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OPINIÃO: gestão Samir Xaud faz mais em nove meses do que os 10 antecessores desde a criação da CBF em 1979

Samir Xaud durante discurso em evento de premiação do Brasileirão 2025 Staff Images/CBF

Dizem que não se deve elogiar árbitro antes do apito final de um jogo, pois em um lance derradeiro ele pode colocar no lixo toda a boa atuação que vinha tendo. O mesmo é dito por vezes sobre goleiros. Acho que o mesmo tem que ser falado sobre dirigentes, ainda mais os cartolas que se aproveitam do sistema podre e antiquado do nosso futebol. Mas entendo que é momento para elogiar Samir Xaud, o jovem presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que ganhou uma eleição em maio do ano passado sendo candidato tão único quanto polêmico.

Todo mundo sabia ali que ele não era perfeito, tanto que não houve unanimidade de votos em sua eleição por conta do boicote de 20 clubes e da também rica Federação Paulista de Futebol. Dentre as muitas controvérsias ligadas a Xaud, estão um histórico de ações trabalhistas, fraude em hospital público, erro médico, regularização de terras em área de proteção ambiental e suspeita de crime eleitoral em Roraima. Um currículo e tanto para quem tem apenas 41 anos.

Ele viu cair em seu colo a nobre cadeira da milionária entidade que controla o futebol brasileiro. Médico por formação, empresário e filho de Zeca Xaud, que presidiu a Federação Roraimense de Futebol por décadas, ele pode ser considerado o mais bem-sucedido paraquedista da história da CBF. Foi de 0 a 100 km/h em apenas nove meses, deixando para trás os 10 antecessores que guiaram a entidade desde sua criação em 1979.

Ele atacou de cara alguns dos principais problemas do futebol brasileiro. Não que ele seja um herói, pois era óbvio que algo precisava ser feito sobre calendário, arbitragem, fair play financeiro, estabilidade para treinador, etc. E os bons exemplos temos aos montes na Europa, ele não inventou nenhuma fórmula mágica para salvar o esporte.

Estamos ainda no começo de fevereiro, mas podemos dizer que o novo calendário é bem mais interessante e lógico do que os anteriores. Os Estaduais foram enxugados, algo que gritava nos nossos ouvidos, e o Campeonato Brasileiro passou a tomar conta de fato de todo o ano, como sempre devia ter feito depois de sua criação.

A Supercopa do Brasil, que foi uma ideia de Ricardo Teixeira (seguindo os moldes europeus, é claro) na esteira da excelente criação da Copa do Brasil (hoje o melhor exemplo de torneio que foi turbinado e valorizado), abre simbolicamente o nosso calendário, e o sucesso dela independe hoje de um duelo entre as duas maiores torcidas no Brasil em uma tarde de domingo em Brasília com transmissão aberta para todo o país.

Profissionalizar a arbitragem era algo que nove em cada 10 comentaristas pediam há décadas para melhorar a qualidade do nosso apito. Os juízes na verdade eram profissionais (e os de elite muito bem remunerados), mas não podiam falar que viviam apenas dessa atividade (embora alguns vivam sim). A CBF faz o básico também ao contratar o VAR automático, ferramenta moderna para ajudar na detecção de impedimentos com mais clareza. Uma liga cada vez mais milionária como a brasileira precisa mesmo ter o que há de melhor em termos de tecnologia para mostrar mais credibilidade.

Credibilidade aliás é algo que o futebol brasileiro nunca teve muito. Vemos uma série de dirigentes saindo de federações e clubes por acusações de todo tipo, lembrando aqui apenas a incrível série Ricardo Teixeira/José Maria Marin/Marco Polo Del Nero/Rogério Caboclo com o Coronel Nunes fazendo a ponte (com possível falsificação de assinatura em eleição na qual ele não teria plena capacidade cognitiva devido a problemas de saúde) entre o último da trágica série citada acima e Ednaldo Rodrigues e com a passagem não mais que política do interino Fernando Sarney (filho do ex-presidente da República).

Como Ricardo Teixeira, que ascendeu no futebol basicamente por ser genro de João Havelange, ficou por décadas à frente da CBF e apontou seus sucessores, só os mais antigos vão lembrar de Heleno Nunes (também militar), Giulite Coutinho (que ganhou eleição com manobra de Nabi Abi Chedid) e Octávio Pinto Guimarães (que mal conseguiu organizar o Campeonato Brasileiro em uma época em que a CBF não tinha nem de longe o dinheiro dos dias atuais).

Em 1979, a CBF passou a ser de fato a entidade como a conhecemos, pois antes era CBD. A Fifa fez um decreto que exigia que todas as entidades nacionais de futebol estivessem voltadas apenas para o desenvolvimento de seu esporte, e a CBD também cuidava de outras modalidades olímpicas. Com seu estatuto bastante restritivo, sua pose de entidade que não é pública nem tem fins lucrativos, seus acordos e alianças com o governo e sua política de agradar com muito dinheiro as federações estaduais, a CBF foi perpetuando no poder pessoas que só saíam após algum enorme escândalo (o que virou rotina nos últimos tempos).

Samir Xaud não precisava de muito para ser o melhor de todos. Sem descobrir a pólvora, ele colocou em prática em pouco tempo o que o universo do futebol queria. Ainda há muita coisa para ser feita e melhorada, mas o cenário agora é bem mais promissor e elogiável.

O Campeonato Brasileiro, que talvez não seja nunca uma liga independente, está cada vez mais atraente e com visibilidade mundo afora. Os clubes do nosso país vão batendo recordes em contratações e ganhando disputas econômicas contra forças do "Velho Continente". Os que não estão se modernizando ficarão para trás e cairão de divisão. Dinheiro externo vai chegando com SAFs e temos tantos estrangeiros, em campo e no banco de reservas, que talvez só a Premier League hoje seja de fato mais forte que a nossa Série A (Abel Ferreira, Dorival Júnior, Filipe Luís e Tite ganham salários europeus aqui no Brasil).

Segundo o site especializado Transfermarkt, a liga brasileira gastou um total de 201 milhões de euros (R$ 1,242 bilhão) nesta janela de transferências em que o Flamengo repatriou Lucas Paquetá, o Cruzeiro trouxe Gerson e o Palmeiras se acertou com Jhon Arias. Apenas a Premier League, com 453 milhões de euros (R$ 2,8 bilhões), e a tradicional Serie A italiana, com 243 milhões de euros (R$ 1,5 bilhão), superam o nosso Brasileirão em cifras nesta janela que não é a mais forte para os times europeus.

A Copa do Brasil, que enfim ampliou bem seu número de clubes (acho que deveriam disputá-la TODOS os clubes do país), paga muito mais em premiação do que o Argentinão, que parece mesmo um Argentininho hoje em dia por conta da diferença abissal de investimento no futebol dos dois países que dominam historicamente a CONMEBOL Libertadores (agora só o Brasil reina mesmo e vai fazer muito possivelmente mais uma final caseira na América este ano).

A seleção brasileira, que durante muito tempo era o orgulho nacional, hoje está em baixa, mas ela conta com Carlo Ancelotti, um dos maiores treinadores da história do futebol, um profissional admirável que tem na mesa um contrato até a Copa do Mundo de 2030. Samir Xaud não foi o cara que trouxe o vitorioso treinador italiano para a CBF, mas ele foi minimamente inteligente para mantê-lo no cargo e oferecer todas as condições possíveis para ele trazer o hexa, se não daqui a cinco meses na América do Norte, talvez daqui a quatro anos após ele cumprir um ciclo perfeito entre um Mundial e o outro.

A rotatividade de treinadores na seleção enfim acabou, talvez até apareça no futuro o Pep Guardiola para fazer o Brasil desfrutar ainda mais de um futebol de qualidade. Dinheiro a CBF tinha de sobra, faltava sim vontade política e coragem para mexer em alguns pontos.

Samir Xaud pode ter todos os defeitos do mundo, mas ele está indo muito bem à frente da máxima entidade do nosso futebol, especialmente na comparação com os que ocuparam seu posto anteriormente. Vamos ver como ele sairá da CBF...