menos erros que o Brasil. E contou com a ajuda do fator mais decisivo deste esporte: o imponderável.

O trabalho de Tite ao longo da Copa teve seus méritos, mas também mereceu críticas. Faltaram jogadas ensaiadas para escanteios e faltas próximas à área. Os gols sofridos em contra-ataques contra Camarões e Croácia evidenciaram desorganização na última linha defensiva nas transições em velocidade. No ataque, faltou variação tática, o chamado ‘Plano B’. As substituições foram sempre por jogadores que cumprem a mesma função, sem influírem no plano coletivo.

O time não teve jogadas laterais de fundo, importantes para abrir defesas muito fechadas. Os movimentos ofensivos invariavelmente convergiam para o centro, facilitando a marcação naquela faixa congestionada.

Sim, o gol de Neymar saiu por ali. Na única jogada realmente perigosa que o time construiu no jogo inteiro. Foi um golaço, mas muito pouco para um time que era apontado como favorito ao título. Um time previsível. E assustado.

O fator psicológico falou alto no duelo. E isso se percebeu facilmente pela postura das equipes em campo. Já nos primeiros minutos, os croatas sinalizaram sua forte personalidade. Não se apequenaram. Isso deixou o Brasil nervoso, preocupado. Um comportamento totalmente diferente do jogo anterior. A consequência em campo foi a falta de coragem para arriscar. Não vimos, por exemplo, Vinícius Júnior partir para cima do seu marcador como fez em rodadas anteriores.

A fragilidade emocional brasileira aumentou com o andar do relógio. A comemoração do gol, no final do primeiro tempo da prorrogação, não teve a polêmica dancinha. Ao contrário, os jogadores se abraçaram e pareciam chorar. No fim da prorrogação, a postura do técnico Tite, ao afastar-se dos jogadores no momento decisivo, mostrou que o que se via em campo era uma reprodução da personalidade do comandante. Neymar nem chegou a bater seu pênalti. E as cobranças confirmaram a derrota psicológica de um time que não teve forças para segurar uma vitória que estava em suas mãos.

Mas tudo isso já aconteceu. Não tem volta. Vale para aprender com os erros e mirar novos horizontes. É hora de procurar um bom técnico estrangeiro. Que traga novos e mais amplos conceitos táticos. Um comandante com lastro suficiente para lidar com os egos da seleção com seriedade e sem melindres. Só assim conseguirá criar um grupo forte mentalmente. É preciso, entretanto, que este treinador conheça e entenda o espírito do futebol brasileiro. Um futebol agressivo ofensivamente, que deve apostar na habilidade individual sem perder o equilíbrio defensivo. Um futebol coletivo, que não depende de um único jogador no plano técnico, tático ou emocional.

A nova geração é talentosa. Tem muito a oferecer neste sentido. Mas é preciso entender que quando a próxima Copa do Mundo chegar, nada disso trará certeza de título. O futebol evoluiu no mundo inteiro. As diferenças diminuíram. Há muita competição física. Eu nasci em 1973. Vivi as Copas de 1982, 1986 e 1990 sob as lamentações das derrotas. Três seleções com perfis completamente diferentes. Quando já não acreditava muito, comemorei o título de 1994 e vi o Brasil chegar a mais duas finais consecutivas (1998 e 2002). Depois, vi times muito fortes fracassarem, como o de 2006. Não tem uma receita de bolo.

A magia acontece dentro de campo, na hora. Milhares de decisões tomadas em 90 ou 120 minutos. Quando a competição chega a este nível, o campo vira um caos. No livro ‘Os números do jogo’, Chris Anderson e David Sally usaram milhares de estatísticas para tentar entender o futebol. Procuraram padrões da atuação que garantissem resultados consolidados e concluíram que o que decide um jogo de futebol é o fator aleatório. Aquilo que falamos no botequim: futebol não tem lógica.

Guardemos nossos enfeites, cornetas e bandeiras. Daqui a quatro anos tem mais Brasil.