Foi zebra, claro, mas há trabalho bem feito na seleção da Arábia Saudita
A primeira grande zebra da Copa do Mundo de 2022 é árabe. A Arábia Saudita chocou o mundo ao vencer a Argentina, favorita ao título, nesta terça-feira (22). Mas como e por que os sauditas conseguiram tal feito? Um dos motivos é o fato de eles terem jogado ‘em casa’. O único país com o qual o Qatar faz fronteira terrestre é justamente a Arábia Saudita. A relação entre eles já foi de enorme influência política e econômica dos sauditas sobre os qataris, mas isto mudou muito na última década, no entanto, se olharmos o mapa, é como se o Qatar (uma península) fosse um braço do território saudita dentro do mar.
Isso se refletiu no ambiente do estádio. A torcida árabe era maioria e deixou clara sua influência desde o início, quando vaiou Messi. No total, os vizinhos compraram 120 mil ingressos para este Mundial contra 60 mil dos argentinos. O time verde e branco nunca teve uma torcida tão grande nas cinco Copas que jogou anteriormente [1994, 1998, 2002, 2006 e 2018]. E, nós sabemos, os mandantes têm enorme vantagem nas estatísticas sobre os visitantes em qualquer competição.
Há também o indiscutível fato de que os árabes se sentem muito mais à vontade num país com uma cultura muito semelhante à sua. Isto com certeza teve influência também no desempenho da Tunísia contra a Dinamarca, pouco depois da surpreedente queda argentina. Você pode lembrar que o país-sede não teve uma boa estreia, diante do Equador [que sobrou e venceu por 2 a 0]. E tem razão, mas é importante entender que a cultura futebolística do Qatar é bem inferior à da Arábia Saudita. Além da experiência muito maior em Copas (seis com a edição atual), basta ver o que representam os clubes sauditas no cenário internacional. Especialmente o Al-Hilal (base da atual seleção), que recentemente enfrentou o Flamengo em Mundial de Clubes e mostrou bom nível.
Ainda assim, claro, o excelente desempenho saudita contra os argentinos é uma surpresa. Foi zebra. Este time sofreu cinco gols da Rússia na abertura da última Copa. Sem falar nos 8 a 0 para a Alemanha no distante ano de 2002. E mostrou enorme evolução competitiva. É verdade que a imprensa local tratava a preparação como de excelente nível, mas os resultados recentes não foram animadores. O time fez um período de treinos que durou três semanas nos Emirados Árabes Unidos, mês passado. Ali, disputou uma mini-Copa do Mundo. Jogou contra Macedônia do Norte, Albânia, Honduras, Islândia e Panamá: marcou três gols e sofreu dois. Antes, na Data Fifa de setembro, empatou sem gols os amistosos diante de Estados Unidos e Equador.
O objetivo do técnico francês Hervé Renard, de 54 anos, era melhorar o desempenho defensivo. E isso parece ter sido alcançado. Mas por outro lado, o time vinha sofrendo de uma seca de gols preocupante. Não marcava mais de uma vez no mesmo jogo há 18 partidas. Na hora certa, os gols brotaram com muita qualidade. O primeiro dos pés de Al-Shehri, artilheiro do Al-Hilal, que ficou um longo tempo afastado devido a uma lesão e voltou agora; e o segundo numa pintura do craque do time, Al-Dawsari, candidatíssimo a gol mais bonito da Copa.
Renard, um ex-zagueiro de clubes sem expressão na França, construiu sua carreira longe de casa. Foi duas vezes campeão da Copa Africana de Nações (CAN), com a Zâmbia, em 2012, e depois com a Costa do Marfim, em 2015, e classificou o Marrocos para o Mundial da Rússia – estreia dele na maior festa do futebol. Primeiro francês a dirigir a seleção da Arábia Saudita, ele conseguiu um raro feito para quem trabalha numa uma federação que frita técnicos como clubes brasileiros: está no cargo há três anos. Teve tempo, portanto, para montar sua equipe e trabalhar suas ideias. Talvez isso faça parte de uma mudança de pensamento no comando do futebol do país, que tem um meticuloso projeto de desenvolvimento de jogadores a partir de estágios na Europa.
O resultado todos nós vimos: uma equipe muito bem organizada taticamente – com uma defesa compacta diminuindo o espaço para a troca de passes da Argentina e forçando-a a cair na armadilha da linha de impedimento – mas principalmente um time confiante, seguro de si e valente. Uma atitude completamente diferente do que os sauditas mostraram nos Mundiais anteriores.
É só o trabalho de Renard ou o ambiente também jogou a favor? A Copa do Qatar será um marco na evolução do futebol do chamado ‘mundo árabe’? Quinhentos mil torcedores do Oriente Médio estão no Qatar empurrando suas equipes para que o milagre de hoje se repita. Vamos acompanhar.
