Antes colegas, hoje 'rivais': os bastidores de quando Jardim e Abel trabalharam juntos e como técnico do Fla frustrava o do Palmeiras

O duelo entre Flamengo e Palmeiras às 21h (de Brasília) deste sábado (23), no Maracanã, pela 17ª rodada do Brasileirão, vai colocar frente a frente dois antigos colegas e hoje adversários na briga pelo título: Leonardo Jardim e Abel Ferreira. Os técnicos portugueses, que hoje comandam as grandes potências do futebol brasileiro, já trabalharam juntos há mais de uma década, no Sporting, ainda em Portugal. A relação era boa, mas havia um pequeno problema causado pela vontade de vencer.

Leonardo Jardim era o técnico da equipe principal do Sporting na temporada de 2013/14. Na mesma época, Abel Ferreira dirigia a equipe B do clube. E alguns pedidos do atual técnico do Flamengo acabavam frustrando o treinador do Palmeiras.

"Aqui em Portugal, as equipes 'B' servem muito para a equipe 'A'. Às vezes, o Leonardo Jardim pedia dois ou três jogadores [de Abel] para completar o processo de treino. Mas esse era o papel também do treinador da equipe 'B'. Me coloco no lugar do Abel Ferreira e também não gostaria muito de estar preparando minha equipe e ficar sem dois ou três jogadores naquela semana, não poder apresentar a melhor equipe no jogo. Não é muito agradável, mas esse era o plano, todos sabiam que seria assim", contou Augusto Inácio, que era diretor-geral do Sporting à ocasião.

O dirigente era também responsável por contornar a situação e "acalmar" Abel Ferreira, que, iniciando a carreira, queria sempre ter o melhor time à disposição.

"O Leonardo Jardim era soberano em suas escolhas. Isso é normal. Com quem eu tinha que falar um pouco mais era com o Abel Ferreira, porque ele sentia que realmente às vezes as coisas nos jogos da equipe 'B' não corriam bem. Ele se lamentava porque não trabalhou com os jogadores por uma semana, cinco dias, seis dias, para preparar o jogo. Eu dizia para ele ter calma, que as equipes 'B' são para isso mesmo, que ninguém estava para exigir títulos, falar que tem de ganhar os jogos todos", disse Inácio.

"O exigido era que fizesse os jogadores progredirem, evoluírem, para depois a gente perceber mais tarde se alguns tinham capacidade para estarem na equipe 'A'. Era o papel. Mas, claro, o treinador gosta sempre de ganhar, gosta sempre de ter seu planejamento, não gosta que tirem dois ou três jogadores, isso é normal. E eu tinha que acalmar, porque ele, às vezes, ficava um pouco irritado", completou.

Augusto Inácio foi o responsável por levar Leonardo Jardim ao Sporting. O então jovem treinador tinha apenas 39 anos à época e ainda não tinha muito destaque, tendo passado por Chaves, Beira-Mar, Braga e Olympiacos.

"Eu conhecia o trabalho do Leonardo Jardim, sabia que ele tinha começado por baixo, sabia que tinha feito um grande trabalho no Beira-Mar e no Chaves e sabia o seu trajeto. Ele era metódico, não era um treinador de falar muito. Era um treinador mais de trabalhar do que de falar, mas, a cada vez que eu conversávamos, ele sabia bem os caminhos que queria trilhar. Eu disse comigo mesmo: 'Esse treinador sabe o que quer e só precisa de uma oportunidade'", revelou.

"O Jardim é uma pessoa fantástica, extraordinário treinador, muito competente. Nós nos complementávamos bem", relembrou Inácio. "O Abel começou a dar os primeiros passos como treinador do Sporting, começou a tentar e perceber o que era trabalhar em um grupo. Estamos falando de duas excelentes pessoas, dois excelentes treinadores".

As diferenças entre Abel e Jardim

Augusto Inácio, que conheceu tão bem os dois profissionais, analisou as diferenças entre Abel Ferreira e Leonardo Jardim.

"O que eu destaco no Abel Ferreira é a relação que ele tem sempre com os jogadores e com o vestiário. Acho que é um 'pai', é muito paternal, muito dado aos jogadores e a dar conselhos aos atletas. É um treinador que fala muito ao coração dos jogadores, consegue levar o grupo, fazer com que eles deem o máximo".

"Em termos técnicos, de treinos, não vou falar, porque cada um tem a sua metodologia, uma maneira ou outra. Estou falando na formação enquanto pessoa, enquanto homem, enquanto treinador, porque um treinador é um gestor, e, sendo um gestor, é um gestor também de emoções. Às vezes os jogadores não estão muito bem mentalmente, por isso ou aquilo, ou podem ter problemas particulares que o treinador até nem sabe, e o Abel sabe sacar isso dos jogadores da melhor forma para que eles possam render o máximo possível. Por isso ele tem os jogadores na mão, os jogadores gostam muito dele, essa é a grande característica dele. É realmente um grande gestor do vestiário, dos jogadores", acrescentou.

"O Leonardo é mais pragmático, é um treinador que utiliza muito o treino para dizer aquilo que quer dos jogadores. E é incisivo, se vir alguma coisa que não está indo bem, ele para o treino, corrige, fala com os jogadores, fala individualmente e coletivamente. É um treinador que gosta muito da disciplina, não gosta muito de bagunça, gosta que as coisas sejam sempre sérias e depois há os seus tempos de divertimento, claro. Mas tudo em relação ao trabalho, esqueçam, que o Leonardo não gosta nada de brincadeiras", concluiu.

O ex-dirigente, que também foi treinador e jogador, comentou o que espera do encontro entre os ex-colegas e agora "rivais".

"São excelentes vencedores, com um currículo invejável. Esse jogo vai ser quente. Eu acompanho o futebol brasileiro, muitas vezes vejo jogos ao vivo, outras vezes por meio do resultado e dos resumos. Eu diria que o Flamengo está ligeiramente melhor desta vez em relação ao Palmeiras, que está passando por uma fase um pouquinho pior".

"O Flamengo é uma grande equipe, o Palmeiras é outra grande equipe. Espero que seja um grande espetáculo, com dois excelentes treinadores. O resultado é imprevisível. Pelo contato que eu tive entre os dois no tempo do Sporting, diria que sempre se deram bem e que sempre se trataram com respeito", finalizou.

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