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De briga com Real Madrid a possível banimento da Champions: o que você precisa saber sobre novo escândalo do Barcelona

Joan Laporta, presidente do Barcelona, durante entrevista coletiva pelo clube Lluis Gene/ Getty Images

Dois meses após o 'Caso Negreira' ser revelado, Joan Laporta, presidente do Barcelona, apareceu em uma coletiva de imprensa bombástica para dar sua versão sobre a história. Mas ainda há perguntas e respostas em torno da enorme polêmica da arbitragem que levou caos aos bastidores do clube catalão.

O Barça deveria estar se preparando para comemorar o primeiro título de LaLiga desde 2019 com a vantagem de 11 pontos em relação ao Real Madrid. Mas em vez disso, o foco está fora do campo.

Em março, um tribunal da Espanha abriu uma investigação sobre pagamentos de mais de 7 milhões de euros feitos pelo Barcelona a empresas de José Maria Enriquez Negreira, ex-vice-presidente da comissão de arbitragem, entre 2001 e 2018.

O clube insiste que este dinheiro foi enviado de forma transparente e por serviços legítimos, com as empresas de Negreira fornecendo relatórios de scouting e informações técnicas sobre arbitragem. Os promotores espanhóis alegam que o Barcelona estava comprando favores dos árbitros com o objetivo de influenciar resultados, algo que o clube nega veementemente.

À medida que as consequências da revelação dos pagamentos continuam, três pontos ganham força:

  • - A discussão entre Laporta e o presidente da LaLiga, Javier Tebas;

  • - As relações institucionais entre Barcelona e Real Madrid, que melhoraram nos últimos anos, foram levadas ao limite;

  • - A UEFA abriu sua própria investigação independente no final de março;

O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, chamou o caso de “situação extremamente séria, uma das mais sérias que já vista desde que se envolveu com futebol”, com possíveis punições, incluindo a eliminação do Barcelona na próxima temporada da Champions League.

Em outra coletiva de imprensa como ‘showman’, Laporta alimentou a teoria de que há uma campanha de difamação organizada contra o Barça, disparou contra Tebas e Madrid, tentou justificar o desembolso de 7 milhões de euros e enfatizou que ainda não há evidências contra o clube.

Fontes disseram à ESPN que o 'Caso Negreira' pode se arrastar por meses, senão anos, e as consequências podem ser sísmicas para um dos maiores clubes do futebol.

Mas como o Barcelona chegou até aqui, do que eles são acusados e o que acontece a seguir?

Quem é José Maria Enriquez Negreira?

Negreira, de 77 anos, foi árbitro da LaLiga de 1977 a 1992, e depois se tornou vice-presidente do comitê de arbitragem da Espanha. Foi durante este cargo que suas empresas receberam mais de 7 milhões de euros de Barcelona. Ele deixou o cargo no comitê em 2018, mesmo ano em que terminou sua relação com o clube.

Do que o Barcelona é acusado?

O caso surgiu em 15 de fevereiro, após uma investigação do fisco espanhol sobre 1,4 milhão de euros que as empresas de Negreira receberam do Barcelona entre 2016 e 2018.

A totalidade dos ganhos do Barça saiu nos dias seguintes.

Antes que o inquérito se tornasse público, Negreira disse às autoridades fiscais na época que o Barça havia buscado tratamento “neutro”. Ele não falou desde então porque, de acordo com informações, ele tem Alzheimer de início precoce.

Em março, promotores apresentaram acusações sobre corrupção esportiva, corrupção nos negócios, falsa administração e falsificação de documentos comerciais contra o Barcelona. Foi a primeira vez que o clube foi oficialmente acusado de comprar árbitros.

De acordo com relatório do Ministério Público, cuja cópia foi enviada à ESPN, o clube, os ex-presidentes Josep Maria Bartomeu e Sandro Rosell, e vários executivos tinham acordo para Negreira “realizar ações visando favorecer o Barcelona em decisões dos árbitros nas partidas disputadas pelo clube, e assim nos resultados das competições”.

O caso foi acolhido pela justiça espanhola. A LaLiga, a Real Federação Espanhola de Futebol [RFEF] e o Real Madrid, entre outras instituições, a se juntarem à denúncia.

O que o Barcelona diz?

O Barcelona não nega que sob quatro presidentes diferentes - Joan Gaspart (2000-2003), Laporta (2003-2010), Rosell (2010-2014) e Bartomeu (2014-2020) - pagou mais de 7 milhões de euros às empresas de Negreira. O que eles refutam veementemente é que o dinheiro foi gasto para buscar uma vantagem esportiva.

Para tentar provar isso, Laporta foi à sala de imprensa para falar a jornalistas com pastas contendo o que ele disse serem mais de 600 reportagens e 43 CDs sobre árbitros e jogadores compilados pelo filho de Negreira, Javier Henrique Romero. Laporta disse que eram do período 2014-2018.

A política do clube de destruir documentos com mais de cinco anos significava que mais relatórios não estavam disponíveis. Laporta disse que eles eram completos, necessários e elaborados por pessoas respeitáveis.

A aparição de Laporta serviu principalmente como uma oportunidade para transmitir a teoria de que o Barcelona é a vítima. Ele classificou o fato como o ataque "mais feroz" ao clube de todos os tempos, criticou especialmente Tebas e Real Madrid, enquanto acrescentou que o Barcelona já havia entrado com 20 ações judiciais contra jornalistas por difamação.

Ele também não descartou novas ações legais, sugerindo que o Barça poderia receber "uma quantia astronômica de compensação" como resultado dos danos causados à reputação.

Por que Laporta e Tebas estão brigando?

Laporta e Tebas, presidente de LaLiga, discutiram nos últimos anos sobre a recusa do Barça em assinar acordo de investimento de 2 bilhões de euros da liga com a empresa de patrimônio privado CVC Capital Partners. O ‘revide’ foi o registro do contrato do meio-campista Gavi dentro das mais rígidas regras de fair play financeiro da liga. O 'Caso Negreira' levou essa a outro nível.

Tebas classificou como “a maior crise de reputação de todos os tempos no futebol espanhol”, e repetidamente exigiu que Laporta desse uma explicação satisfatória ou renunciasse.

O Barça, por sua vez, disse que Tebas deveria renunciar depois que uma reportagem do jornal La Vanguardia de abril alegou que o cartola forneceu provas falsas contra o clube como parte da investigação sobre os pagamentos feitos a Negreira.

Segundo a reportagem, os documentos faziam parte de outro caso, não vinculado a Rosell ou Bartomeu, ex-presidentes do Barça, e tinham décadas. Tebas respondeu no Twitter dizendo que o título do artigo era "falso", não "acusou ninguém especificamente" de nada e acusou o jornalista de calúnia.

“Estamos testemunhando um julgamento público no qual pessoas estão tentando prejudicar aqueles de nós que não se curvaram às suas exigências e vontades”, disse. “Nesse sentido, destacaria Tebas, que agiu de forma irresponsável e pouco profissional. Com suas constantes declarações, ele alimentou a polêmica e até forneceu documentação falsa aos promotores. Pediria que contivesse sua incontinência verbal porque não favorece à instituição que representa”.

O que o Real Madrid tem a ver com tudo isso?

Uma fonte de alto escalão do Barcelona descreveu a relação do clube com o Real Madrid como “cada vez mais desconfortável”, sendo testada pelo escândalo de Negreira.

O Real Madrid, que é parceiro do Barça no projeto da Superliga Europeia e muitas vezes seu aliado em brigas com Tebas, manteve o silêncio quando os outros 18 clubes da LaLiga divulgaram um comunicado “condenando os fatos conhecidos” quando pagamentos do Barça a Negreira vazaram.

No entanto, eles decidiram se juntar à queixa apresentada pelos promotores em março como reclamantes, o que foi a raiz da ira de Laporta na segunda-feira.

“Eles afirmam sentir-se agravados em termos desportivos. Isso vem de um clube, como todos sabemos, que foi historicamente privilegiado pela arbitragem por 70 anos. E ainda é. Este é um clube que era considerado 'o clube do regime [Franco]'. Ver este clube juntar-se à queixa e declarar-se desfavorecido é uma demonstração de cinismo sem precedentes”.

Foi uma declaração notável e a resposta do Real Madrid foi à altura.

Eles responderam nas redes sociais dizendo que o Barça esteve mais próximo de Franco, que governou a Espanha como ditador entre 1939 e 1975, com um vídeo de quatro minutos intitulado “Quem era o clube do regime?”.

A explicação do Barcelona é aceitável?

A ESPN conversou com fontes de vários clubes da LaLiga para saber se havia uso generalizado de relatórios técnicos sobre arbitragem. A maioria conhecia tais serviços, mas apenas alguns utilizavam.

Os relatórios incluem informações sobre como um árbitro age em campo em termos de como respondem a certos eventos, como toques de mão na bola, e sua propensão a ser influenciado por protestos de jogadores ou da torcida.

Ernesto Valverde, técnico que comandou o Barcelona, disse que esses relatórios nunca foram disponibilizados a ele, embora tenha assumido apenas em 2017, pouco antes do término do relacionamento do clube com Negreira. Xavi Hernandez, o atual técnico, diz que os conhecia quando jogava.

A questão maior é o custo.

Fontes de cinco clubes espanhóis disseram que o suposto gasto do Barça com esses serviços, algo que outros clubes também recorreram, parecia excessivo. Há ainda a explicação de que os 7 milhões de euros foram pagos em 18 anos. Isso giro em torno de 400 mil euros anuais, embora o dinheiro pago a Negreira tenha aumentado com o tempo.

Segundo Laporta, no último ano de seu primeiro mandato, 2010, o preço subiu porque o clube precisava de dados de prospecção e análise de vídeo em um leque maior de competições. Esse foi o outro serviço que o Barça disse que a empresa de Negreira prestou.

Laporta insiste que o preço pago e os aumentos subsequentes “estavam de acordo com as taxas de mercado”, mas o Barça agora realiza as mesmas operações internamente por uma fração do custo, embora fontes do clube não tenham confirmado à ESPN exatamente quanto.

Para aumentar a confusão está o papel do filho de Negreira, que não está listado como réu no caso dos promotores, e do falecido ex-diretor do Barcelona, Josep Contreras.

A maior parte das provas apresentadas por Laporta são relatórios compilados pelo filho de Negreira entre 2013 e 2018.

Segundo relatórios, a empresa do filho de Negreira, que faz vídeos de coaching, recebeu 297 mil euros pelo trabalho. No entanto, ela não foi paga diretamente pelo Barcelona, mas por uma empresa terceirizada ligada a Contreras, falecido no ano passado.

O Barça pagou mais de 450 mil euros ao negócio vinculado a Contreras, deixando-o com uma comissão de mais de 150 mil euros. Algumas reportagens nas últimas semanas sugeriram que ex-executivos do clube poderiam estar ganhando dinheiro com os pagamentos.

Como eles poderiam ser punidos?

Enquanto aguarda o resultado da investigação, o Barcelona pode enfrentar uma grande multa (fontes judiciais não quiseram especular valores porque, segundo eles, é um caso sem precedentes na Espanha), e os ex-presidentes e executivos, junto com Negreira, podem ser condenados a até dez anos de prisão se forem considerados culpados das acusações de corrupção.

Até que haja uma decisão, é improvável que haja repercussões esportivas para o Barça.

Tebas já confirmou que LaLiga está de mãos atadas após a introdução da nova lei esportiva na Espanha, na qual eventos ocorridos há mais de três anos estão isentos de punição devido ao prazo. No entanto, não existem tais restrições para a Uefa.

Laporta pareceu ceder ao órgão europeu, dado que tem o poder de expulsar o Barça da Uefa Champions League na próxima temporada segundo regulamentos introduzidos em 2007. Ele agradeceu à Uefa por “não cair na armadilha de Tebas”, apesar dos comentários de Ceferin.

Se a Fifa se envolvesse, a entidade poderia tirar pontos do Barcelona ou até rebaixar o time, embora não haja precedente para agirem com tanta força neste nível.

O que acontece agora?

Fontes próximas ao caso sugerem que até que haja avanços no processo legal, tudo permanece igual.

Uma vez que haja clareza nos tribunais, a Uefa e outras instituições do futebol provavelmente decidirão o caminho a seguir. A Uefa não precisa ser guiada pela decisão do juiz, já que seus regulamentos são diferentes. Pode expulsar clubes das competições europeias por “qualquer atividade” considerada como “arranjar ou influenciar o resultado de uma partida”.

A outra preocupação do Barcelona é que o dano à reputação causado pelo escândalo não possa ser revertido. O técnico Ronald Koeman disse na semana passada que a imagem do clube foi manchada na Holanda, um país onde eles têm fortes ligações, e fontes disseram à ESPN que temem que esse seja o caso em todo o mundo. É por isso que Laporta foi tão forte em dizer que vai entrar com uma ação legal.

Esse prejuízo já repercutiu em termos de patrocinadores e relacionamento com entidades financeiras. Uma fonte confirmou à ESPN que, nas negociações de 1,5 bilhão de euros em financiamento para reconstruir o Camp Nou, os credores expressaram preocupação de que a capacidade do Barça de pagar o empréstimo seja afetada pela crise.

A preocupação é que qualquer sanção afete fortemente a receita do clube, seja em reduções de patrocínio ou perda de prêmios em dinheiro.

Além de punições e multas, há muito em jogo para o Barcelona, que se considera “mais do que um clube”. O período em questão inclui a era de ouro do técnico Pep Guardiola [2008-2012] e quatro triunfos na Champions League [2006, 2009, 2011, 2015].