Na última quarta-feira (22), antes de John Textor ser afastado por uma decisão do Tribunal Arbitral, a SAF do Botafogo protocolou na Justiça do Rio de Janeiro um pedido de recuperação judicial. No documento, ao qual a ESPN, teve acesso, o Glorioso apresentou um panorama catastrófico de suas contas, com um passivo total de R$ 2,5 bilhões, e fez requerimentos para que atletas não possam rescindir seus contratos por falta de pagamentos de débitos prévios.
Além disso, o time carioca apresentou sua lista completa de credores, com dívidas abertas com clubes brasileiros e estrangeiros, além de jogadores, técnicos e empresários. Também há obrigações pendentes com diversos fornecedores, que vão de lojas de fotos de artifício até farmácias.
Para entender melhor os caminhos que o tema deve percorrer agora nos tribunais, a reportagem ouviu o advogado Rafael Petracioli, especialista em recuperação de ativos, que explicou o que está por trás da petição feita ao poder judiciário.
De acordo com Petracioli, o pedido de recuperação é "curioso", já que a própria SAF alvinegra já era, em si, "um instrumento para sanear os débitos que o clube possuía antes de sua criação". Com isso, o entendimento do advogado é que a intervenção judicial no clube seria para "salvar o salvador" - no caso, Textor, antes de ser afastado.
"É curiosa a aplicação de um instituto que busca recuperar uma empresa ser aplicada no contexto da SAF. A própria ideia de se constituir uma SAF é prover um caminho de recuperação da instituição associativa que é o clube de futebol", salientou.
"A SAF passa a existir, portanto, como um instrumento para sanear os débitos que o clube possuía antes de sua criação. A partir do momento que é necessária a recuperação judicial para uma SAF, que já é um instrumento de recuperação, fica uma sensação de bis in idem [N.R.: latim para 'duas vezes sobre a mesma coisa'], como 'salvar o salvador'", acrescentou.
O especialista salienta, porém, que apesar da sensação curiosa, não há qualquer impedimento legal para um SAF pedir recuperação judicial.
Ele acredita, inclusive, que outros clubes devem ingressar em breve com requerimentos semelhantes.
"É óbvio que esta observação inicial nada tem a ver com a possibilidade de uma SAF pedir e obter a recuperação judicial. Não há qualquer impedimento legal neste sentido", argumentou
"E, a julgar pelo andar de algumas das grandes experiências de SAF no país , Botafogo e Vasco, mas também o Atlético-MG atravessa grande crise financeira, a utilização do direito da insolvência parece mesmo se tornar um caminho que será comum neste engatinhar da experiência inicial de utilização das Sociedades Anônimas de Futebol", opinou.
Rescisões de jogadores?
Sobre o pedido feito pelo Botafogo para que jogadores não possam rescindir contratos ou se recusarem a entrar em campo por falta de pagamentos referentes aos débitos anteriores à data de 21 de abril de 2026, o advogado descreveu a situação como "espinhosa".
De acordo com Petracioli, o tema é passível de muitas interpretações, e, em caso de decisão totalmente favorável ao Glorioso, pode gerar diversos recursos por parte de atletas e empresários, especialmente na Justiça do Trabalho.
"A questão é espinhosa. Por um lado, no caso da atividade de um clube de futebol, o contrato de um jogador claramente é essencial à manutenção da atividade. A decisão judicial foi por este caminho, proibindo a rescisão cuja justificativa seja o inadimplemento ou o próprio pedido de recuperação", afirmou.
"Por outro lado, o contrato em questão tem natureza trabalhista, e, os pagamentos de salário, natureza alimentar. Desta forma, se trata de alterar o direito ao trabalho, que é individual - diferente de um contrato comercial, de natureza e institutos diversos. Há possibilidade, portanto, de que neste ponto específico a discussão judicial precise se aprofundar, principalmente em grau de recurso", finalizou.
Cenário catastrófico
De acordo com o pedido de recuperação enviado pelo Botafogo ao poder judiciário, o time tem um passivo total superior a R$ 2,5 bilhões, sendo cerca de R$ 400 milhões só em dívidas tributárias.
Desse montante, R$ 1,4 bilhão é referente a dívidas "já vencidas ou com vencimento próximo, até o fim do ano de 2026", segundo os documentos apresentados à Justiça.
A situação é tão preocupante que o Glorioso admite que, com o acúmulo de cobranças, não há recursos para quitar nem mesmo a folha sarial do mês de maio.
A equipe carioca ainda diz que fechou no vermelho em seus três últimos balanços, fazendo com que o patrimônio líquido da SAF chegasse a R$ 427,2 milhões negativos.
Próximos jogos do Botafogo:
Internacional (C) - 25/04, 18h30 (de Brasília) - Brasileirão
Independiente Petrolero (C) - 28/04, 19h (de Brasília) - CONMEBOL Sul-Americana - Transmissão do plano premium do Disney+
Remo (C) - 02/05, 16h (de Brasília) - Brasileirão
