Imagine viver a apenas 15 metros do campo do time que, de uma hora para a outra, se tornou sensação na Europa. Esta sorte faz parte do dia a dia do brasileiro Bruno Quadros, de 43 anos, que vive em um prédio que faz parte da estrutura do Aspmyra Stadion, casa do Bodo/Glimt, dono de uma campanha histórica para o futebol norueguês na Champions League e que encara o Sporting nas oitavas.
Natural de Bragança, no Pará, Bruno vive em Bodo, cidade homônima ao time, desde 2019. E há quase um ano, comprou o seu primeiro apartamento em solo norueguês, mas não esperava que, em um piscar de olhos, o local virasse palco de alguns dos resultados mais inusitados da Liga dos Campeões.

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Disputando a maior competição de clubes da Europa pela primeira vez na história, o Bodo/Glimt venceu com propriedade gigantes do continente como Inter de Milão e Manchester City, inclusive do norueguês Erling Haaland. Bruno teve uma visão privilegiada nestas partidas, uma vez que a sua janela fica, literalmente, de frente para o gramado.
Em entrevista à ESPN, o brasileiro contou como foi parar na gelada Noruega e revelou que se surpreendeu com a repercussão dos seus vídeos nas redes sociais - um deles já com mais de 10 milhões de visualizações.
"Eu sou de Bragança, no interior do Pará. Em algum momento eu tive que decidir 'o que eu vou ser da vida? Onde vou estudar?'. Eu sempre tive vontade de conhecer o que tinha pelo mundo, sair do Pará, e aí tive a ideia de fazer o vestibular do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), uma faculdade de projeção nacional. Só que eu não sabia que era tão difícil, mas depois que eu meti a cara e resolvi que era isso que eu queria fazer, aí não teve mais volta. Fiz a prova a primeira vez, não passei, fiz a segunda, também não passei, pensei em desistir, mas os meus professores trocaram uma ideia comigo, me convenceram, aí na terceira vez eu passei. Fui morar em São José dos Campos, me formei engenheiro aeronáutico pelo ITA, fiz amigos de todos os estados do Brasil e fui trabalhar", contou.
"Fui para a Embraer, trabalhar na área de operações. Trabalhei lá por uns nove anos, mais ou menos, e em um determinado momento da minha carreira eu trabalhava com suporte de engenharia ao cliente, eu cuidava da Suíça, Reino Unido e Escandinávia. De repente, veio essa empresa daqui a Noruega, uma linha área regional, e decidiu comprar três aeronaves da Embraer. A sede da empresa é em Bodo e eu fiquei trabalhando com eles durante um ano e meio, entre eles solicitarem as aeronaves e receberem. Vim para Bodo fazer visitas, conheci outras cidades da Noruega a trabalho, fazendo visitas técnicas. Quando eles começaram a operação, me fizeram uma proposta 'quer vir trabalhar com a gente? Acho que você seria um ativo interessante para a empresa'. Negociamos durante um período e no fim das contas, em abril de 2019, eu cheguei para morar em Bodo".
Apesar de viver há quase uma década na cidade, Bruno adquiriu o seu primeiro apartamento por lá em abril de 2025. Segundo ele, foram necessários apenas 15 segundos para tomar a decisão de comprar o imóvel.
"Dei a sorte de estar no lugar certo, de ter este apartamento disponível neste prédio, não são muitos apartamentos, e estava disponível, de frente para o campo. Eu entrei e decidi 'eu tenho que morar aqui'", revelou.
"Eu não estava procurando nada específico em relação ao estádio, estava simplesmente procurando apartamento. Gosto muito de futebol, no Brasil sempre acompanho ao Campeonato Brasileiro, até a Série B, os campeonatos europeus. Em um primeiro momento achei este apartamento um pouco caro, fiquei meio assim, mas quando vim visitar com o corretor, não precisei de mais do que 15 segundos para decidir que era aqui onde queria morar. O apartamento tem a minha cara. A Noruega é um país muito silencioso, muito tranquilo, um pouco pacato. Eu vi neste apartamento a possibilidade de ter um pouco mais de agitação, abrir a janela, deixar a galera gritar aqui dentro mesmo".
"Nunca imaginei (a repercussão dos vídeos). Uma loucura, nunca imaginei, é só assim que a gente percebe o tamanho do Brasil, pelas redes sociais, quando você cria um certo engajamento".
Como bom amante de futebol, Bruno também tem as suas paixões no Brasil. E revelou que torce para mais de um time na terra natal e explicou o contexto.
"Eu sou torcedor e dois clubes: primeiro, o maior time do norte do Brasil na história, o Paysandu, e também sou corintiano. Morei anos no interior de São Paulo. Meu pai é flamenguista roxo, então tenho uma simpatia muito forte pelo Flamengo, já levei meu pai no Maracanã, vesti camisa e tudo. Se precisar torcer pelo Flamengo, torço por causa do meu pai".
'Mirassol da Champions'?
O fato de estar fazendo uma campanha histórica na Champions - e vestindo amarelo -, gerou comparações entre o clube norueguês e o Mirassol, que na sua estreia na Série A do Brasileirão teve também um desempenho histórico, se clasisficando direto para a fase de grupos da CONMEBOL Libertadores.
Bruno comentou sobre a brincadeira e, como torcedor e conhecedor do Bodo/Glimt, acredita que a nível continental o time pode, sim, ser uma espécie de "Mirassol da Champions". Mas que a nível nacional, o contexto é diferente.
"Até concordo em comparar com o Mirassol, inclusive o uniforme é muito parecido. Quando você olha para a Europa, ok comparar com o Mirassol, mas aqui dentro da Noruega, que é uma liga mais modesta, o nível de investimento é mais baixo, mas se você for analisar o contexto do futebol norueguês, ele estaria mais para um Palmeiras ou Flamengo, em termos de investimento, infraestrutura, gestão", disse.
"É um clube muito organizado, a base do time joga junta há muitos anos, desde que cheguei na Noruega. Quando eles deram de 6 a 1 na Roma, eu estava na arquibancada e já era esta a base. A categoria de base é forte, eles investem. É uma surpresa eles estarem nas oitavas da Champions? Sim, mas não tanto. Ano passado eles chegaram à semifinal da Europa League, contra o Tottenham, não foram à final, mas chegaram à semi de um torneio que já é muito forte na Europa. É uma surpresa? É, mas não acho que é um milagre".
O representante brasileiro do Bodo/Glimt nas aquibancadas também fez uma projeção de até onde acredita que o clube pode chegar nesta Liga dos Campeões. E segundo ele, é possível passar do Sporting e ir no mínimo até as quartas.
"Sinceramente, baseado no que eu tenho visto de Sporting e Bodo/Glimt, tenho fortes razões para acreditar que eles vão passar pelo Sporting e vão chegar às quartas, muito possivelmente contra o Arsenal, aí acredito que seria o fim da linha. Mas a probabilidade sempre existe, os caras já fizeram milagres contra times grandes. Tem uma chance muito boa de passar às quartas e aí acredito que seria o final da brincadeira para o Mirassol da Europa".
'300 euros por pessoa...'
O fato de hoje morar em uma das vistas mais privilegiadas da Europa também já rendeu algumas situações inusitadas - e financeiramente robustas.
Pelo regulamento do condomínio, cada proprietário só pode alugar o seu apartamento a partir de um ano de moradia. Bruno, sem querer, simulou o aluguel do seu imóvel em uma data próxima ao entre Bodo/Glimt e Tottenham, na semifinal da última Europa League, e recebeu ofertas bem generosas - mas que, obviamente, não foram aceitas por uma questão legal.
"Direto pessoas entram em contato comigo para alugar (o apartamento). Só que aqui no condomínio existe uma regra que exige que você more por um ano para poder alugar. É uma regra recente, que foi criada no 6 a 1 contra a Roma, parece que alugaram alguns apartamentos para italianos, os caras tocaram o terror, fizeram baderna e aí criaram esta regra. As pessoas entram muito em contato comigo, perguntando se não dá para dar um jeitinho, e eu falo 'eu não vou dar um jeitinho porque eu não sei como monitoram isso', e se eu alugar antes de um ano, posso ser expulso do condomínio, então não quero ser um sem teto na Noruega (risos)", contou.
"Na semifinal da Europa League contra o Tottenham, no ano passado, eu desconhecia esta regra e coloquei o apê para alugar só para testar o mercado, saber se teria adesão. Coloquei no anúncio 'cinco pessoas, 300 euros (R$ 1.804 mil) por pessoa', cobrei o olho da cara mesmo. Teve pessoas lá da Inglaterra, torcedores do Tottenham, que queriam fechar negócio comigo na hora. Sempre tem gente querendo pagar por uma experiência VIP como essa. Fica frio lá fora durante o jogo, no jogo contra a Inter de Milão estava -9°, e aqui estou no quentinho. Tem muita gente disposta a pagar caro por uma experiência dessa".
Uma das experiências "VIP" que teve da janela do apartamento foi assistir ao City de Pep Guardiola bem de pertinho. E ainda ver o Bodo/Glimt vencer por 3 a 1, em jogo pela fase de liga da Champions.
"Foi bem legal, o escanteio talvez seja a 15 metros da minha janela, aí você vê Phil Foden cobrando escanteio, Haaland, Rodri, só os cascas grossa, à beira do campo está o Guardiola. É sensacional, eu começo a me divertir no dia anterior ao jogo, os caras vêm fazer o reconhecimento do gramado e ficam uns 40, 45 minutos batendo uma bola, trocando ideia, e eu já vou me divertindo desde o dia anterior com o treino", lembrou.
"Todo mundo queria ver o Haaland, os noruegueses têm orgulho dele. Ele deu tchauzinho para o pessoal na janela, teve toda uma simpatia", finalizou.
