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'Se deixar, apita o jogo': como é, na visão dos árbitros, lidar com Hulk em partidas do Atlético-MG?

Hulk acabou sendo um dos nomes da derrota do Atlético-MG para o Palmeiras, por 4 a 0, mesmo tendo ficado pouco mais de 30 minutos em campo. É que ele foi expulso ainda no primeiro tempo, após receber dois cartões amarelos seguidos por reclamação, e deixou seu time com um a menos.

Rodrigo José Pereira de Lima justificou o vermelho da seguinte forma na súmula: o primeiro amarelo veio por reclamação após a marcação de uma falta para o Galo: "Apita logo, c***!", teria dito Hulk, segundo o relato. A segunda advertência veio instantes depois, mais uma vez pelo mesmo motivo.

"Após receber cartão amarelo por reclamação, o mesmo partiu em minha direção de maneira acintosa, ficando face a face comigo e gritando de forma desrespeitosa as seguintes palavras: 'Me diz o porquê do cartão, me diz o porquê'. Após ter sido expulso o mesmo empurra meu rosto com o dedo indicador de forma ofensiva e se negando a sair do campo de jogo. Quando o jogador decidiu deixar o campo de jogo proferiu a seguinte frase em direção ao árbitro: 'Filho da p***'."

Na saída de campo, inclusive, Hulk procurou uma das câmeras da transmissão para manifestar sua insatisfação. "Coloquei a mão para trás e perguntei por que ele me deu amarelo. Agora, pode pegar câmeras, áudio, tudo. Isso aí é demais, isso é impossível", bradou o atacante atleticano.

Está longe de ser o primeiro episódio do tipo envolvendo Hulk no futebol brasileiro. Seja pela reclamação, a expulsão ou até mesmo a reação diante das câmeras. Para aprofundar a análise sobre a forma como o jogador é visto pela arbitragem, a ESPN ouviu diversos profissionais do apito, entre juízes e auxiliares, sob condição de anonimato, que já tiveram que lidar com o atacante.

Os relatos são unânimes em relação à forma como o atleta se porta. A questão é como cada árbitro lida com isso: alguns admitem ter problema com a falta de limites de Hulk; outros, conseguem dialogar. Até mesmo a leitura labial, pedida pelo jogador contra o Palmeiras, foi citada por um juiz.

"Em campo, ele abaixa a cabeça e xinga, para não fazerem leitura labial. Ai depois levanta, dando de coitado. Insuportável", disse um dos profissionais que aceitou falar com a reportagem.

"Às vezes ele consegue tirar do sério o árbitro mais calmo que existe, pois a reclamação é constante. O Hulk, se deixar, apita o jogo", afirmou outro. "O Hulk questiona tudo, o tempo todo e, muitas vezes, passa do limite da forma que aborda nós, árbitros, mas a gente precisa manter o equilíbrio", avaliou um terceiro, indicando um caminho de "diálogo" também apontado por outro profissional.

"Lidamos com todo o tipo de jogador, o árbitro precisa entrar preparado. Eu consigo manter um diálogo com o Hulk sem ter maiores problemas, na base do respeito."

Opinião de Renata Ruel: arbitragem é arte que poucos dominam

A dificuldade da arbitragem em lidar com alguns jogadores em campo é real. Hulk, inclusive, não é o único que já protagonizou problemas de relacionamento no campo com árbitros.

Antes de Rodrigo José Pereira de Lima, por exemplo, Anderson Daronco e Hulk já trocaram acusações e ameaças em campo, o árbitro acabou punido e não apitou mais jogos do Atlético-MG.

A arbitragem é uma arte que vai muito além de um livro de regras. O árbitro precisa ser um administrador, um gestor de pessoas muitas vezes, ter uma leitura de jogo e dos jogadores, saber que ele é um mediador e precisa manter o equilíbrio em campo.

Porém, os árbitros também são humanos e, assim como os jogadores, podem entrar em campo com um problema pessoal que interferirá no seu desempenho.

É importante ressaltar que, muitas vezes, o capitão do time acha que pode reclamar o tempo todo, falar o que quer somente pelo fato de ser o capitão. Mas não é assim que funciona... Assim como é importante o árbitro conhecer o estilo do jogador, o contrário também se faz necessário. Há árbitros abertos à conversa e outros não – veja os relatos acima ou a diferença, por exemplo, entre Wilton Pereira Sampaio e Raphael Claus, para citar dois nomes conhecidos do cenário nacional.

Ao assistir um jogo na arquibancada ou pela TV é possível identificar jogadores que reclamam além do limite, e isso é ruim para o espetáculo futebol. Outro fator interessante é observar que muitos jogadores que vieram na Europa reclamam muito aqui, mas lá respeitavam mais a arbitragem...

Claro, há diferença de arbitragem, de cultura, porém, para o futebol ser mais prazeroso de assistir, todos precisam fazer sua parte, e o respeito mútuo não pode faltar.

Luis Fabiano, que “já foi Hulk”, reprova expulsão contra o Palmeiras

Como assistente, Renata Ruel trabalhou em partidas de Luís Fabiano, hoje comentarista da ESPN, como jogador. Ela lembra que nunca teve problema com o ex-atacante, ao contrário de outros companheiros de profissão.

"Os assistentes marcavam impedimento o tempo todo, mesmo sem ele tocar na bola, e ele xingava pacas. Eu só marcava se ele interferisse claramente, e nunca tive problema com ele. A arbitragem é uma arte que poucos dominam."

No Resenha da Rodada, na segunda-feira (17), Luís Fabiano falou sobre a expulsão de Hulk contra o Palmeiras e comparou justamente com sua época de jogador. "Não foi justa. Falta um pouquinho da arbitragem do passado, aquelas que a gente xingava o árbitro, o árbitro xingava a gente, e estava tudo certo, ficava por isso mesmo."

"Mas jogadores marcados como o Hulk, como eu era, precisava dar uma dosagem na reclamação. Porque árbitro tem paciência zero e espera um deslize para botar para fora mesmo. Olhando agora, sentado aqui, é fácil, mas passei pelo que o Hulk passou e sei como é difícil ficar calado."

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